Os três nódulos

Pois é. Quem está vivo sempre aparece. Eu que estou na janela da vida há 67 anos, desaparecer – como desapareci – dá na vista.

Se, você que acompanha as minhas vidas de cidadão e profissional, ficou surpreso, imagina o que isso representou para mim. Sou um cara saudável, nos limites da média brasileira. Diagnosticado hipertenso e diabético nos anos 70, vinha tirando de letra – com equilíbrio exemplar – a manutenção dos níveis de controle recomendados pelos médicos.

Não sabia eu o mal que os medicamentos provocavam no estado geral da minha saúde. Alertado nos anos finais do século passado (olha, velho é a vovozinha!), que o meu fígado estava desenvolvendo três nódulos que futuramente poderiam ser cancerígenos, não levei a sério. Continuei tomando meu vinho em todas as refeições, comendo meus churrascos nos fins de semana e fazendo as refeições caseiras sem qualquer controle.

Claro, não deu outra. Em 2015 numa consulta de rotina o médico foi claro e direto: “É preciso fazer uma tomografia.

Um dos nódulos do seu fígado cresceu muito e temos de investigar”.

Duas semanas depois estava eu lá, meio arisco, mas ainda crente no poder heroico da minha saúde. Caí do cavalo. O médico foi firme e direto.

– O nódulo está com uns nove centímetros de comprimento por uns uns seis de diâmetro.

– E agora doutor?

– O caminho é cirurgia o quanto antes.

– Mas eu não conheço nenhum cirurgião, o senhor poderia me indicar algum nome?

– Sim, aqui mesmo no nosso hospital temos um cirurgião renomado e experiente nesse tipo de cirurgia, é o Dr. Eden, o consultório dele é aqui, se você quiser falar com ele…

Sim, sim doutor, se é de sua confiança e ainda com um nome bíblico – brinquei – deve ser muito bom.

Meia hora depois da apresentação estávamos com a cirurgia programada para daí uma semana.

Nos despedimos, a Preta estava comigo. A Preta, sabeis, é a minha excelentíssima esposa Nivalda, mãe de nossos cinco filhos, avó de oito netos e bisavó de cinco bisnetos).

Curiosamente, saímos completamente à vontade com relação a cirurgia, tal o clima descontraído com que fomos tratados pelo médico e a equipe dele.

A cirurgia, considera complexa, feita num cliente com 83 anos estava sendo vista pela equipe com a naturalidade necessária, mas também com outros cuidados. Por exemplo, a questão do sangue. Poderia haver necessidade de sangue de terceiros. Felizmente não precisou. A cirurgia foi sucesso completo, à tarde eu já estava tomando sopinha, sendo lavado pelas enfermeiras e cumprimentado pelo pessoal da equipe. O melhor ainda é que no dia seguinte ganhei alta e vim para casa, com direito a tomar a sopinha tradicional de caldo de frango com ovos batidos.

Até aí tudo bem. Tudo Bem. Estava tão bem que resolvi retirar parte da próstata que estava muito crescida fazendo pressão sobre a bexiga.

Como prevenção o médico indicou uma série de exames que incluíam até os da medicina nuclear e imagem molecular – uma novidade na praça, diga-se de passagem.

Lá por maio-junho de 2016 estourou a bomba: há três nódulos em atividade – no fígado, na próstata e no quadril esquerdo.

A recomendação médica veio em seguida.

– Você precisa ser atendido por especialista em oncologia.

Na primeira visita à oncologista, a definição: o tratamento inclui o uso de quimioterapia. E a médica completa:

– Hoje temos medicamentos de uso oral, mais avançados, e com menos efeitos colaterais.

Receita na mão fiz a solicitação ao meu seguro saúde.

A empresa respondeu de imediato: Esse produto é importado e a caixa com 60 comprimidos custa entre seis mil e oito mil reais. Ele está fora do que cobre o seu seguro.

Como relatei na semana passada, aqui neste espaço, eu não tinha como financiar a importação e tive que recorrer a Justiça. Felizmente a tramitação foi rápida e em pouco mais de 30 dias eu estava com o medicamento na mão e a indicação de tomar quatro comprimidos por dia. Portanto, cada caixa duraria somente 15 dias. Os advogados agiram rápido, a responsável pelo seguro saúde foi compreensiva e o medicamento foi fornecido imediatamente.

Para encurtar o caso, dia 07 de novembro de 2016 eu estava entrando no incrível mundo da quimioterapia. Minha primeira reação foi a de absolta rejeição. Como isto não era possível manter, segui as determinações de tomar quatro comprimidos pela manhã e outros quatro a noite.

Os efeitos colaterais não se fizeram de rogados e já estavam agindo a partir da segunda dose. Tontura, alucinações e insegurança passaram a me dominar. Logo, nos dias seguintes, aparecem os efeitos colaterais físicos: voz alterada, calor, coceiras, manchas por todo o corpo e uma incrível hipersensibilidade nos pés; a ponto de me impedir de andar calçado. Enfim, o caos.

Foram três meses de fossa. Eu desnorteado, deprimido, sem vontade de fazer nada. Nem dormir eu estava dormindo direito. Não tinha vontade de me alimentar, nem tomar banho ou trocar de roupa. Aliás, não conseguia sequer olhar os alimentos, quando mais comer alguma coisa. O negativismo era tanto que me custou uma depressão desmesurada que me levou a perder seis quilos.

Numa consulta a médica falou na importância de uma atitude positiva da minha parte e me estimulou com palavras cheias de entusiasmo e suspendeu a medicação quimioterápica.

A mudança foi do dia para a noite. Me senti animado, entusiasmado mesmo. Acabou a intolerância a alimentação.

Minha vontade de produzir alguma coisa ressurgiu com força total. Voltei a responder a correspondência por e-mail e das demais redes sociais. Retomei os contatos telefônicos e até cheguei a conclusão de manter uma coluna semanal no site do Instituto Caros Ouvintes.

Estou sarado? Eis a questão. Estou melhor e em franca recuperação, isso posso garantir. O que importa, no entanto, é o aprendizado que se faz. E, consequentemente, o que se pode fazer com ele. No meu caso volto ao “amor altruísta, pelo contentamento, pela modéstia, pela apreciação, pela solicitude, pela generosidade e pela simpatia” (Matthieu Ricard. A arte de meditar, 2009).

PS – “A atitude que eu tome perante a vida é a mesma que a vida vai tomar perante mim”. (O Espelho de Gandhi)

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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