Osvaldo David Agra Filho

Externas, rádio-escuta, radioteatro, essas são algumas das experiências de radialista de Joinville. “O radioteatro começou na Difusora”, afirma David Agra Filho.
Ricardo Wegrzynovski, de Joinville“Lembro da bica da água na rua Dr. João Colin, onde hoje é a panificadora da Villa”, assim começa a conversa nostálgica com Osvaldo David Agra Filho, sobre os idos anos de 1960 do rádio joinvilense. Nesta reportagem vamos o olhar de quem foi ator de radioteatro e ainda hoje aos 63 anos é responsável pelas transmissões externas da Difusora de Joinville.

David Agra, como é conhecido, começou no rádio joinvilense em 1960, e até hoje continua fiel à labuta diária. O início da carreira foi com o radioteatro na Difusora de Joinville onde permaneceu até 1962 quando foi para a rádio Cultura, onde ficou até o final ano. Sobre como que define o radioteatro da época, diz que “são adaptações de contos ou histórias contadas em forma de diálogos que chegam a reunir até dez ou mais intérpretes, quando cada um recebe um script referente a sua participação”.

David Agra lembra que na Difusora chegou a fazer adaptação da obra “O Guarani, de Carlos Gomes”, mas, o mais comum eram os textos tinham cunho religioso. Já na rádio Cultura as peças remetiam ao que hoje vemos na televisão “eram tipo essas da TV Globo de hoje”, recorda. Na Difusora o grupo chamava-se Obreiros do Amor, e o elenco chegou a contar com cerca de 22 radioatores. Quando o grupo da Difusora se dissolveu indo para a rádio Cultura, outro foi formado com a mesma média de pessoas. O grupo Obreiros do Amor surgiu de encontros de fiéis na igreja Sagrado Coração de Jesus, e era composto por homens, mulheres e crianças. Alguns acabaram se destacando nacionalmente, “como foi o caso de Marlene Aguiar, que foi trabalhar em rádio na capital paulista, também um senhor cujo primeiro nome é Álvaro, foi trabalhar em rádio no Rio de Janeiro”, diz.

Na parte técnica, o radioteatro contava com o apoio de um sonoplasta que fazia e controle de som utilizando uma mesa com diversas entradas de microfone e de dois toca-discos instalados como parte do mesmo console, hoje conhecido como mesa de áudio ou simplesmente como “mixer”. Num dos pratos o sonoplasta só tocava efeitos, tipo mugido, latidos, assobios, buzinas, e outras simulações de som, já no outro “prato” eram rodadas as trilhas sonoras ou efeitos musicais. Fazia parte do elenco a figura do contra-regra, que ficava produzia os sons mais comuns como o bater de uma porta, rodar a chave na fechadura, tocar uma campainha etc . “Era mais interessante do que a TV, pois não dava para ver, tinha que criar uma personalidade, era um país do faz de conta”, diz Agra.

Quanto à voz, como ocorre com radialistas até hoje, as pessoas se enganavam. “Tinha o Hélio Ribeiro, que com seu vozeirão dava a impressão de tratar-se de um gorila, no entanto era um cara mediano, quase franzino se comparado com o potencial que a voz dava impressão”. A repercussão dos programas também era grande, “alguns telefonavam bravos com o que acontecia nas peças” recorda com saudosismo.

Na época do radioteatro na Difusora o diretor-artístico e coordenador geral da rádio era Pedro José de Oliveira Lopes, que hoje mora em Itajaí, aposentado como Fiscal da Fazenda. Outro diretor conhecido na época do radioteatro em Joinville era Diógenes Breco, que entre outros dirigia o ator Jota Montez, que fez carreira no rádio.
 
Porém, como acontece até hoje no teatro amador, os artistas não ganhavam salários, o que possivelmente tenha influenciado também para o término das apresentações. Os integrantes dos casts de radioteatro eram remunerados na forma de cachê por participação. Só recebia quem estava escalado. Mas, o que fez acabar com as apresentações foram as novelas “enlatadas” que vinham prontas de outros estados. Foi nessa época que os joinvilenses começaram a se desinteressar pelo radioteatro e com isso os programas de radioteatro ao vivo acabaram. Entre as novelas que vinham prontas destacam-se as da Gessy Lever, que já vinham gravadas em capítulos e até com publicidade, sem custo para as emissoras. Agra lembra com tristeza desse período “daí foi dissolvendo o grupo, quando surgiram os primeiros enlatados fiquei uns quinze dias parado, depois entrei no esporte”.

Agra fala de artistas que escutava e que via trabalhar sob o comando de Wolfgang Brozig, o fundador da Difusora de Joinville. Conta que na década de 1940, René Rolim já fazia radioteatro na Difusora, depois parou quando foi convidado a trabalhar no Banco do Brasil. Também a esposa de Brozig, Juraci era uma das estrelas da época. Quanto a Fausto Rocha Junior, que hoje dá nome a Casa da Cultura local, Agra diz que chegou a trabalhar com ele por pouco tempo. “Quem trabalhou muito com ele foi o Jota Montez, eles faziam um programa de auditório”, recorda. Fausto Rocha Junior acabou indo mais tarde para São Paulo, a convite do cantor Agnaldo Rayol quando este veio se apresentar em Joinville. Rocha Junior chegou a trabalhar em novelas de televisão e participou do elenco do filme Meu Pé de Laranja Lima, contracenando com Lima Duarte e Mazzaroppi.
 
