Peripécias de um equívoco que, afinal, morreu na praia

Semana passada no calor dos preparativos às festas natalinas, o ministro Hélio Costa das Comunicações joga a pá de cal sobre os escombros de um sonho mal sonhado.

O assunto repercutido pelo Caros Ouvintes e depois publicado no Estadão mereceu da jornalista Patrícia Rangel uma reconstituição que vale a pena ver de novo. Eis a íntegra do e-mail da Patrícia recebido pelo Ricardo Medeiros:

Olá Amigos
 
Artigo de Ethevaldo Siqueira no Estadão de hoje.
 
abraços
Patrícia Rangel

Hélio Costa abandona projeto de rádio digital
Ethevaldo Siqueira

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28 de dezembro de 2008

A mudança de posição foi radical. Depois de ter defendido abertamente durante quase três anos e meio o padrão de rádio digital americano (Iboc ou HD), apresentando-o como o único aceitável para o Brasil, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, acaba de retirar seu apoio àquela tecnologia, também preferida pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). O ministro reconhece agora o que todos os técnicos independentes vinham afirmando desde 2006: em todo o mundo, a tecnologia de rádio digital ainda tem muitos problemas que não permitem sua adoção no Brasil.

O recuo de Hélio Costa, embora tardio, é um fato positivo, pois seria muito pior se o Brasil adotasse o padrão de rádio digital Iboc. O maior prejuízo seria, sem dúvida, para as 5 mil emissoras de rádio brasileiras, que seriam levadas a investir numa tecnologia que ainda funciona precariamente. O que os observadores mais estranharam nesse episódio foi a posição da Abert, ao defender apaixonadamente o padrão americano, mesmo diante da comprovação de seus problemas.

MARCHA A RÉ
Hélio Costa anunciou sua nova posição no domingo passado, em artigo no jornal O Estado de Minas (leia-o, se preferir, no site Caros Ouvintes, http://www.carosouvintes.org.br/blog/?p=2111), em resposta à jornalista e professora Nair Prata, que havia cobrado do ministro, no início de dezembro, o cumprimento de suas promessas quanto ao rádio digital. Entre as diversas opiniões citadas no artigo de Hélio Costa, uma das mais convincentes foi a de Sarah McBride, editora de tecnologia do Wall Street Journal (http://online.wsj.com/article/SB122575904804195337.html).

Na realidade, o jornal americano apenas confirmou a conclusão já conhecida havia muito tempo: depois de quase 5 anos de introdução nos Estados Unidos, a nova tecnologia digital não conta hoje sequer com 10% da adesão das emissoras. Para se ter idéia da baixa penetração do rádio digital nos Estados Unidos, basta lembrar que, do lado dos ouvintes, mesmo com preços subsidiados, apenas 0,15% da população norte-americana adquiriu seu receptor digital.
PROBLEMAS
Uma das características do padrão conhecido pelo nome de In Band on Channel (Iboc) ou HD Radio, criado pela empresa Ibiquity, é utilizar o mesmo canal de freqüência para transmitir um único programa, simultaneamente, tanto no modo analógico quanto no digital. A idéia é excelente, mas, até agora, o sistema não tem funcionado de forma satisfatória.

Nas transmissões em FM, o padrão Iboc apresenta, entre outros, o problema do atraso (delay) de 8 segundos do sinal digital, em relação ao analógico. Como o alcance do sinal digital é menor do que o analógico, nos limites de sua propagação, a sintonia oscila entre um e outro, com grande desconforto para o ouvinte.

Embora pareça ser a grande saída, a idéia de usar o mesmo canal para transmissões analógicas e digitais, adotada pela empresa Ibiquity, não tem tido sucesso na prática. O fato indiscutível é que essa tecnologia ainda não está madura e apresenta diversos problemas sérios, como a impossibilidade de se utilizarem receptores portáteis – pois o consumo de energia é tão elevado que as baterias se descarregam em poucas horas.

