Palmadas

O tema é polêmico, explosivo, um prato cheio para reações destemperadas. Por isso mesmo, bom para um debate acalorado, pois parece que a ninguém é dado o direito de ser indiferente a ele. Quando alguém, com ou sem filhos, insinua que esta ou aquela é a melhor maneira de formar, de encaminhar uma criança, de dar-lhe um rumo, de ensinar-lhe como encarar as mazelas da vida, as opiniões nunca coincidem. É quase o mesmo de dizer que, depois de Pelé, o melhor de todos foi Maradona, Platini, Cruyff, Garrincha, Puskas e outros menos votados – ou que, por terem atuado num tempo sem tevê, deixaram esparsos registros de sua genialidade. Consenso, nessa seara, nem pensar.

O assunto voltou à tona por conta de um livro que traz o provocante título de “Tapa na bunda – Como impor limites e estabelecer um relacionamento sadio em tempos politicamente corretos”. Foi só saírem as primeiras reportagens acerca da obra para o mundo desabar sobre a autora, a terapeuta Denise Dias, que nada mais fez do que dizer que, sim, uma palmadinha ajuda a dar freios e moldar melhor o indivíduo para o futuro. Creio que sobre isso há não uma unanimidade, mas uma prevalência numérica dos que não concordam com o conceito de liberdade ilimitada que domina o pensamento dos teóricos da educação neste momento histórico. A ditadura do “sim”, para essa maioria, é a causa de uma série de distorções no comportamento infantil.

Porém, se é legítimo contestar as ideias da autora, absurdas são as ameaças feitas contra ela na internet. O curioso é que os que condenam as posturas tradicionais na maneira de educar são os mesmos que postaram mensagens pregando uma surra na terapeuta, sem sequer terem lido a obra, e boicotes à Matrix, responsável pela edição do livro. Uma incoerência que assusta, porque detrata um tipo de violência, que é a agressão de menores, capazes de traumatizá-los pela vida a fora, e estimula outra, contra quem pensa diferente e tem coragem de expor o seu ponto de vista.

A internet e as redes sociais são vistas como uma conquista dos tempos modernos, porque dão voz a todos, quebram a noção de verdade imposta pela mídia e pelos canais convencionais de comunicação. Mas são, também, o instrumento para a difusão de todos os tipos de preconceito, de posturas reacionárias, potencializadas pela ignorância e pelo sermão de pregadores e manipuladores de toda ordem.

Defender ou não a palmada como método educativo é uma coisa. Querer reinstituir a lei do olho por olho, dente por dente é bem diferente.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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