Parônimos

– Bom dia, meu caro barbeiro. Hoje não vim apenas para cortar o cabelo, mas para cumprimentar o amigo. A reforma do seu salão ficou ótima; mais amplo e aconchegante.

– Eu sou grato pela sua visita, meu nobre amigo radialista, Antunes Carriel. Contente com seu cumprimento, mas creio o comprimento da sala não foi o suficiente.

– Que isso, Otávio, ratifico o que acabo de dizer sobre sua barbearia.

– Bondade sua. Ainda que o amigo ratifique seu elogio creio que há algo a retificar; logo faço alguns ajustes.

– Otávio, conheci seu futuro genro sábado passado; olha, sua filha escolheu bem, o rapaz é um cavalheiro; minha esposa ficou encantada. São raros rapazes assim hoje em dia.

– De fato, Carriel, o rapaz é mesmo um cavalheiro. Inclusive um exímio cavaleiro. Tem um sítio em São João Batista e vários cavalos.

– Sabe que às vezes tenho vontade de comprar um sítio, Otávio. Por favor, descreva como é o sítio do seu futuro genro. Ele comentou sobre o sítio, até pensei que ele fosse dar uma descrição do local, mas ele foi de uma discrição impressionante.

– Há poucas semanas quando chegamos ao sítio do Telmo, assim que eu disse que iria apenas arriar minhas coisas ele já foi arrear os cavalos para passearmos.

– É muito bondoso mesmo. Imagino que logo pode emergir um fazendeiro, ou um grande criador de cavalos. E tem mais, meu amigo, quem deseja emergir precisa imergir de cabeça; claro, calculando custos e riscos.

– Minha esposa pediu para não esquecer de te entregar essas conservas de pepinos, cebolas e palmitos; trouxemos do sítio. Estavam na despensa lá de casa. Aliás, ela conseguiu uma dispensa do trabalho por alguns dias por conta de problemas na coluna.

– Estimo melhoras a sua esposa; é uma docente exemplar. Imagino que cada discente deve admirar muito seu trabalho.

– Obrigado, Carriel. Vou transmitir a ela suas palavras. E sobre aquele atropelamento na Beira Mar Norte, sabe me dizer se vão discriminar a testemunha só por ser um homem bastante simples, humilde? Discriminar alguém por sua cor de pele e situação financeira é horrível. Creio que essa nossa justiça irá discriminar a testemunha e descriminar o motorista por ser rico e de família influente na sociedade.

– Infelizmente a tendência é essa, meu amigo Otávio. A sociedade, a justiça, precisa aprender a apreender essas diferenças. Agora, para e pense comigo, Otávio: as pessoas, o povo em geral, têm medo de delatar muitas coisas; denúncias chegam para nós na rádio, mas as pessoas têm receio de delatar. Há poucos dias uma mãe não quis delatar o filho por ele querer dilatar o estômago para transportar drogas.

– É meu eminente amigo radialista, é iminente uma piora na situação.

– Agora, veja bem, Otávio, muitas pessoas praticam o mal, mas nem todo mundo é mau. Vejo que um dos problemas é o infringir as leis e todos sabemos que nada se vai inflingir a tais pessoas.

– Sem contar os problemas com o tráfego e o tráfico que enfrentamos e nos abalam todos os dias. E com o preço do combustível tão alto outro dia quase me passou despercebida uma boa promoção num posto de gasolina aqui perto. O problema não foi ter passado despercebido; até cheguei no posto em tempo, mas desapercebido de dinheiro.

– Poxa, que pena, Otávio, mas não havia mais ninguém que pudesse levar seu carro para abastecer?

– Na verdade meu filho iria levar o meu carro, mas ele estava num dia muito atarefado. Estava em uma reunião onde um chefão do governo receberia seu mandato, mas meu filho tinha um mandado a cumprir naquela mesma tarde.

– Ainda tenho esperanças, meu caro amigo. Esperança de que iremos fruir de dias melhores, mas isso ocorrerá ao fluir do tempo. Veja o que aconteceu ontem. Um flagrante incrível. Um homem que no aeroporto foi preso em flagrante; tudo porque um policial federal estranhou, sentiu algo fragrante que lhe chamou atenção. Era um contrabandista de perfumes e foi preso.

– Esse mundo está a cada dia mais imoral e amoral. Vejo a importância de o governo deferir as necessidades e pedidos da sociedade, mas ao mesmo tempo não basta só o governo deferir, nós temos que diferir de pessoas que são mau exemplo.

– Disse tudo, meu nobre barbeiro. Já é chegado o momento de cada um de nós fazer soar o que realmente necessitamos e para isso temos que suar a camisa.

– E digo mais, meu caro comunicador, também temos que aprender a absolver amigos, familiares e colegas de trabalho, até mesmo desconhecidos; isto é: temos que absolver se queremos absorver algo ou dias melhores.

– Que tal o corte? Algo a ajustar?

– Está perfeito como sempre, Otávio.

– Grato, meu amigo, Carriel, bondade sua. Sabe que as coisas andam difíceis, mas se mais pessoas evitarem fazer coisas más, tudo pode melhorar.

– Ah, meu amigo Otávio. Quão saudável seria se amigos e familiares dedicassem parte de suas conversas a temas dos quais falamos aqui hoje. É como o amigo costuma dizer: “As pessoas vêm aqui para bater um papo e aproveitam para cortar o cabelo”; bela frase meu amigo, bela frase. Voltarei em no máximo 15 dias para te ouvir.

– Bem, nesse ponto já sou mais privilegiado, amigo Carriel. Eu vou ouvi-lo já amanhã logo cedo.

– Vou levar daqui seu abraço e enviar de volta pelas ondas do rádio, da vida.

2 respostas
  1. Hilário S.Silva says:

    Parônimos são também palavras que apresentam significados diferentes, mas que são pronunciadas da forma parecida, como comprimento e cumprimento.
    Caro professor, estou vivendo e aprendendo. Abcssss…

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