Para o lado que você se vire tem alguém propagandeando

Parece que o ser humano nasce com esse dom preponderante. E não me refiro ao choro na hora do parto, que saudado como início de vida, se integra às lágrimas de felicidade da mãe.

Sadol

Nos anos 1960 o Laboratório Catarinense, de Joinville, foi um dos principais clientes do núcleo que deu origem à agência A.S. Propague, tendo como criadores de jingles Cláudio Alvim Barbosa, Zininho e Luciano Corbeta na criação gráfica e de ilustração.

Embora sem a pretensão de Diógenes, mas com a determinação de encontrar alguma pista, saio às ruas em busca das origens dos sinais que nos tornam únicos entre os seres vivos do planeta: a ânsia de comunicar, de informar, de persuadir, de dizer – olha, estou aqui e vim para te ajudar.

E nas ruas de minha cidade percebo, entre perplexo e intrigado, que nada há de novo. E parece que foi sempre assim, nas ruas de qualquer cidade, em qualquer tempo: nas tortuosas ruas de Tebas, no Egito, nas glamorosas vielas de Coimbra dos fados, ou nas arborizadas ruas da pequenina Rosário do Sul dos pampas gaúchos, à ciclópica São Paulo da garoa, nada há de novo sob a luz do sol. Em qualquer delas, onde houver aglomeração haverá alguém propagandeando, ou no mínimo, tentando persuadir alguém, apenas usando tecnologias diferentes, mas com os mesmos e batidos argumentos. Na prática o que se percebe é aquela conversinha de pé de ouvido. Apenas a tecnologia aumentou no trombetear de cornetas, megafones, alto-falantes, caixas acústicas, displays e outros mil meios.

Essas imagens – melhor dizer, esses sons – me acodem quando penso na Florianópolis do início dos anos 1950: uma encantadora Ilha transbordante de belezas naturais abrigando uma tranquila e bem comportada cidade com não mais do que 40 mil almas. Sim, almas, como gostavam de dizer os pastores desde o alto dos púlpitos “glorificados pelas bênçãos divina” – asseguravam eles.

Caro leitor, me esforço para traduzir-lhe da maneira que mais própria me prece, o clima em que se desenvolveram os “vírus” iniciais que vieram a dar à ingênua cidade Capital, o primeiro evento publicitário empresarial de que se tem notícia em terras catarinas: a Inauguração do serviço de alto da Empresa de Propaganda Guarujá, atual Rádio Sociedade Guarujá, em 1942 e criação da House Agência da TAC – Transportes Aéreos Catarinenses.

Tal teria sido o impacto desses eventos a ponto de motivar Irineu Bornhausen, governador de Santa Catarina, a criar a primeira assessoria de imprensa de um governo estadual brasileiro e estimulado o radialista Walter Linhares a fundar a Wali Publicidade, que se iniciou como agência de propaganda e desdobrou-se mais adiante em veículo de comunicação: a Wali Painéis.

Referendo essas informações como a mim contou – e aos leitores do livro Propague – 25 anos de história da Propaganda de Santa Catarina – o colega José Hamilton Martinelli. Conta ele, às páginas 43 e seguintes sob o título A Publicidade no grito:

“Há um instrumento de publicidade que conseguiu fazer barulho na província pouco habitada dos anos 1930, 40 e 50: a Garganta. Hoje, pode parecer arcaico o ofício de Carlos Alberto Silva, o garoto propaganda que percorre as ruas centrais de Florianópolis, vestido de maneira extravagante, gritando em seu megafone o nome de lojas e anunciando liquidações. Essa a forma mais comum do comércio anunciar, quando ainda não existiam veículos de comunicação eficazes”.

“O folclórico Carlos teve antecessores. O mais famoso deles foi o Fuzarca, um negro baixo e gordo, de voz tonitroante, que para ganhar uns cobres a mais, aproveitava a atenção dos passantes para anunciar as novidades do comércio central”.

“Postava-se na Rua Felipe Schmidt e lia textos publicitários que os comerciantes lhe confiavam. Assim, Fuzarca reforçava seus parcos ganhos como carregador, sua profissão. Sua alegre fonte de renda secou quando a Empresa de Propaganda Guarujá se instalou bem no centro da cidade com poderosos alto-falantes. O Fuzarca sumiu”.

“Nesse gênero outro publicitário famoso foi Bataclan, o naturalista. Atuou até o final dos anos 1970, já com idade avançada, e se transformou em folclore no Rio Grande do Sul, sua terra Natal. Negro, alto, forte, fazia o estilo extravagante, mas com categoria”.

“Metido em ternos e gravatas de estampas contrastantes, Bataclan convidava a população às compras nas lojas que o patrocinavam. Mas seu afã maior era percorrer os principais municípios de Santa Catarina e dos estados vizinhos, realizando provas de atletismo, corridas de fundo e natação, patrocinadas pelo comércio. Queria provar que com uma dieta vegetariana e com exercícios era possível chegar a sua idade com tamanha disposição. Um figuraço que ainda anda por aí, já passando dos setenta”.

“Antes que a Empresa de Propaganda se tornasse a Rádio Guarujá, outras técnicas de publicidade marcaram a época. Era comum lojas alugarem aviões teco-teco para lançar panfletos sobre a cidade. A molecada se divertia com a chuva de papéis. Em determinados dias da semana, uma caminhoneta do laboratório alemão Bayer, equipada com tela e projetor de cinema, percorria os bairros da cidade exibindo desenhos animados, intercalados com propaganda dos medicamentos Bayer (“Se é Bayer é Bom”). Quando a Alemanha perdeu a guerra, o cineminha acabou”.

“Footing, em inglês, quer dizer andando. Para a sociedade de Florianópolis o footing era local para flertar, namorar, badalar. Acontecia nos fins-de-semana, das 19h00 às 22h00, no trecho compreendido entre o Senadinho e a Praça XV. Os rapazes formavam dois corredores, por entre os quais as moças passavam, de braços dados, atirando olhares insinuantes aos seus preferidos. Muitos casamentos começaram ali, naqueles namoricos domingueiros”.

“Foi nesse congestionado e sugestivo ponto de encontro que Jânio Uriarte, o Janga, iniciou um serviço de publicidade em slides, por volta de 1950. Ele criou o Ok Studio, e numa tela colocada sobre marquise onde hoje está a loja Arapuã, exibia os seus slides publicitários. Eram diapositivos que o gráfico Doralécio Soares revelava e coloria artesanalmente. Uriarte se incumbia das ilustrações e dos textos. O lema da firma era: “A Propaganda é a Alma do Negócio”. No rés-do-chão, fiéis ao lema, as moçoilas casadoiras faziam a sua própria propaganda, ao vivíssimo”. Até a próxima semana.

Este artigo faz parte da série Apontamentos para a História da Propaganda em SC

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