Pioneiros do Fotojornalismo: Orestes Araújo

O que faria primeiro se fosse fotógrafo e o presidente caísse doente na sua frente, socorreria ou fotografaria?

Orestes AraújoUma pergunta mais ou menos assim foi feita na década de 1960 por Waldemar Anacleto ao jovem Orestes de Araújo, que respondeu imediatamente: faria as fotos e depois que elas estivessem garantidas e o presidente continuasse precisando de ajuda, prestaria o socorro. “O Anacleto não era um repórter-fotográfico, mas sabia exatamente a diferença entre o fotojornalista e o fotógrafo de estúdio”, lembra 40 anos depois o veterano da fotografia jornalística em Florianópolis, Orestes de Araújo.

Nascido no dia 5 de maio de 1934 em Garopaba-SC, então distrito de Palhoça, filho do coletor de impostos João Orestes de Araújo e de dona Lia Medeiros de Araújo, tomou gosto pela fotografia durante a Segunda Guerra, quando lia revistas norte-americanas sobre o conflito. “Eram foto de excelente qualidade para a época”, lembra. Mas não foi dessa vez que ele seguiu o ofício. Após estudar em Garopaba e Palhoça, Orestes fez os antigos Ginásio, no Colégio Catarinense, e Clássico, no Dias Velho (atual IEE), empregando-se como datilógrafo-escriturário na Assembléia Legislativa do Estado e se voltando ao vôlei – foi treinador por 15 anos da seleção catarinense da categoria e da seleção universitária feminina.

Ironicamente, foram esses dois envolvimentos – o funcionalismo e o vôlei – que o conduziram na direção da reportagem fotográfica. Em meados da década de 1950, por exemplo, quando a delegação de Santa Catarina participou dos jogos estudantis brasileiros em Belo Horizonte-MG, Orestes foi encarregado de fazer as fotos do desfile. “Eu peguei máquinas fotográficas dos atletas e fiz as fotos no meu daquela multidão”, assinala, não deixando de fazer referências às fotos da Segunda Guerra na infância. “Naquele momento senti a importância do documento, do registro fotográfico”.

Cadê o flash meu filho?

Brusque, Jogos Abertos de Santa Catarina (2º JASC), 1966. Pela primeira vez na vida Orestes de Araújo resolve fazer Orestes Araújo-1um ensaio, uma reportagem fotográfica de um evento. Com uma máquina Yashica Matt, com filme de 4×4 (milímetros), clicou seis rolos de filmes de 12 poses cada e mandou revelar no Foto Pereira, na mesma cidade. No outro dia, ao buscar as ampliações, o dono do estabelecimento sugeriu uma exposição na vitrine visando atrair interessados na aquisição de cópias.

Nunca ganhei tanto dinheiro. Não sabia que a fotografia dava dinheiro. Mas eu não tinha interesse na fotografia comercial”, recorda. Desse episódio ficou a sensação de que sabia fotografar, o que implica o uso adequado da luz, o enquadramento, o foco e, sobretudo, os instantes escolhidos. Casado desde 1961 com Ida Filomena Natividade de Araújo, com quem têm quatro filhos, aproveitou o tempo de servidor e fez um curso de administração na UFSC, ministrado por professores da Fundação Getúlio Vargas.

Certa feita, em 1966, foi chamado pelo presidente da Assembléia, Lecian Slovinski, e seu assessor Euclides Santos, interessados em criar uma assessoria de comunicação que produzisse textos e fotos sobre os trabalhos dos parlamentares, já contando com a presença de João José de Souza Costa, que atuava no jornal A Gazeta. “Eles não queriam fotógrafo comercial ou de estúdio, mas fotojornalista”, lembra Orestes, que logo estava fazendo a bagagem para um curso de três meses na Kodak, em São Paulo, com despesas pagas.

É nesse momento que começa o envolvimento direto de Orestes de Araújo com a fotografia e o jornalismo, empunhando uma câmera Minolta de 35 milímetros. Concluído o curso, seguiu para um estágio na assessoria de comunicação da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, onde havia sido criado um laboratório fotográfico. Só que Orestes levou na mala uma novidade para a capital gaúcha: rolos de filmes 400 ASA, Tri-X, recém lançados no mercado.

Durante uma visita do então presidente Costa e Silva à capital gaúcha, nessa época, Orestes foi destacado para a cobertura fotográfica, dispensando o uso de flash, usado por todos, o que chamou a atenção. “Estas brincando de fotografar… sem flash”, disse mais ou menos assim o próprio presidente. Os colegas também estranharam e ele teve que explicar o mistério. Logo o filme de 400 ASA passaria a ser usado em todas as redações do Brasil.

A foto não ilustra, informa!

