Papo Livre 65

Mestre Bira, agora com novo livro na praça continua se esmerando nos requintes de suas singelas memórias. Lembrando dos tempos de guri e do convívio num bairro que um dia emoldurou seus sonhos e que hoje se confunde com a cidade grande, ele conserva no mais profundo do seu coração algumas imagens que permanecem imorredouras.

Faz muito, muito tempo. Eu era piazinho. Junto com meu irmão Clayton, ficava na rua Ivai (hoje Av. Getúlio Vargas), ainda em macadame, esperando que passasse uma carroça pra pegar rabeira. “Pegar rabeira” era se agarrar na carroça com ela em movimento e ficar pendurado na parte de trás. Alguns carroceiros não gostavam e estralavam os chicotes pra espantar a gente. Outros deixavam e até permitiam que a gente subisse e se acomodasse.

E lá íamos nós, quadras a fio. Depois a gente pulava e voltava a pé ou pegando rabeira em outra carroça. Era a diversão da piazada. Um dia eu fui tentar subir e me dei mal. Cai e voltei pra casa com o braço destroncado. Depois da repreensão inevitável, minha mãe me levou à casa da Maria Polenta. A Maria Polenta, famosa na cidade, popularíssima, era de uma habilidade extraordinária para consertar quem se machucava. Ela já tinha resolvido o problema de meu irmão que havia fraturado o braço jogando futebol. Em vez de procurar médicos, as pessoas iam atrás da Maria Polenta, e ela dava conta do recado. O nome dela era Maria Trevisan Torttato, mas ninguém a conhecia por esse nome.

Conforme o Professor Valério Hoerner conta em seu livro Ruas e Histórias de Curitiba, “ela exercia a medicina prática, era especialista em massagem magnética”. Muitos jogadores de futebol se trataram com ela obtendo êxito e ficando com seus ossos nos devidos lugares. Pois foi a Maria Polenta quem me arrumou o braço destroncado, depois de friccionar o mesmo com seus dedos ásperos, rezar umas orações e colocar uma tala de madeira. E ela não cobrava pelo seu trabalho. As pessoas deixavam o que quisessem, meras gorjetas por um trabalho tão importante. E eu fiquei com meu braço perfeitamente curado.

É bom salientar que naquela época – anos 30, 40 – não havia clínicas especializadas em traumatismos como existem hoje. Graças a Deus a Maria Polenta supria essa falta e com muita competência. Ela foi mais uma figura popular de nossa Curitiba de outrora, tem praça com seu nome e até hoje é lembrada com carinho.

Este nosso Papo Livre é reproduzido no site www.carosouvintes.org.br do meu amigo Antunes Severo, e a minha coleção de causos está no livro “O Rádio do Paraná – Fragmentos de sua História”.

Para os ouvintes que desejarem informações sobre o livro vou dar o endereço do site da editora: www.institutomemoria.com.br

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