Palavras que ficam

Há pessoas que vão e há pessoas que ficam. Existem palavras que ficam nos pensamentos e nunca são pronunciadas.

selo-cadeira-do-barbeiroSem contar os gestos que desejamos demonstrar, mas permanecem na intenção. Chega uma época do ano em que muitas pessoas vão visitar seus entes queridos em sua “última morada”.

Sem discutir crenças e opiniões, apenas reflexões nas frases no início do texto. Lembro-me de alguns depoimentos reais.

Um jovem me disse: “Quando cheguei à adolescência passei a ter vergonha de beijar e abraçar meu pai, algo que antes, quando criança fazia normalmente. Nem a sós e muito menos na presença de seus amigos, parecia ridículo fazer aquilo. Um dia pensei, por quanto tempo ainda terei meu pai comigo, ele ainda é novo, tem 49 anos, por que não demonstrar o amor que sinto por ele? Voltei a abraça-lo e beijá-lo em qualquer lugar, não importava quem estivesse por perto. Foi a melhor coisa que fiz. Meses depois meu pai adoeceu. Um câncer o levou em menos de seis meses, quando ele tinha apenas 50 anos de idade. Como me sinto feliz de ter enfrentado aquele sentimento tolo e demonstrado pra ele quanto o amava”.

Outro depoimento, duplo.

“Esse meu filho não tem jeito. De mais de seis filhos esse rapaz só me incomoda. Já tentei conversar, mostrar pra ele que devia seguir o exemplo dos irmãos, mas não tem jeito, o guri é difícil. Agora inventou de comprar uma moto. Nem consigo mais falar com ele, não tem mais papo”.
“Meu pai não me entende. Ele quer tudo do jeito dele, se não for assim está errado e pronto, é complicado. Eu tento falar com ele, mas não da, é muito impaciente. Eu sei que sou difícil também. Ele ficou louco agora que comprei a moto”.

“Ai meu amigo, que tristeza. Meu filho, meu filho. Tanto que eu falei. Ele comprou aquela moto. Do dia que ele comprou a moto não deu um mês e ele morreu num acidente semana passada. Eu não aguento mais. A minha cabeça parece que vai explodir. Eu devia ter conversado mais com ele. Por que não sentei naquela cama dele e conversei, por que não ouvi meu filho, sou culpado, minha cabeça dói muito”.

Uns três meses depois o pai cometeu suicídio. Não suportou a perda do filho e talvez algum tipo de remorso ligado ao seu relacionamento conturbado. Quem vai saber?

Visitar parentes em cemitérios em qualquer época do ano poderia servir de alerta para lembrarmos que o que temos de dizer, fazer, pedir é agora, em vida. Pessoas vão e pessoas ficam. Palavras vão e palavras ficam. Melhor aquelas boas palavras que são pronunciadas na hora certa. Palavras que terão acalentado um coração de alguém num momento certo e que hoje acalma e acalenta o coração e a mente dos que ficam. Melhor as boas palavras ditas do que as belas palavras guardadas apenas na intenção de um dia que talvez nunca chegue.

 

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