Passeio nostálgico: Cacau, som na máquina que esta é daquelas

Somos arianos, a cidade e eu. E estamos envelhecendo. Recordar para se sentir novo é fundamental. Até mesmo para ter a certeza de como foi, sempre, fraternal e prazeroso, esse nosso convívio, meu com a cidade. E vice-versa.

Dizem que é o tal inferno astral, que bate antes do aniversário. Dominado por uma inexplicável tristeza justo num momento que tudo conspira a favor, com a popularidade estourando entre todas as faixas e regiões, passei boa parte da tarde de ontem chorando, sozinho, no Centro da cidade, tal qual um maluco, revivendo lugares que marcaram a minha vida.

Comecei o périplo nostálgico pelo sobrado na Rua Conselheiro Mafra onde meu pai teve o seu jornal A Verdade e no qual morou meu tio Jorge com sua família. Quando meu pai foi preso, fomos para lá. Lembrei até da geladeira. Depois passei pelo prédio onde cursei o supletivo, na Felipe Schmidt, em frente ao Senadinho; tive a sorte de encontrar o Raul Caldas Filho no balcão do Petit, na Travessa Ratclif, como nos velhos e bons tempos (mas não entrei), fui até o antigo ginásio da FAC, onde vi, pela primeira vez, num baile do chope, o Fenelon Damiani (estrela do rádio na época), com uma camiseta do Corinthians, dando em cima da Lizete, primeira mulher paraquedista da Ilha, que mais tarde veio a ser sua esposa; caminhei até o Degrau, na Vidal Ramos, onde se reunia o crazy people dos anos 1970, e concluí o giro na frente da antiga Faculdade de Direito, antigo terminal urbano, na Praça Pio XII, onde joguei futebol, de salão, contra a turma da Rua 7 de Setembro, pela primeira vez sob as luzes de refletores, o que, na época, me encantou, tanto que até hoje lembro daquilo. E lá se vão 40 anos.

Redação: Cacau, som na máquina que esta é daqueles tempos, com a marca inolvidável do Ziza!

2 respostas
  1. J.Pimentel says:

    Não conheço seus lugares, mas conheço os meus. As lembranças são doces, tão doces quanto doloridas por sua incrivel crueldade. Elas, as lembranças, não nos poupam dos namoricos inocentes ou atrevidos, das paqueras nossas e de nossos amigos. Nem das nossas primeiras coisas: primeira namorada, primeiro bailinho, primeiro beijo, primeira briga, primeira cerveja, primeiro dia de aula, primeiro sonho, primeira desilusão… Não nos poupam do passado que o progresso escondeu, dos trilhos dos bondes, do terminal de ônibus onde hoje nem ônibus tem. Do cheiro característico da sala de aula, das luzes do colégio, dos dias de calor ou de frio, das ruas de paralelepipedos molhadas, sob a luz indecisa do velhos postes e frageis lâmpadas.Então, som na máquina,porque não existe lembrança sem fundo musical… Vale também chorar.

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