Orestes Araújo-2Retornando a Florianópolis após breve estada nas capitais paulista e gaúcha, Orestes a atuar com Waldemar Anacleto no laboratório fotográfico do Palácio do Governo. Em 1967, iniciou no jornalismo diário fazendo fotos para o Caderno 2 do jornal O Estado, que funcionava na esquina das ruas Conselheiro Mafra com Padre Roma. “As referências que tínhamos de uso da fotografia na imprensa eram o Jornal do Brasil (RJ), Jornal da Tarde (SP) e Folha da Manhã (RS). E o Caderno 2 se inspirava no JB”, recorda.

Por essa época, adquiriu sua primeira máquina Nikon, com lente olho-de-peixe (180º), com a qual fez um comentado ensaio de Florianópolis. Mais tarde, se transferiu para o jornal A Gazeta, onde permaneceu quase dois anos, retornando a O Estado no final da década de 1960, quando estava com 33 anos de idade e ganhou o apelido carinhoso de “Velho”.

Em 1972, recorda, foi criado o primeiro quadro de fotojornalistas em Florianópolis, dirigido por ele e com a presença de Gaston Guglielmi, Paulo Dutra, Eduardo Schmidt, Sérgio Rosário e Carlos, cujo sobrenome não recorda, e que além de fotografar, atuava no laboratório. Rivaldo Souza também integrou esse time, reforçado mais tarde com Lourival Bento. No final da década de 1970, Tarcísio Mattos passou a atuar como laboratorista e logo estava com uma Cannon em mãos.

Nesse momento a fotografia deixa de ser mera ilustração, como ocorria nas revistas ilustradas, passando a ser jornalística. Abandonamos aquela prática de fazer fotos estáticas em que a pessoa saia sempre bonita”, salienta Orestes. Rodolfo Sullivan, considerado o primeiro repórter de Florianópolis (falecido), fez as primeiras matérias ao lado de Orestes. “Fomos os primeiros a sair juntos da redação para cumprir uma pauta e retornar para escrever e revelar as fotos. Antes disso o fotógrafo se pautava, levava o material para a redação, e algum redator fazia a legenda”.

Orestes permaneceu no jornal O Estado até 1985, sendo responsável pela revolução visual gráfica no aproveitamento da foto e no uso da imagem como fonte de informação e não ilustração. Ao invés de retratos acanhados num canto da página, as fotos eram abertas, chegando ocupar quase toda a capa, em algumas ocasiões. Internamente elas também ganharam generosos espaços. Foram os anos áureos do jornal. Isso se tornou possível, também, pela adoção do sistema de impressão offset, no lugar dos antigos clichês, que não permitiam tantas ousadias.

Em 1985, Orestes foi convidado para ser editor de fotografia do Diário Catarinense, onde já estavam Rivaldo Souza e Tarcísio Mattos, entre outros, num total de 22 profissionais em várias cidades de Santa Catarina. Ao longo de 12 anos, entre as décadas de 1970 e 1980, foi fotógrafo da revista Placar. Nesse mesmo período, por mais de uma década, trabalhou para a revista Veja, “que foi a minha grande escola em Santa Catarina”, reflete.

Um fuxiqueiro e dois ouvidos atentos

Orestes Araújo-4Meados de 1971. Quem acompanhava o noticiário internacional sabia que o então presidente dos EUA, Richard Nixon, fazia mistério sobre sua reeleição pelo partido Republicano. Os jornais especulavam, mas ninguém confirmava. E Nixon alimentava a incerteza, transformada em arma contra os adversários do partido Democrata. Os homens que guardavam o segredo tinham tudo sob absoluto controle e só na hora apropriada Nixon anunciaria a decisão de concorrer pela segunda vez ao cargo de presidente.

Toda essa couraça foi rompida pela indiscrição de um funcionário do BESC, responsável pela análise de uma solicitação de empréstimo feita por uma fábrica de canecos de chopp de Rio Negrinho-SC. Tendo recebido um pedido monstruoso de canecos, a empresa precisava de reforço de caixa para adquirir toda a matéria prima. Destino: a convenção republicana de agosto daquele ano de 1971, que iria confirmar a candidatura Nixon para o segundo mandato.

O funcionário do banco comentou e os detalhes chegaram aos ouvidos sempre atentos do repórter Aldo Granjeiro, que combinou a pauta para o com Orestes, ambos correspondentes da revista Veja em Florianópolis. Eles seguiram para Rio Negrinho num Fuscão (ano 1971), conseguiram entrar na fábrica e fotografar os indiscretos canecos de chopp e quase fizeram um estrago na candidatura presidencial com a matéria obtida. A Associated Press (AP) transmitiu as fotos e a matéria para os principais jornais de todo o mundo. Foi o chamado “furo” de reportagem. E “furo” dos grandes.

