Pensamentos, atos e palavras

Algumas décadas atrás, mais exatamente no início dos anos de 1970, li, num almanaque, um texto sobre políticos corruptos, impostos elevados, verbas mal-versadas e descaso com os humildes. O quadro era uma perfeita descrição daqueles tempos conturbados; mas, no final, a nota do editor informou, em tom irônico, que o documento era do início do século XX.

Outro dia, ouvi numa emissora de rádio considerações sobre a política nacional: Os termos e expressões utilizados eram drásticos: imoralidade, câncer, tecido carcomido… Uma descrição dramática e, infelizmente, altamente condizente com a realidade do país! Ao fim da leitura, o narrador anunciou que o texto era da década de 1920.

Dois textos escritos por personagens do passado, sobre pessoas que não mais existem, mas, sobre situações que sobrevivem, tal qual uma tragédia grega.

As lembranças, então, vieram como um turbilhão: fatos lidos, histórias ouvidas e situações vividas.

Lembrei de frases históricas e histéricas: “A Lei? Ora a lei…”; “Rouba, mas faz!”; “Estupra, mas não mata!”; “Não há tortura no Brasil”… Foram proferidas, quase todas, em tempos de exceção, quando a democracia era “relativa”, e os “defensores da Pátria”, de esquerda ou direita, lutavam entre si pela liberdade, embora se abrigassem e brigassem sob cores que não existem em nossa bandeira.

Todos queriam uma república: “Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós!”, e estavam dispostos a cumprir seus ideais: “Quem quiser que não abra, eu prendo e arrebento!”. E assim, entre a esquerda e a direita, o povo, quase sempre ficou sob o: “esquerda, direita, esquerda, direita…”.

Depois, lembrei de outras: “Não me deixem, só!”, primeira frustração da nova democracia; “Esqueçam tudo o que escrevi!”, por quem foi eleito e laureado pelo que escreveu, discursou e prometeu.

As histórias de cada tempo, no entanto, continuaram a repetir o mesmo enredo, a mesma trama, a mesma lama, tal qual um disco “quebrado”.

Só os protagonistas alternavam de lado, mutantes da conveniência, ou passavam o “bastão” para as novas gerações de uma mesma linhagem, com a mesma blindagem: imunes e impunes.

O povo também nunca mudou: continua na espera infinda de que as coisas mudem.

Ah! Algo mudou: a capital! Da exuberância natural, para a arquitetônica. Até em seu hino era a “Capital da Esperança”! No entanto, só ficou mais distante e dura de coração, como o concreto de seus palácios: “Por fora, bela viola…”.

A alvorada é sombria; o planalto, uma depressão; e os três poderes, que deveriam emanar do povo, continuam a exalar maus perfumes e presságios.

Então, lembrei de outras frases: “Brasil, qual é o teu negócio? O nome do teu sócio?”. Será esse o “hino nacional” de tantos rotos, que julgam tantos esfarrapados, ambos traidores da esperança do povo? Será que seu único credo é num paraíso fiscal? Será que todo o idealismo e ética, na oposição, tende à vala comum e fétida da voracidade e do dolo, na situação?
Por quanto tempo a esperança do povo, traído na fé e no voto, continuará a ser carregada em malas que nunca chegam ao destino certo: o próprio povo?

“O caso Morel, o crime da mala, Coroa-Brastel, o escândalo das joias, e o contrabando: Um bando de gente importante envolvida. Juram que não torturam ninguém. Agem assim pro seu próprio bem. São tão legais, foras da lei, e sabem de tudo o que eu não sei”. Este foi o quadro que o rock “pintou”, nos anos de 1980! Quem era protagonista, então? Onde está hoje?

“Oh, Oh, Oh, nada mudou!”, ainda é a resposta.

Mudaram os tempos: a liberdade deixou de ser o mote. O medo não vem mais da repressão, mas, da marginalidade institucionalizada.

Aí, a esperança virou o tema… A esperança virou o lema! Porém, as maiores frustrações vieram de quem brandia seu estandarte:

Num triste domingo, afirmaram que o que acontece hoje, no Brasil, é o que sempre ocorreu.

Será que, também nesse caso, devemos esquecer tudo o que foi dito e escrito?

A dor ainda latejava, quando a mesma voz lançou o desafio: “Neste país, está para nascer alguém que venha querer discutir ética comigo!”.

Quem conhece o povo brasileiro, sabe que existem dezenas de milhões de patrícios que nem precisam discutir, pois moral, ética e honestidade para eles não é tese: é cotidiano! Vivem atentos ao: “Dize-me com quem andas…”, tentando evitar o “dizime com quem andas” ou “cobre dízimo de quem te segue”… E, com certeza, pouquíssimos são políticos, ao menos nos moldes adotados pelos de carreira.

Talvez o devessem ser, no lugar destes! Porém, prosseguem “vítimas” da esperança que, mesmo torturada, insiste em esperar!

Por isso, é preciso pedir muito mais do que desculpas: é preciso merecê-las em pensamentos, atos e palavras! Senão, ao povo continuará a restar apenas a remota esperança de que um dia, neste país, nasçam políticos que sejam blindados ou imunes ao erro, não ao castigo!

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Por Adilson Luiz

Palestrante, compositor e escritor, autor de Sobre Almas e Pilhas (2005) e Dest’Arte (2009). Articulista e cronista, escreve em vários meios de comunicação no país. É Mestre em Educação, Engenheiro Civil, Professor Universitário e Conferente de Carga e Descarga no Porto de Santos/SP. Mantém o site algbr.hpg.com.br
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