Na Europa, outras tecnologias têm sido propostas em faixas de freqüências exclusivas para o rádio digital, o que, no entanto, obrigaria à troca de todos os receptores. Conclusão: ainda temos de esperar que o mundo desenvolva uma solução melhor para a digitalização do rádio.

ANÚNCIOS PRECOCES
O ministro Hélio Costa, desde que tomou posse no Ministério das Comunicações, em julho de 2005, tem anunciado numerosos projetos puramente imaginários, que nunca se concretizam ou que se revelam inviáveis. Na abertura do evento internacional Américas Telecom, em outubro de 2005, em Salvador (Bahia), ele anunciou que o Brasil já vivia “a era do rádio digital” (quando apenas algumas emissoras iniciavam os primeiros testes com o padrão americano HD Radio ou Iboc).

Na mesma ocasião, anunciou ao auditório que a Grande São Paulo veria as imagens da Copa do Mundo de 2006 com imagens da TV digital, que só entrou no ar em 2 dezembro de 2007. Entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 2005, afirmou categoricamente que o Ministério das Comunicações iria investir não apenas o montante de R$ 600 milhões anuais dos recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), bem como o saldo acumulado, então superior a R$ 4 bilhões. Até hoje o Brasil não utilizou praticamente nada do Fust.

Em 2006, o ministro garantiu que o Japão havia concordado em instalar uma indústria de semicondutores (circuitos microeletrônicos) no Brasil, em contrapartida à escolha do padrão de TV digital nipo-brasileiro. Na verdade, o Japão jamais prometeu essa fábrica.

No caso do rádio digital Iboc, o ministro Hélio Costa chegou a sugerir que a indústria brasileira se associasse com a americana Ibiquity, para produzir equipamentos no Brasil, com eventual apoio do BNDES.

2 respostas
  1. Jair Brito says:

    Interessante e estranhamente: nenhuma das 7 notícias inseridas no portal do Ministério das Comunicações durante o mês de dezembro último se refere a essa decisão do ministro Hélio Costa de retirar de fininho da reta o tão aguardado lançamento do rádio digital.
    Depois de tantas e caras “experiências”, custa acreditar que voltamos à estaca zero. Remember artigo meu publicado aqui no Caros Ouvintes em 26 de outubro do ano que passou (Rádio digital à vista ou Rádio digital a prazo?): “Como vemos, está mais para rádio digital a prazo… Pena, pois ‘o locutor que vos fala’, que vive na casa dos 70 anos, 55 deles atuando no setor de comunicação, ainda tem esperança de vir a trabalhar numa emissora digital. Coisa de gente que ama o rádio de paixão, e como! Que Deus me ajude a chegar lá”.
    Fiquemos ao aguardo nos próximos dias de uma posição oficial do Minicom.

  2. Mário Osny Rosa says:

    UM APELO DE UM BRASILEIRO

    Mário Osny Rosa

    Aqui fica um apelo está na hora de nossas universidades com seus centros de pesquisa a começarem a formar cientistas e a partir destes desenvolverem a produção de semicondutores, já que temos a maior reserva de silício de todo o planeta entregamos a matéria prima a preço vil e compramos os semicondutores a preço de ouro, ainda falam que temos a melhor educação, mas esta não produz os cientistas que necessitamos isto seria uma falácia.
    Falta investimento e a segurança de que estes cientistas prestem serviço a sua Pátria e alem disso mostrem serem brasileiros defendendo os interesses do Brasil.
    Sempre tivemos os maiores cientistas do mundo, mas nunca aparamos aqueles velhos baluartes da ciência. Padre Landell de Moura, o verdadeiro inventor do Rádio; Padre Gusmões, o inventor dos balões; Santos Dumont, o inventor do avião e tantos outros que tiveram e sempre menos prezamos.

    São José/SC, 4 de janeiro de 2009.
    http://www.poetasadvogados.com.br
    http://www.mario.poetasadvogados.com.br

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