Papo de ouvintes

Eis aqui uma conversa de bar, mas não daqueles papos só de abobrinhas. Dois fãs do rádio discutem o papel dele na sua vida. Um é o José Predebon, superveterano, e o outro o Fernando Góes, na flor da idade de candidato a futuro veterano.
Da Redação

JP – Fernando, por favor, encha de novo meu copo, obrigado, e agora me diga se você também não tem coisa importante a falar do rádio de sua adolescência. Sabe que no meu tempo ele era outra coisa? Nada parecido com o que existe hoje; lembro de um aparelho que chiava, que tinha um olho verde que se abria e fechava enquanto a gente tentava sintonizar, o que não era fácil. Mas como o rádio era legal! E no seu tempo?
FG – Deixe-me ver. Sim, aí vai um “causo” meu de rádio de longa data. Volta e meia passava as férias de julho, na cidade de minha mãe, Água Boa que fica nas Minas Gerais. Nas várias opções de quarto do casarão da vovó, eu sempre escolhia aquele que a janela dava para a rua. De noite, fazia questão de me “embrulhar” no cobertor e ficar acompanhando as conversas das pessoas passando pela rua. Ali praticamente do meu lado, dentro do meu quarto. Primeiro percebia a conversa vindo de longe, que ia se aproximando, com ela as risadas, os detalhes, uma fala entendida 100% (como se quisesse compreender), mais risada, o barulho do sapato na calçada, a conversa sumindo, as risadas desaparecendo. Confesso que ficava na torcida quando passavam cavalos na rua. Era um som diferente, o papo dos cavaleiros cavalheiros (afinal, eles estavam fazendo um grande favor para mim) misturado com o trote na rua de pedra. Mas faltou dizer a trilha sonora dessas noites especiais, era acompanhada por um fundo musical, bem baixinho: a Rádio Mundial que ficava sintonizada a noite toda no criado mudo ao meu lado. Saudades desse tempo, Predeba.
JP – E o que tinha na programação da Rádio Mundial?
FG – Música “para dormir”. Não que a qualidade fosse ruim, pelo contrário. Pra mim música para dormir é a que relaxa. Lembro que eram músicas que descansavam a mente (como se um moleque de 15 anos precisasse descansar a mente). Talvez a programação à noite fosse assim mesmo. Para ninar as noites de um povo estressado, exceto a gurizada (será?). Mas tem gente que inventa a sua própria trilha sonora do relaxamento. Um de meus tios coloca uma lata de Nescau vazia e de cabeça para baixo bem no rumo daquela telha que pinga mais quando está chovendo. E ameaçar chover que o danado abre aquele sorriso no rosto (os vizinhos devem torcer o nariz).
JP – Deixe-me encher o copo da saideira, enquanto afirmo a você que o rádio, além de tudo o que faz, também é o amigo de quem tem insônia, até dos moleques de 15 anos. Não é por acaso que os aparelhos modernos têm dispositivo de desligamento automático. Já no meu tempo de pirralho, caramba, era no fim da segunda guerra, o rádio era pra eu acordar, era minha antena para o mundo – e eu até usava uma faixa de ondas curtas que precisava ser registrada numa repartição federal, imagine, porque ela podia ser usada para espionagem… o rádio era o que a internet é hoje! Qualquer dia desses e conto para você coisas do meu rádio de sessenta anos atrás.
FG – Só pra não esquecer, antes de ir deixe-me contar que na sede da fazenda do meu avô tem um aparelho muito antigo que funciona perfeitamente até hoje. Pegamos rádios de todo mundo. Quando era criança rolava um boato que esse tal rádio “pegava” transmissões dos russos para os cubanos. Informações confidenciais sobre os EUA. A gente acreditava é claro, afinal ninguém conseguia decifrar a locução.
JP – Boa lembrança, parecida com a minha, – com uns quarenta anos de permeio, valeu!   (os dois [FG e JP] se despedem para depois fazer este texto a quatro mãos)
 


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