Jornal de Barreiros, com fotos do mestre
São José, 1991. Orestes cria o Jornal de Barreiros, enquanto aguarda a aposentadoria pela Assembléia Legislativa,Orestes Araújo-3 onde continua cumprindo expediente na qualidade de fotógrafo. “Hoje, aposentado, tenho o suficiente para comer e tocar a vida”, diz satisfeito, sem depender do faturamento do jornal mensal em seu 184º número, ano 16. Isso significa manter a independência como jornalista, o tom crítico, a visão humana da profissão.

As manchetes das edições de maio e junho desse ano são amostras da postura do veterano jornalista: “Fernando Elias sob o espectro da cassação” (maio) e “Os pesadelos de Fernando Elias”. Além de manter essa postura de vigilância, à medida que informa os fatos à opinião pública, o veículo já se transformou numa fonte de estudos das alterações urbanas de Barreiros e região, dos hábitos, costumes e cultura e seus moradores, enfim, do cotidiano de uma comunidade com todos os seus conflitos.

A redação bem instalada e munida de computadores e outros equipamentos, mostra que aos 73 anos de idade Orestes não está disposto a parar. Ao contrário. Os principais beneficiados são os leitores, privilegiados, que têm em seu dia-a-dia, as fotos de um mestre do fotojornalismo brasileiro – não disponível em nenhum outro veículo de comunicação com a mesma regularidade. Há um ano, adquiriu uma Cannon digital. “Resisti”, diz Orestes de Araújo, mas adotou outra ferramenta tecnológica contemporânea, como fez ao longo de toda a sua carreira.

Em 2011, Adílio Simões fez este registro da história de Orestes Araújo:

Orestes Araújo e Glaicon Covre. Foto: Marcelo Bittencourt.

Orestes Araújo e Glaicon Covre. Foto: Marcelo Bittencourt.

Orestes continua firme!

O veterano fotógrafo Orestes Araújo parece que anda meio sumido do mapa, mas na verdade ele se empenha mesmo é em comemorar os dez anos de circulação do “Jornal de Barreiros”, um tablóide que circula nesse bairro de São José com muito sucesso. Mestre de uma ou mais gerações de fotógrafos catarinenses, Orestes deixou um vazio profissional quando resolveu se aposentar, cansado da labuta diária em que ele tanto se empenhou ao longo de décadas.

Profissionais como Rivaldo Souza (falecido), Sérgio Rosário, Lourival Bento e tantos outros, aperfeiçoaram suas habilidades nas luzes e lentes no convívio com o personagem, através dos exemplos que ele ia distribuindo. Não faz muito tempo Orestes sentava-se na arquibancada do estádio Orlando Scarpelli, logo abaixo das cadeiras, deliciando-se com o desenrolar de uma partida de futebol. Sem pressa, esperava o melhor lance, o gol, o inusitado, para fazer sua foto.

Não precisava de muitas chapas, exceto se o fato fosse palpitante demais, quando ele girava constantemente o filme. Bom observador, experiente no ramo, aguardava o momento certo para sensibilizar o filme e, quando estava convencido de estar com “a foto”, guardava os equipamentos e ia para a redação entregar as bobinas operadas e ficava aguardando que fossem reveladas, feitos os contatos e escolhidas as que seriam publicadas. Esteva presente em todos os grandes acontecimentos de Florianópolis, das festas aos protestos, dos eventos religiosos aos desportivos, sem escolher esse ou aquele assunto. O que aparecesse ele registrava e em geral fazia isso magistralmente.

Assim, temos o Orestes Araújo registrando o tumulto de novembro de 1979, envolvendo o presidente João Batista Figueiredo, ministros e outras autoridades, no episódio que passou à história como Novembrada. Quando algum colega se via num aperto, sem filme, ou indeciso sobre o que fotografar, lá estava o mestre a prestar socorro, orientar, dar conselhos. E o fazia não apenas em termos profissionais mas, sendo sobretudo um grande ser humano, agia para aliviar dificuldades passageiras ou permanentes dos colegas que quase sempre se tornavam amigos.

Cumprido a missão, recolheu-se ao bairro onde nasceu e abriu o jornal que circula atualmente com 5.000 exemplares mensais. Sorte dos moradores de Barreiros e região, que têm o privilégio de desfrutar com exclusividade o talento do fotógrafo Orestes Araújo, que trocou o Palácio do Governo por eventuais presenças na Prefeitura de São José, a Assembléia Legislativa pela Câmara do seu município. Orestes resolveu dedicar seu talento aos que fazem parte do cotidiano de Barreiros – os jogadores de futebol, as crianças das escolas, os trabalhadores, artistas e anônimos.

Mais que fazer circular um tablóide mensal, Orestes reuniu nos últimos 10 anos um precioso acervo de imagens dos progressos e agruras de Barreiros e de quase todo o município de São José. Não há notícia de que outro fotógrafo tenha realizado esse serviço naquele bairro. É até bom que as autoridades do município comecem a pensar na importância desse material, testemunho visual de valor inigualável.

 

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