Pastor de improviso

Magro, era como costumavam chamá-lo, seus amigos mais íntimos. Havia boa razão para o apelido. Gilberto Fontoura, na sua juventude, era peso pena, ou talvez um pouco menos que isso. Além de muito magro, era também, um dos mais criativos radialistas do Paraná. Rápido no raciocínio e um improvisador invejável. Locutor de estúdio, animador de auditório, narrador de futebol, foi quase tudo no rádio, até chegar a diretor onde revelou toda sua imensa capacidade criadora, estabelecendo novos parâmetros na programação radiofônica que lhe garantiram bons índices de audiência e muitos prêmios. 

Do rádio deu um pequeno salto para a Televisão, onde desempenhou com muita classe e competência a função de apresentador de programas jornalísticos. Destacou-se durante muitos anos como apresentador do Globo Esporte na RPC. Comunicativo e bom de papo na frente ou fora da câmera, Gilberto Fontoura, não só conquistou admiradores como também os diretores da TV, que encontraram no experiente apresentador um excelente elemento de representação da empresa em vários eventos realizados em Curitiba e outras partes do país. Durante muito tempo Gilberto foi escolhido com freqüência para representar o diretor-presidente da RPC, em todo tipo de solenidade.

Sempre disposto e bem humorado , estava praticamente de prontidão permanentemente para atender os chamados da diretoria. Numa quinta-feira de pleno verão, quando se preparava para uma final de semana na praia, recebeu a noticia de que deveria representar a Gazeta do Povo, num evento em Salvador. O jornal recebeu um prêmio como um dos mais importantes veículos de comunicação do Brasil. 

-Gilberto, sua passagem já esta no balcão da companhia, no Aeroporto Afonso Penna e a reserva de hotel esta sendo providenciada.- Foi o aviso que recebeu do diretor.
-Mas, assim tudo de improviso? Normalmente sou comunicado com alguma antecedência.

-Houve problema com o pessoal do Marketing que deveria representar a empresa. Eles não podem sair daqui e você foi escolhido para um final de semana na Bahia. Não se esqueça de conseguir um fotografo com máquina digital para enviar as fotos via internet.

Dia seguinte Fontoura chega a Salvador, ainda pela manhã e tem um dia inteiro para curtir a cidade, antes do evento marcado para ter inicio ás 20 horas. Um passeio pelo Pelourinho, visita as lojas de artesanato, um bom acarajé, muita água de côco para passar o tempo.  E como passou rápido.

No final da tarde, terno e gravata e lá foi o representante para receber um prêmio do jornal, entre outras 112 empresas escolhidas como melhores do país. Um grande salão de festas, repleto de gente de toda parte, muitos jornalistas e o inicio de uma luta para conseguir um fotografo.  Depois de muita procura encontrou um, com máquina digital. Era funcionário da BahiaGas, que também estava para receber seu prêmio.

– Olha, eu preciso muito de uma foto recebendo o prêmio da Gazeta do Povo, para ser publicada na edição de domingo. Você pode fazer, isso?

O fotografo relutou mais cedeu, seduzido por uma nota de 50 reais. Preocupado com o fotografo, que achou meio desligado e sem muita preocupação em honrar o acerto, Gilberto passou longo tempo pensando em formulas para garantir a fotografia. Em dado momento, chamou o fotografo baiano num canto para uma conversa ao pé-do-ouvido.

– Escute, meu caro. Você acredita em Deus? É religioso?

– Sim, sim, claro.

– Pois, bem. Eu sou pastor, Gilberto, da Igreja Triangular de Todos os Dias. Permita que eu faça uma oração pedindo ajuda de Jesus para que você tenha uma vida mais feliz.

– Sim.

Colocando a mão sobre o peito do fotografo, começou a rezar imitando um pastor evangélico, fazendo pedidos  para os céus atenderem o baiano nas suas necessidades.

– Senhor Jesus, olha para este teu filho baiano de bom coração que merece uma vida longa e feliz, sem problemas financeiros e de saúde. Aleluia.

No dia seguinte, antes das oito horas da manhã, todas as fotos estavam na redação da Gazeta do Povo, para publicação.

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Por Jamur Júnior

Radialista e jornalista e foi apresentador noticiarista de rádio e televisão em emissoras de Curitiba e Florianópolis. É autor dos livros Pequena História de Grandes Talentos contando os primeiros passos da TV no Paraná e Sintonia Fina – histórias do Rádio. Jamur foi um dos precursores do telejornalismo em Curitiba.
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2 respostas
  1. Gilberto Fontoura says:

    O Jamur é um grande Amigo e é sempre generoso quando fala a meu respeito. Eu o admiro muito e sem exagero o coloquei sempre entre os maiores comunicadores do Brasil, no rádio e na televisão. Fora do ar o Jamur é um grande papo e uma incrível capacidade de se fazer gostar. Com Jamur eu consegui convence-lo à voltar ao rádio e depois de analisarmos vários programas de conteudo político, cultural… partimos para o mais descompromissado diálogo com o ouvinte e todas as piadas de salão já conhecidas, historinhas engraçadas, causos, coisas bizarras do dia a dia, ironizando os políticos, suas gafes, trapalhadas… E tudo. Frases de caminhões… quem pagou mico, quem ficou de saia justa e fatos reais o… os pescadores, caipiras… enfim… foi muito Ibope na Independência, às 10 da manhã no fim dos anos 1970. Talento do Jamur. Obrigado, cara. Bom Natal a todos.

  2. Gilberto Fontoura says:

    Estou relendo aqui; e, evidente, eu havia esquecido o principal: a história do falso pastor é verdadeira;sem tirar nem por. Fiquei bom tempo imaginando como iria compromissar o fotógrafo além da notinha de 50 reais e, então, veio a idéia de dar uma de pastor… Gilberto.

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