Paulo Brito

Por Paula Arend Laeir
Dezembro de 2000

“Maluco, Forte, Franco, incrivelmente articulado e Criador de encrencas”. Um homem feliz.
– Você  vai lembrar deste dia para sempre – disse o jornalista Carlos Eduardo Lino, ex-aluno e atual colega de trabalho do Paulo Brito, com quem eu iria passar as próximas horas. Brito como a maioria o chama, é jornalista formado pela PUC de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul em 1972. Trabalhou em TV, rádio e jornal, tendo sua carreira marcada pelo pioneirismo. É famosa atualmente pela sua irreverência, personalidade forte e também pelo bom caráter, que todos que falaram dele não esqueceram de destacar. Mas também é um homem que enfrentou varias dificuldades sem desanimar ou se fazer de vitima. E depois de passar pelo menos seis horas com ele eu realmente pude comprovar: o dia foi inesquecível.
São nove horas da manhã, horário marcado com Paulo Brito para a entrevista. Na porta do apartamento um adesivo: Paulo Brito – Jornalista. Toco a campainha pelo menos sete vezes, mas não tenho resposta. Desço então à portaria para falar com o zelador. Carlos Alberto trabalha há 17 anos no Edifício Cristina. Ele vai comigo até a garagem para confirmar se o jornalista está em casa.

– Sim, ele está. O caro está aí, e o Brito quase nunca sai sem carro.
Ele se oferece para subir comigo e conta: “a porta do apartamento está sempre aberta quando ele está em casa. Como ele mora sozinho, se alguma coisa acontecer tem como a gente entrar. Uma vez tive que levá-lo ao hospital – o jornalista tinha tido contraído uma hérnia de disco na coluna cervical e não conseguiu se levantar da cama -, e só consegui entrar porque a porta estava destrancada”. No elevador, Seu Carlos diz que o Brito é um morador bem humorado e que passa a maior parte do tempo sozinho.

Chegamos ao oitavo andar, e o zelador entra com a maior tranqüilidade no apartamento.

– Brito! Acorda! Tem visita pra ti!
– Só me tranqüilizo ao ouvir:
– Entra Paula.

É o próprio. Ainda de pijamas, com os cabelos despenteados e cara de sono, ele contou que costuma acordar lá pelas oito, mas como estava esperando acabou acordando antes e pegando novamente no sono depois. Na cozinha, esquenta o leite no microondas e mistura com café instantâneo. Antes disso, come uma tigela de iogurte com granola. Brito está de regime.

– Por razões estéticas, mas também econômicas. Se continuar engordando terei que renovar todo o guarda-roupa.

Depois do café lava a louça e fala por que morar sozinho é bom e ruim: “É bom porque tu ficas mais à vontade, mas Ter que organizar a casa, saber quando tem que lavar roupa, chamar faxineira, isso é meio chato”.

Na mesa da cozinha, ele me conta um pouco sobre sua vida particular. Saiu de casa aos 18 anos, para morar em Porto Alegre. Casou duas vezes. A primeira tentativa durou 15 anos e resultou em dois filhos especiais, como ele mesmo fala. Os dois rapazes nasceram portadores de distrofia muscular progressiva, uma anomalia que degenera o sistema muscular e por deixaram de caminhar aos 10 anos de idade. Paulo Brito conta que se encontra todos os sábados com o mais novo.

– Ficamos aqui mesmo na cozinha, enquanto eu preparo alguma coisa ficamos conversando.

O outro filho mora no Balneário de Capão da Canoa, no Rio Grande do Sul, e sempre que pode Brito vai visitá-lo. O segundo casamento durou dois anos e meio. Atualmente ele está solteiro e quando se sente muito só no apartamento passava o dia com a mãe e a irmã.

– Na maioria das vezes venho para casa só para dormir. É como se meu quarto fosse um pouco mais longe.

São dez horas e está na hora da “novela” que ele não deixa de assistir a nenhum capítulo. Na verdade é um programa de entrevistas com atores, atrizes e diretores de cinema que estudaram no Actor’s Studio de New York e que agora são famosos.

