Pedro Raymundo: centenário esquecido

Chegamos ao centenário de nascimento de Pedro Raymundo, como se o seu trabalho não houvesse existido, como se sua arte não merecesse o reconhecimento de nossa cultura, como se os anos de sucesso de sua música pudessem ser ignorados ou rejeitados como algo que não faz mais sentido.

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Nesta segunda-feira (3/7/06) quando escrevo, Pedro Raymundo o filho do pescador e sanfoneiro João Felisberto Raymundo, completa 100 anos e cinco dias. Nasceu, viveu e morreu cantando. Claro que padeceu as dores do sofrimento comum a todos os mortais. Mas, uma coisa é certa: nunca se entregou. Mesmo quando já velho e alquebrado retornou ao seu rincão amado no sul de Santa Catarina, como conta Walter Filho: “É que praticamente os últimos meses de sua vida foram passados (e vividos) em Lauro Muller, sul do nosso estado, onde ele construiu uma casinha ao lado de uma bica dágua, no pé do morro da Igreja Matriz. E eu, que trabalhava na Rádio Cruz de Malta, tive a honra de ser seu coadjuvante lendo as cartas endereçadas á ele, os comerciais e as brincadeiras”.

O depoimento de Walter Filho que hoje trabalha na rádio ALESC da Assembléia Legislativa de Santa Catarina, aqui em Florianópolis é valioso também por registrar que Pedro Raymundo no final da vida continuava o homem simples que cativou o país com sua criatividade, sua voz e o som de sua gaita. Walter, por exemplo, lembra: “A sanfona, hoje exposta no museu de Laguna, ficava debaixo (ou será embaixo) da mesa de locução e, seguidamente tentávamos, eu e outros colegas de trabalho, tirar algum som mas não tinha jeito! A gaita não era de teclado.

Ela só se dava com o dono, o artista. O que conto aqui se passou em 1972 e o programa de rádio era das 6 ás 7 da manhã. Pedro Raymundo, na maior parte dos programas tocava e cantava ao vivo! Por isso que a sanfona ficava no estúdio da Cruz de Malta. Quando terminava o “Pedro Raymundo Amanhece Cantando “ele saía para comprar pão e depois divertia-se com os “velhos amigos” jogando palito e bocha. Um dia voltou pro Rio de Janeiro onde acabou morrendo após complicação cirúrgica devido a diabetes, se não me engano”.

Um dos maiores nomes da música regional do sul brasileiro tem, entretanto, merecido o reconhecimento também fora de Santa Catarina. Ao final desta nota, incluímos alguns endereços de matérias que registram parte da memória do autor de Adeus Mariana. Como é o caso da Enciclopédia da Música Brasileira que segue abaixo.

Comp., cant., instr. Imaruí SC 29/6/1906-Rio de Janeiro RJ 9/7/1973. Filho do pescador e sanfoneiro João Felisberto Raimundo, começou a tocar sanfona aos oito anos. Mais tarde integrou, em sua cidade, a banda Amor à Ordem, além de se apresentar em festinhas. Foi pescador até os 17 anos, quando passou a trabalhar na construção da Estrada de Ferro Esplanada-Rio Deserto SC. Casado desde 1926, morou em Lauro Muller, Blumenau e Laguna SC, fixando-se em Porto Alegre RS em 1929.

pedro_raymundo3Na capital gaúcha foi condutor de bondes e inspetor de tráfego, tocando sanfona em cafés do Mercado, nas horas de folga. Em 1939 foi chamado a trabalhar na Rádio Farroupilha, de Porto Alegre, onde organizou o Quarteto dos Tauras. Em 1942 excursionou pelo interior do Rio Grande do Sul e no ano seguinte foi ao Rio de Janeiro RJ, onde se apresentou no show Muraro, da Rádio Mayrink Veiga, e em programas da Rádio Tupi. Em seguida Almirante o levou para a Rádio Nacional. Contratado pela emissora, transferiu-se definitivamente para o Rio de Janeiro, lançando ainda em 1943, pela Columbia, seu primeiro disco, com o choro Tico-tico no terreiro e o xótis Adeus Mariana (ambos de sua autoria).

Sua descontração e exuberância valeram-lhe o slogan de O gaúcho alegre do rádio: alternava, em suas apresentações, músicas alegres com outras sentimentais. Foi o primeiro artista típico gaúcho a alcançar fama nacional. Apresentava-se com bombachas, lenço no pescoço, botas, esporas, chapéu e guaiaca. Percebendo a aceitação do seu traje regional, Luís Gonzaga sentiu-se estimulado a apresentar-se como sertanejo nordestino. Atuou nos filmes Uma luz na estrada, de Alberto Pieralise, em 1949, e Natureza gaúcha, de Rafael Mancini, em 1958.

Obras

Adeus, Mariana, xótis, 1943; Adeus, moçada, polca, 1944; Chico da roda, chorinho, 1947; Escadaria, choro, 1944; Gaúcho largado, toada, 1944; Mágoas de amor, tango, 1945; Meu coração te fala, valsa, 1945; Na casa do Zé Bedeu, polquinha, 1947; Oriental, baião, 1954; Prece, tango, 1950; Sanfoninha, velha amiga, polca, 1961; Saudade de Laguna, valsa, 1943; Se Deus quiser, xótis, 1943; Tá tudo errado (c/Jeová Rodrigues Portela), polca, 1948; Tico-tico no terreiro, choro, 1943.

Enciclopédia da Música Brasileira: erudita, folclórica e popular. São Paulo, Art Ed., 1977. 3p.
Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira: www.dicionariompb.com.br
Coluna de Agilmar Machado O “gaúcho” alegre do rádio brasileiro e comentários de Walter Filho e Jorge José Provietti: www.carosouvintes.org.br

2 respostas
  1. joel o n virissimo says:

    saudades daqueles que fizeram a nossa historia radios e televisão divulguem ajude mais alguem a conhecer estes esquecidos.

  2. orides says:

    Pedro Raymundo é um mito da música brasileira. Teria que ser falado e valorisado até em colegios e em rádios. Eu gosto muito desse cantor.

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