Pequenos grandes mistérios

Para onde vai a brisa morna da tarde que, delicada e suave, nos roça a pele, desalinha de leve o cabelo e desaparece sem deixar vestígio, senão a memória dessa poesia de vento em nosso corpo?

De onde vêm e para onde irão aqueles perfumes que, de repente porém intensamente, nos invadem as narinas? Em que canteiros moram, de que flores belas e delicadas terão fugido por instantes apenas para nos inundar a alma olfativa?

Nas pobres e humildes estradinhas de terra, por que se esforçam tanto aquelas formigas operosas, parecendo carregar nas costas, não uma imensa folha se comparada ao seu tamanho, mas o próprio peso do mundo?

As pontas das folhas, no capinzal, em sua dança sincronizada, fluindo em ondas, para quem dançarão, ao som da harmoniosa música inaudível que embala cada crepúsculo?

A fumaça que sobe das chaminés das casinhas de pau-a-pique, perdidas na imensidão dos campos, para onde estarão indo em sua viagem graciosa, enquanto formam delicados desenhos no contraste com o céu azul?

Parecendo feliz nos braços da água límpida e fria, para onde vai a florzinha que navega, entre as pedras, na sinuosa correnteza do córrego?

Quem compõe a linda, grave e harmoniosa melodia, que soa como um concerto para violoncelo, executada pelas cigarras no prenúncio vespertino do dia seguinte, que trará o calor do verão?

Aonde chegarão os pássaros que voam, lá muito alto, sobre a praia imensa e deserta, com seu silencioso bater de asas, parecendo ter cuidado para não atrapalhar, com nenhum ruído, o marulhar das ondas que açoitam as pedras e varrem as areias?

A chama da vela, acesa por mão caridosa compadecida, que ilumina o cadáver sobre a calçada, qual a força de sua luz diante da terrível escuridão da morte?

Para onde irão, parecendo um alegre bando de lindas e alegres moças de cristal num passeio de sonho, as gotas de chuva que escorrem pela vidraça?

Em que última esquina se perderão os sons das sirenes das ambulâncias que percorrem, velozes, as ruas na batalha contra o tempo escasso em que se dependura o fio de vida?

Aquele urro de decepção da torcida, por causa da bola que raspou a trave depois de fazer uma curva caprichosa, em que campos, pelo mundo e pelo espaço, ecoará?

As cores, todas as cores, em que retinas deixarão para sempre sua beleza, depois que nossos olhos se fartam e se encantam com as sutilezas de tom, o brilho encantador e a maravilha das combinações no caleidoscópio surpreendente do colorido das coisas?

Haverá respostas para esses pequenos grandes mistérios? E, se houver, valerá a pena sabê-las? Ou, ao contrário, será sempre necessário não conhecê-las, para que se mantenham assim, como a seiva que nutre a poesia, o encanto que fascina todos os artistas, o enigma que desafia as mentes indagadoras?

Que assim sejam os pequenos grandes mistérios!

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Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
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