– Espero que tu não te importes, mas eu não vou mudar meus hábitos por causa da tua presença, diz, com a franqueza que lhe característica. A TV fica no quarto. Gentilmente ele leva uma cadeira para eu sentar. Ele se deita na cama redonda, e depois em informa: “antes que tu tenhas algum pensamento erótico sobre o formato da cama, quando em comprei o apartamento ela já estava aqui. A parede é torta e esse foi o único jeito que a antiga proprietária arrumou para aproveitar o espaço e esconder a forma triangular do quarto. Na verdade ela é ruim de dormir, pois você não tem um lado” reclama.

Assistimos a todo o programa, quase uma hora. O entrevistado era Tommy Lee Jones, mas na platéia estava o escritor que aparece muito na estante de livros do Brito: Norman Mailer. O programa acaba e o jornalista vai tomar banho. Enquanto isso, eu aproveito para dar uma olhada na sala, com fotos e uma gaiola penduradas nas paredes, algumas plantas na janela e um monte de garrafas sobre o armário, isso sem falar na estante de livros e na escrivaninha cheia de papeis, logo ao lado do computador. Na mesma pilha de livros a serem lidos, é possível encontrar desde Body of life, de Bill Phillips ate o Reino e o Poder, de Gay Talese. O barulho do chuveiro é substituído pelo secador. E logo aparece um Paulo Brito arrumado que nem demonstra os 58 anos que já tem.

São quase meio dia e meio, e estamos chegando à sede da RBS, no alto do morro da Cruz. Atualmente, Paulo Brito participa do programa Debate Diário, às 12h45min., apresentado pela Rádio CBN-Diário e transmitido pela TVCOM, ambos veículos pertencem ao grupo RBS. No programa ele parece um personagem, “mas é espontâneo”, diz. Brito costuma ser sempre o do contra. Mas teima que não. “Ali todos dão a sua opinião, o problema é que três têm a mesma opinião. Eles é que são contra mim. A visão do futebol para mim é diferente. Meu esporte é outro, completamente diferente – o basquete. Sou muito frio. Eles vêem a bola e eu o jogo. Me divirto muito com isso”.

Roberto Alves, amigo há 30 anos é um dos integrantes do grupo que passa uma hora discutindo no ar sobre futebol, diz que Paulo Brito é inteligente, culto, corajoso, verdadeiro.

– Fora do estúdio é uma moça.

Mas lá dentro, às vezes as discussões fazem com que os dois saiam sem olhar um para a cara do outro. “Ele é o que tem o melhor conteúdo, mas a forma como ele passa é errada. Ele polemiza demais.

Às vezes eu peço ao técnico do som para cortar o microfone dele”.
Brito comenta que esse é mais um trabalho pioneiro de sua carreira. E considera esse pioneirismo importante porque acontece no período da sua volta ao mercado. “Esse novo tipo de programa quebra a estrutura de linguagem atual”. O programa apresentado na CBN-Diário é retransmitido sem cortes pela TVCOM. O fato de estarem sendo filmados, não muda o jeito de ser do Paulo Brito. “Embora na TV haja uma preocupação maior com a aparência, pois você não pode apresentar um programa de TV com a barba por fazer. A TV também te deixa mais vulnerável”. As freqüentes aparições desse jornalista que não gosta de acordar cedo faz com que o público, que antes só conhecia sua voz, agora o pare na rua: “não tenho mais paciência para lidar com esse tipo de situação”, diz.

Enquanto ele participa do programa, aproveito para conversar com as pessoas que trabalham diariamente com ele. Brito é uma pessoa muito queria lá. Todos elogiam seu caráter e seu profissionalismo. Mas todos também concordam sobre sua teimosia.

A volta ao mercado fez com que Brito viesse a concorrer com antigos alunos seus. “É uma briga de iguais. Eles têm mais energia. Eu, mais experiência”. Mas mesmo com toda a experiência que tem, não deixou de se atualizar. Computador e celular já fazem parte do seu dia a dia. Brito lembra que a nova tecnologia acelera a informação: “É preciso se adaptar a isso”.

