Paulo Coelho, o mago da música dos anos 30 em Porto Alegre

Ele tinha magia na ponta dos dedos, encantando as pessoas e abrindo uma fresta de enlevo na noite porto-alegrense dos anos 1930. 
O Paulo Coelho, ex-aluno do Conservatório de Música, trocara o erudito pelo popular, adotando os cafés, confeitarias, boates e salões de baile como palco. E dava show de virtuosismo. Um mago a sua maneira, muitos anos antes de alguém com nome idêntico alçar-se a este posto.

Ao piano, o Gordo – como era chamado – encantava os frequentadores da Confeitaria Colombo, uma das casas em que mais atuou, ou dos bailes das sociedades, para os quais seu conjunto transformara-se em disputadíssima garantia de sucesso. Sucesso que, no alvorecer do rádio do Rio Grande do Sul, chegou fácil, fácil à Gaúcha e, logo em seguida, à Farroupilha, onde a mágica se materializava nas orquestras típica e de jazz da mais importante emissora do Sul do país na época.

Da habilidade musical de Paulo Coelho, contavam-se diversas histórias, como esta lembrada pelo jornalista Ney Fonseca, em reportagem da Revista do Globo, publicada em agosto de 1961:

“Porto Alegre jamais conhecerá outro pianista igual a Paulo Coelho. Era tido na cidade como um dos melhores intérpretes da música popular brasileira e como um dos únicos a tocar simultaneamente duas músicas, em dois pianos. Certa vez, deu um espetáculo, quando, por uma aposta, tocou o Hino Nacional num piano, enquanto no outro, com a outra mão, tocava um noturno”.

Há relatos de que o talento de Paulo Coelho chegou a ser reconhecido, inclusive, por grandes artistas internacionais, como foi o caso do norte-americano Eddy Duchin.

Músico respeitado, Paulo Coelho atraía ouvintes para “a mais potente voz do Brasil”, como os jornais começavam a identificar a emissora. Trazia para a PRH-2, ainda, o esquema dos bares da cidade, onde se alternavam, a cada 30 minutos, apresentações da Típica – responsável pela execução de números de tango – e do Regional – tocando sambas, chorinhos, enfim, música brasileira.

Rádio que se pretendia para a elite, sem descuidar do popular, a Farroupilha preferira, no entanto, um conjunto de jazz ao Regional. Em paralelo, a Orquestra Internacional deveria fazer o contraponto em relação às apresentações mais populares do conjunto de Paulo Coelho.

A respeito, Manoel Braga Gastal, diretor de Broadcasting da Rádio Farroupilha de 1943 a 1948, registra no livro Flashes de uma Vida:

“Contavam-se a seu respeito histórias girando invariavelmente em torno de sua capacidade de musicista. Por exemplo, a que dizia haver ele, certamente, numa noite de pileque durante férias no Rio, sentado ao piano do Cassino da Urca para improvisar uma seleção de melodias norte-americanas dedicada ao grande condutor de orquestra Eddy Duchin, tão grande que o cinema lhe rendeu a homenagem de um filme biográfico, Melodia imortal, estrelado por Tyrone Power. Duchin realizava com sua orquestra temporada no famoso cassino. Ficou de tal maneira impressionado com o colega brasileiro que procurou contratá-lo imediatamente para sua formação musical. Fez-se, ao tempo, corrente a informação de que houve um documento escrito de compromisso entre as partes. Mas, no dia seguinte, já sóbrio e ao saber do contrato, Paulo foi ao cais da Praça Mauá, procurou o primeiro navio que partisse para o Sul e veio tocando na orquestra de bordo até o Rio Grande. Fugira de uma situação que certamente qualquer músico de província abraçaria. Depois de desistir de exigir o cumprimento do contrato tosco feito na mesa do Cassino, Eddy Duchin voltou aos Estados Unidos sem o precioso achado”.

Coisas de um mago da música. Coisas de Paulo Coelho, o Gordo, o do piano, o das noites de Porto Alegre. E da PRH-2 – Rádio Farroupilha. Ah, do Paulo Coelho, autor da música para o samba Alto da Bronze, parceria com o letrista Plauto Azambuja, um dos mais famosos do Rio Grande do Sul.

E para relembrar o clima da época, ouça Alto da Bronze em gravação pertencente ao acervo do colunista licenciado José Alberfto de Souza.

6 respostas
  1. Maria Lucia Sampaio says:

    Oi, Ferraretto
    legal tua matéria e, principalmente, o teu trabalho como pesquisador.
    Fico pensando o que será que leva os gaúchos a terem medo do sucesso fora do Estado?
    Sei de várias histórias com esta, de grandes músicos que não se atreveram a brilhar “lá fora”.
    Elis se arriscou, venceu e nunca foi perdoada pelos mais velhos. Até hoje a maioria prefere reclamar do “chiava” a reconhecer seu valor.
    O porto-alegrense Radamés Gnatalli é praticamente desconhecido.
    Em compensação, Lupicínio que viveu aqui é ídolo!
    Gente estranha estes gaúchos…
    Abraço

  2. Ferraretto says:

    Li o texto do Reverbel depois da indicação do leitor. De fato, embora conheça Reverbel, não havia consultado a obra dele. Me basiei muito mais em relatos do Manoel Braga Gastal, no livro Flashes de Vida, e me reportagens da velha Revista do Globo. Que posso dizer? Coincidências. Ah, e que ocorrem a toda hora, muito mais do que imaginam os leitores.

  3. MARCELO SCHMIDT says:

    OLHA SÓ PAULO COELHO ,UM PRIMO SEGUNDO QUE NÃO CONHECI, POIS A MAE DELE É IRMÃO DE MINHA vÓ
    EDHITE GONÇALVES DE ALMEIDA.
    MARAVILHA SEMPRE OUVI HISTORIETAS DELE, MEU PAI ME CONTAVA.

  4. Carlos Adib says:

    Ferraretto,

    sabes me dizer quem é o cantor dessa gravação e em que ano ela foi feita…?
    me parece ser uma gravação mais recente; visto que o P. Coelho morreu em 1941!

    C. Adib

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