Outros que se destacaram nos programas de auditório, segundo Agra, foram Manduca, Mário Hüttel e Rafael Tavares. Os programas com maior audiência eram ao vivo, aos domingos, das 10h às 12h00, que em princípio eram realizados na própria emissora, depois foram transferidos para o “Palácio dos Esportes”, onde hoje é o ginásio Abel Schulz.
 
Determinado dia, por ter gravado uma fita para rádio-escuta, tida como supostamente trocada, acabou levando uma bronca de um superior da rádio Cultura. “Fui embora na mesma hora. Foram correndo, atrás de mim pedindo pra eu voltar  até a escadaria da Colon, onde tinha emprego garantido” desabafa orgulhoso por não ter voltado atrás naquele momento. Porém, Agra acabou voltando para a Cultura seis meses mais tarde.

Como os artistas não tinham salários o jeito para sobreviver era manter dupla jornada. Com David Agra não foi diferente. Trabalhava durante o dia na Maderense Elias Malamud e Filhos, do Brasil, onde exercia funções burocráticas de escritório. A partir das 18h30 seguia direto para casa tomar um banho rápido e partir para a Rádio Difusora. A matriz da empresa madeireira era na Argentina. Em Joinville a sede ia de onde hoje funciona a Cipla, na avenida Getúlio Vargas, até a rua Piauí, onde hoje é o shopping Americanas. Na mesma empresa que mais tarde passou a se chamar Elias Malamud S.A, Agra trabalhou de janeiro de 1955 até o final de 1968.

Paralelamente, entre 1962 a 1969, Agra trabalhou como Plantão Esportivo e rádio-escuta. Entre os responsáveis pela entrada, do então ator de radioteatro David Agra, nos esportes foi o locutor Oscar de Souza. Na época, Agra contava inclusive com apoio da família. “O pessoal em casa também ajudava, gravando programas que iam ao ar às 18h00 em outras emissoras que eram captadas pelas ondas curtas”, diz explicando que essas gravações ajudavam na elaboração dos jornais da emissora que iam ao ar no meio dia seguinte. “Lembro que a própria imprensa escrita saia com dois dias de atraso quanto ao imediatismo das notícias, eles esperavam nosso jornal ir para o ar para saberem das pautas”, diz se referindo ao Jornal de Joinville e A Notícia. Porém, quando era de fato “extraordinária” a notícia era passada antecipada para os jornais. Um dos fatos marcantes foi quando morreu o dono do Jornal de Joinville, o lendário Assis Chateaubriand “foi nós que avisamos, pois tínhamos escutado no rádio paulista” diz.
 
“Fazer rádio-escuta não é tarefa simples”, diz recordando que ouvia emissoras como a Clube do Paraná e outras de São Paulo. “Era mais fácil saber os resultados de fora do estado do que de Blumenau”. O telefone, por exemplo, era muito disputado e eram poucas as possibilidades de ligações o que complicava as transmissões esportivas. As linhas telefônicas disponíveis eram alugadas preferencialmente pelas rádios Clube de Itajai, Guarujá, Tabajara de Tubarão, Eldorado de Criciúma, Difusora de Criciúma e  Clube de Lages. A dificuldade era grande, pois a Companhia Telefônica Catarinense não dava conta de atender o número de emissoras e ainda corria-se o risco das quedas de linha durante as transmissões. Quando a rede telefônica pifava, o que salvava para divulgar os resultados de outras cidades era o rádio amador, que inclusive é usado até hoje pela Difusora. Agra começou a fazer transmissões externas, na Difusora em 1969 onde permanece até hoje.
 
Ainda neste final do mês de março, David Agra Filho vai passar por uma cirurgia no miocárdio, pois teve dois infartos “sem perceber que estava enfartado segui normalmente, agora vou ter que operar”, diz. Homem de vida saudável, afirma que andou exagerando nas caminhadas e no ritmo de trabalho. Agra mais uma vez, com sua cirurgia, pôde contar com apoio dos veículos de comunicação. Quando solicitou para alguns colegas sangue para doação, vários deles imediatamente pediram em seus veículos de comunicação, seu tipo de sangue (0 +) para doação. “Precisava de 14 pessoas, no primeiro dia já tinham contabilizado 25”, afirma confiante. Agra também comemora por não ter parado de pagar o plano de saúde, que vai bancar boa parte dos trabalhos médicos. “A rádio Difusora com a nova direção resolveu parar de pagar, mas continuei por conta própria e não me arrependo, agora tenho meus direitos e vou aproveitá-los”.
 
Para a pergunta indiscreta sobre a idade, Agra diz que “Tenho 63, farei 64 só dia seis de abril de 2005, até lá é 63, com carinha de 62”, brinca. Osvaldo David Agra Filho nasceu em Araquari, cidade vizinha à Joinville, e conta orgulhoso que entre seus colegas conterrâneos está o atual prefeito de São Francisco do Sul, Odilon Ferreira de Oliveira.

*Ricardo Wegrzynovski [[email protected]], é estudante de jornalismo e trabalha em rádio e TV em Joinville.

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