Panelas Desvirginadas

No bairro das goiabeiras, em Vitória, no Espírito Santo, conheci as mulheres paneleiras, artesãs do barro.
Léo Saballa

Produzem com esmero a panela que dá o sabor inconfundível à famosa moqueca capixaba. Desde a coleta do material até a queima em fornos de lenha, nada mudou nos últimos 400 anos. Elas dizem que inserir tecnologia é estuprar a tradição.
– Leite de côco? Vai, não. Moqueca é capixaba. O resto é peixada – respondem ironicamente aos turistas mostrando as diferenças em relação ao cardápio baiano.
– Badejo, camarão, carnes de siri e caranguejo, tomate, cebola, pimentão, coentro, sal e colorau. Só isso. Coloca tudo na panela desvirginada. Bota água, não – ensina a mulher com as mãos sujas de barro.
– Depois é só caudalar o pirão, variando o braço, botando água de vereda e farinha de varejo, sem deixar embolhar.
A culinária sempre me fascinou e não resisti. Comprei várias panelas. Só avaliei o tamanho do transtorno a caminho do aeroporto. Despachar a frágil carga acompanhada das malas seria um reencontro inevitável com cacos em Joinville. O volume, porém, era excessivo para bagagem individual de mão.
Apelei então para a solidariedade dos companheiros de viagem, os comunicadores Osny Martins e Cacá Martan que prontamente se prestaram ao papel de formigas carregadeiras, desde que eu assumisse o compromisso de recompensá-los, em Joinville, preparando uma saborosa moqueca capixaba.
Conexões no Rio, Campinas e São Paulo transformaram o sacrifício da dupla num calvário interminável. O calor era infernal. Além do peso e do volume imensos, a carga acondicionada em sacolas plásticas exigia cuidado total. Eu não parava de alertá-los sobre a recomendação das paneleiras: “isso é mais frágil que cristal”.
Afora as reclamações pela transpiração oceânica, a missão teve êxito. Tudo chegou inteiro em Joinville, com exceção do Osny Martins que precisou de algumas sessões de massagem no braço em razão do esforço excessivo. No outro dia, desvirginei as panelas com gordura vegetal e preparei para as cobaias (família), uma moqueca capixaba igual a que eu havia saboreado em Vitória. A experiência deu certo e fui até aplaudido. Mas, ainda não quitei a dívida com os meus amigos carregadores. Faz mais de um ano e não consegui organizar o meu tempo para reuni-los em volta da mesa. Devo, não nego e pagarei assim que puder.


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Por Léo Saballa

Radialista, publicitário e produtor cultural. Residente em Joinville/SC, atuou em diversas emissoras de rádio em Santa Catarina. Como jornalista, foi editor de Política e de Geral no jornal A Notícia de Joinville, onde é cronista no caderno AN Cidade. Léo tem prestado assessoria de imprensa para entidades filantrópicas.
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