Hoje ele se considera um profissional realizado. Destaca a cobertura da prisão dos Doces Bárbaros (conjunto formado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Betânia na década de 70 quando era chefe de reportagem da sucursal catarinense da Cia. Caldas Júnior, editora na época do jornal O Correio do Povo, Folha da Manhã e Folha da Tarde, todos de Porto Alegre, como um de seus melhores momentos. “O fato teve repercussão nacional” relembra. Mas há também memórias tristes, como a retirada de Paulo Brito da coluna Nossa Jogada do Jornal de Santa Catarina. O jornal foi processado e na negociação a “cabeça” do jornalista foi posta em jogo. Para não demiti-lo o diretor do jornal prometeu que ele não escreveria mais a coluna. “Só fiquei sabendo no dia seguinte quando abri o jornal e vi que a coluna que estava lá não era aquela que tinha escrito no dia anterior”. A saída prematura da Universidade Federal de Santa Catarina, onde foi professor  do Curso de Jornalismo que ajudou a fundar, também deixou uma certa mágoa.

– Estava preocupado com as mudanças na área da previdência social. Eu era funcionário público e iria depender daquele dinheiro. Não sabia o que poderia acontecer. Então comecei a me oferecer para o mercado de trabalho, conta Brito. Nessa época, 1998, ele recebeu uma proposta da RBS. “Mas como eu queria continuar dando aulas fui falar com o Reitor Rodolfo Pinto da Luz para fazer as duas coisas. Eu tinha condições de realizar as duas atividades. “Não adiantou e assim, o Curso de Jornalismo perdeu um de seus maiores incentivadores e inovadores. Paulo Brito foi o primeiro a levar um computador para o curso. “Era um XT, que na verdade mais parecia uma máquina de escrever eletrônica.”

São 14 horas e vamos almoçar. No próprio restaurante da RBS. Depois Brito me mostra todas as instalações da RBS e fala com todos como se fosse um velho amigo, e talvez seja assim que todos o consideram. Em seguida ele sentar no computador onde dá uma olhada nos jornais e agências de notícias. Depois do trabalho, Brito costuma caminhar na avenida Beira Mar e ir à ginástica. Hoje não porque tem o lançamento do livro de um ex-colega do tempo que era professor. Aproveitando a deixa, resolvi ir embora e encerrar ali o dia que passei com ele. Mas a investigação sobre esse personagem não parou ai. Ainda faltava falar sobre a época em que ele foi professor do Curso de Jornalismo da UFSC e o que pensam algumas pessoas que conviveram com ele lá.

Na Sala de aula

Paulo Brito foi professor do curso por 19 anos sempre atuando nas áreas de radiojornalismo e fotografia. Foi coordenador do Curso e Chefe do Departamento eleito por seus pares. Um fato mostra bem um lado do profissional que poucos conhecem, por causa da sua maneira para lidar com os problemas. Em 1997, Paulo Brito chorou em plena sala de aula quando viu o aluno Pedro Valente sentado em uma das cadeiras. O calouro era filho do grande amigo e colega César Valente. “Nós casamos na mesma época, tivemos filhos quase no mesmo tempo, e quando eu vi o Pedro sentado ali foi como se um dos meus filhos estivesse no lugar dele”, contou Brito com os olhos cheios de lágrimas.

Hoje, Pedro Valente trabalha como jornalista em São Paulo no Jornal O Valor depois de passar pela Gazeta Mercantil, mas não esquece do tempo em que foi aluno de Paulo Brito. “Ele é um misto de humor e teimosia, mas é também uma manteiga derretida”, descreve o ex-aluno.
Não são só os alunos que têm boas lembranças. O chefe de Departamento, na época, Hélio Schuch, que o conhece há 16 anos, comenta que ele é uma pessoa muito queria e com bom caráter.

“Excelente”. Como profissional não reclama: “o Brito era um professor muito esforçado, sempre inovador. Foi um dos responsáveis por colocar o curso na era da informática”. E foi na casa do Hélio que Paulo Brito ficou por oito meses quando se separou da primeira mulher, em 1986. “Ele chegou às quatro horas da tarde e pediu se poderia ficar um tempo na minha casa. Eu perguntei por quê. Duas horas depois ele estava de volta com as malas para se mudar.”

O professor Luís Scotto também elogiou o caráter e chamou a tenção para a força de Paulo Brito. “Ele jamais se fez de vítima”. No curso, Scotto conta que Brito era aquele professor a quem muitos recorriam quando havia um problema. “Ele sempre achava soluções”, diz. E termina: “ele é muito complexo”. Mas uma definição mais detalhada foi o próprio Paulo Brito quem deu: maluco, forte, franco, incrivelmente articulado e criador de encrencas”. E completou: sim, hoje sou um homem feliz.

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