Perfis

Pouco dado a demonstrações expansivas, embora garganteasse muito, o que mais eu associava ao vizinho eram os gritos que usava no trato com a mulher e as filhas. Certo dia, surpreso, vejo-o com a família num CTG, todos vestidos acaráter, ele com direito a lenço, bombacha e um chapéu de impor respeito. Fiquei sem saber se fora convertido ou se já era adepto e, por excesso de zelo, nunca havia demonstrado no prédio esse gosto pelo tradicionalismo. Já aquela amiga que chegou de fora nunca perdeu o sotaque paulistano, mas alguns anos depois estava dançando pau de fita e cantando num grupo folclórico da terceira idade. Não tem boa voz, mas sempre foi convincente na abordagem, no convencimento, nos agrados a este ou aquele interlocutor.
Arranjou novos amigos, viaja de vez em quando, e não se cansa de louvar as peculiaridades da cultura local, mesmo suspeitando que a cosmopolitização da cidade está arrastando a tudo e a todos para o inferno da perda deidentidade.
Lembro ainda da jovem que conheceu um argentino, mudou-se para Buenos Aires e voltou, meio ano depois, se expressando num portunhol de apavorar, porque falado com a falsa classe de quem ficou no meio do caminho. Foi me visitar no hospital, certa vez, e me constrangeu diante dos demais pacientes da enfermaria com seus trejeitos, seu glamour forçado, seus limites no pensar.
Depois disso, sumiu para sempre. Desconfio que voltou ao pampa e faz sucesso com seu rebolado de passista, coisa que é muito apreciada pelos portenhos.
Tenho outro conhecido que começou na roça, teve uma infância difícil, mas venceu na vida sem passar a perna em ninguém. No entanto, depois que trocou de edifício e de bairro, finge que não vê as pessoas, passa para o outrolado da rua, simula estar atrasado e segue em frente. Também mudou de carro e de grifes, e planeja se aposentar cedo com o respeitável soldo da Justiça.
Mas, se espremer, sobra pouco mais do que algumas ideias fixas, meia dúzia de preconceitos, um mundinho que se satisfaz com o básico, o saber suficiente para entrar nas rodas de bate-papo.
E tem aquele sujeito que sempre foi pedante, que já nasceu sabendo, que não se misturava e dirigia a palavra apenas aos chefes da seção. Quebrou a cara, paga pensões a mancheias, mas mantém a empáfia habitual. Não se pode dizer que tem amigos, porque o ego é grande demais para compartilhar o que quer que seja. E não desce do pedestal, porque teria dificuldades para viver no mundo dos normais, onde predominam ambições fúteis, de botequim.

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *