PlayRK30: Onde tiver silêncio, a gente quer colocar som

O mercado experimenta há algum tempo um novo fenômeno: surgem cada vez mais empresas dedicadas ao veículo rádio. Criando, produzindo, vendendo, reposicionando. São profissionais seriamente envolvidos e comprometidos com o veículo, apontando novos caminhos. Na marra às vezes. O processo necessário de renovação e valorização do meio encontra nesse modelo de negócio um novo fôlego.
Por Enio Martins

Os problemas do rádio estão aí e o RA foi saber mais sobre a criação da PlayRK30. O produtor Tula Minassian e o radialista Beto Hora associaram-se no novo projeto e contam nessa entrevista sobre os caminhos que pretendem abrir.
RÁDIO AGÊNCIA – O nome PlayRK30 faz alusão à história do rádio.
TULA – O nome surgiu da história do rádio, do programa PRK30 (N.E -lendário programa da Rádio Mayrink Veiga na década de 40). O Beto lembrou da força do programa. Estávamos com a idéia de promover uma grande revolução e sacudir um pouco os formatos de rádio. Com a idéia do Beto veio o estalo e resolvemos colocar PlayRK30, para gente desmembrar um pouco as funções que a Play já tem hoje, publicitariamente, e a gente poder fornecer outros serviços para os clientes dentro dessa nova busca que está sendo feita dentro de novas mídias e tudo…
BETO HORA – Na verdade começou quando montamos uma palestra para o pessoal que estuda publicidade, e durante a montagem dessa palestra, nasceu a idéia de incentivar esse pessoal que está entrando no mercado de trabalho agora a se apaixonar pelo rádio como nós, os mais velhos dessa profissão. Todo mundo é apaixonado por rádio. Mas viver o rádio é diferente de amar o rádio. Como eu venho dessa convivência com rádio muito antiga, pintou o estalo com o Tula: “vamos ajudar esse pessoal, vamos montar uma assessoria ou alguma coisa nesse sentido, para auxiliar e apresentar o rádio para essa nova geração”. E essa paixão foi o combustível para fazer esse negócio. E como a minha função na vida é levar alegria para as pessoas fazendo humor eu quis homenagear a PRK30. Falei para o Tula: “o que você acha de colocar o nome, desse nosso projeto, de PRK30?” O Tula foi viajar. Tomou um banho de cachoeira e na hora que ele terminou de tomar o banho me liga e fala: “Tive uma idéia fantástica.Vamos colocar o nome de PlayRK30”. Nasceu assim a PlayRK30.
RA – O Tula disse que o rádio precisa ser sacudido.
TULA – Eu tenho vivido muito rádio. Fizemos um trabalho muito forte com plásticas de rádio e tudo mais. Tive a oportunidade de estar dentro das rádios e viver isso. Agradeço a CBN que abriu essa possibilidade, de chamar um profissional de propaganda para enxergar o rádio de dentro ( N.E. – a Play fez vinhetas e jingles para a rede ). Com isso pude desenvolver um pouco o conhecimento das pessoas que fazem o rádio. Muito se fala da valorização do rádio. Posteriormente participei de debate com todas as rádios na Revista About, para discutir o futuro do rádio, e pude ouvir lá pareceres muito acadêmicos do que é o rádio, dos próprios funcionários das rádios, da própria posição da rádio. Sinto que o grande problema hoje, seguramente é a valorização e a venda desse produto. No momento que a gente está lidando publicitariamente com venda, necessidade de venda, eu acho que o rádio se vende pouco. Isso termina com o rádio ser o 4º colocado em busca de anunciantes. Essa é a grande preocupação que me bateu como apaixonado pelo veículo, porque quando a gente começou na publicidade o rádio era o foco maior. Nunca foi a televisão. É um veículo que está muito mais presente no dia-a-dia das pessoas: você passa duas, três horas no trânsito, de uma reunião para outra e tem a informação, o entretenimento, está tudo no rádio. O maior exemplo disso é o Pânico na TV, que começou no rádio. Mas se você pegar por história, tudo começa antes no rádio. E diante de formatos muito rígidos. Eu acho que o rádio acabou se juntando numa venda de mídia como televisão e foi o que matou o rádio.
RA – Você está falando de secundagem?
TULA – De secundagem. Tudo bem, hoje eu já consigo entender que as rádios criaram uma facilidade maior. Porém o anunciante não sabe disso. O anunciante não sabe hoje que ele pode fazer uma vinheta de cinco segundos para tocar no rádio, uma vinheta de dez, quinze segundos. Eu acho que o rádio demorou muito para sair do formato que a televisão estabeleceu, que é 30, 45 e 60 segundos. E há falta de conteúdo, ou seja, os horários são muito determinados. Esporadicamente surge um Na Geral. Que surgiu do nada. Da espontaneidade de três artistas que falaram “vamos fazer” e fizeram. Começaram numa rádio pequena, que é onde você começa porque existe dificuldade com as grandes rádios que não apostam em projetos ousados e inovadores. Aí uma Brasil 2000 vai e aposta numa história dessa porque qualquer coisa que vire audiência, partindo de zero, já é alguma coisa. Hoje o Na Geral e é tratado no tapete vermelho dentro da Bandeirantes.
RA – Como a PlayRK30 conseguirá quebrar essa barreira?
TULA – Todo expertise que nós temos de vida é muito isso. Eu fico aqui do meu lado, dando consultoria, que também não é reconhecido no Brasil como consultoria. “Ah, Tula, o que você acha?” e chega uma hora que você está dando idéias, planos de mídia, de estratégia, de pessoas. Com o Beto é a mesma coisa:”Beto, quem faz essa voz, quem não faz essa voz? Quem poderia me ajudar nisso, etc”. Na hora de virar consultoria é também trabalhar como um arquiteto: “É só um projeto? Você só quer ouvir o que a gente pensa?” E estou falando também de outras mídias alternativas como Internet, ações promocionais em eventos, tudo. Eu tenho um pouco do racional e o Beto do irracional. Ele é totalmente enlouquecido. A grande aposta é que um vai compensar o outro. Dentro dessa inquietude toda surgiu essa possibilidade. A idéia da revolução no rádio é criar a solução. Se nos procurarem com um problema a nossa idéia é trazer a solução pensando no que pode ser interessante para o ouvinte ou para o anunciante. Dentro disso tem a criação de programas de rádio, criar uma central de produção que possa produzir dez idéias e dessas dez uma valer. Mas que essa idéia que a gente consiga efetivar, comece a gerar frutos na hora que conseguir ir para o rádio, por exemplo. Um dos projetos que temos hoje é o Bola na Renda, que é uma idéia da Carol, que é uma coordenadora minha que gosta de rádio e pensou nesse programa. O “Bola na renda” é um programa esportivo feito só por mulheres. Esse é um piloto que estamos fazendo e que vamos sair ao mercado vendendo. Então isso já é uma das idéias. Tem a história que a gente fez pelo movimento “Avanti Palestra!” também…
RA – Como? Aquela campanha para valorização do Palmeiras e torcedores?
TULA – É isso.Montamos um movimento, o “Avanti Palestra!”, o presidente é o Flavio Ponte da DPZ. Lançamos agora um hino motivacional. A idéia desse hino surgiu porque todo jogador que você pegar naquelas histórias de copa do mundo, do “Deixa a vida me levar” que foi na época do Felipão e que embalou os jogadores, que criou o espírito, eles tem essa coisa. Eles ouvem música o tempo inteiro. Por isso vendi a idéia de fazer um hino que falasse da tradição do Palmeiras, do quanto o Palmeiras é importante para as crianças e família. Fizemos e apresentamos semana passada para o Della Monica. Ele comprou a idéia total e deu para o Tite usar nas palestras dele com os jogadores, vai tocar no estádio. Isso já é, por exemplo, uma mídia alternativa que pode terminar no rádio. Mas o objetivo dela foi começar como um hino motivacional. E aí vão surgindo as idéias. Fizemos agora uma vinheta para a CBN, para o “Fim do expediente” que o Dan Stulbach apresenta.
BETO HORA – É uma das coisas que a gente quer auxiliar também. Todo mundo tem uma super idéia para fazer um programa. Todo mundo, Todos os ouvintes. Os que gostam e os que sonham em trabalhar em rádio também. O difícil é viabilizar essa idéia. O que a gente vai fazer é auxiliar essa pessoa também a realizar o sonho dela. Vamos adequar a idéia do cara abrindo um leque maior de ouvintes. O seu gosto por rock é uma coisa e o meu gosto por rock é outro. E para tentar agradar gregos e baianos é complicado. A idéia é juntar a nossa paixão por rádio, a experiência do Tula em publicidade, a minha pequena experiência em humor e rádio, juntar tudo e auxiliar todo mundo.
TULA – Da necessidade cria-se a solução. A necessidade de hoje, desse projeto ir adiante é muito em função disso. A Play como produtora, tem artistas contratados como Nelson Ayres, André Abujamra, André Mehmari e o Xuxa Levi, que são músicos conhecidos e respeitados mas que a publicidade de hoje não está buscando, esse diferencial. Ela tá buscando o menor custo, pura e simplesmente. Não interessa quem vá fazer. Isso é um desrespeito ao talento desses artistas. Como é desrespeito ao talento do Beto. O Beto hoje na propaganda é a voz que quinhentos outros poderiam fazer. Porque quem está ouvindo, não está procurando mais essa distinção qualitativa. Quando o universo vai fechando nas agências de propaganda, você descobre que o mídia por não ter a audiência da rádio monitorada, ele não leva para o cliente e diz que tem um milhão e meio de ouvintes no Padre Marcelo. Ninguém sabe que o Padre Marcelo tem um milhão e meio de ouvintes na rádio AM. Uma das formas da gente chamar a atenção para a PlayRK30 é que a gente sabe disso e podemos levar tanto para o anunciante quanto para o veiculo ou agência este conhecimento. O mídia hoje, dentro das suas funções, em veicular na Veja ou comprar espaço na Globo, compra espaços padronizados. A clareza do resultado imediato. Agora, ele também não sabe, que se ele veicular num programa como Na Geral, por exemplo, ele está focando no esporte. Se você vai procurar anunciante de cerveja ou refrigerante, o programa é esse. Não adianta você dar um tiro e anunciar num programa da tarde, de culinária. Esse conhecimento e essa venda é um pouco do que a gente quer apresentar na coisa da estratégia e não necessariamente a Play será a produtora de tudo isso, é importante ressaltar. Na medida em que a gente vai fornecer os projetos, a Play tem uma estrutura capacitada para atender, mas não necessariamente atenderá a tudo.
RA – Vocês trabalhariam dentro das emissoras com as respectivas estruturas, por exemplo?
TULA – Ou a gente terceiriza o serviço de produção. O Tuta Aquino é um produtor nosso, tem o estúdio dele, tem um trabalho independente.Automaticamente pode vir e servir a gente num job.
BETO – E tantas outras produtoras que tem experiência e gente experiente que podemos auxiliar também, a movimentar esse bolo fantástico que a gente está criando.
TULA – Se houver essa procura que a gente está acreditando, existem N profissionais distribuídos hoje aí em estúdios que podem contribuir, cada um, dentro da sua linguagem e colocar um supervisor dentro de cada projeto. Essa é mais ou menos a idéia, entende? Faremos um projeto, uma ação promocional, por exemplo dentro de um shopping para o dia das crianças. Vamos lá e gravamos uma homenagem do pai e da mãe para a criança e transformamos isso na hora num ringtone. Montamos um quiosque dentro do shopping. A mãe e o pai vão sair do shopping com um ringtone gravado no telefone para o dia das crianças. Isso é uma ação que, não necessariamente, a Play precise fazer. Eu contrato um produtor, esse produtor vai lá e monta essa ação, coordenada pela PlayRK30. Temos também a idéia de gravar rádio novelas, áudio books, tentar fazer vingar isso no Brasil.
RA – Mas já tentaram isso milhares de vezes. Você acha que dá certo mesmo?
TULA – Eu não sei se ele dá certo. Eu acho que ele é necessário. O nosso descobrimento, a nossa vontade, é acreditar que existe espaço para isso. A gente até agora não foi atrás, saber o por quê que não deu certo. Se você pegar um livro Código Da Vinci, você tem uma produção enorme.Isso pode ficar muito caro. Mas como produção, ele é extremamente atraente de fazer. Porque na hora em que você estiver viajando, você poderá ouvir esse livro. A nossa cultura ainda não nos permitiu isso, mas nos Estados Unidos já sai tudo casado.
BETO – Acho que o start para esse projeto seria, primeiro, os livros de humor…
RA – Talvez o Beto Hora lendo um Luís Fernando Veríssimo…
BETO – É! O start seria mais ou menos esse. Se você vai viajar e de repente você coloca uma coisa de humor, com certeza vai agradar a todo mundo dentro do carro.
TULA – Vale ressaltar, a Lili (Elisangela Domingues Aragoni),, que é a nossa diretora de novos negócios que está junto justamente para abrir esse canal. Ela é uma pessoa de extrema confiança e que vai buscar essas oportunidades da gente poder fornecer esse trabalho. Acho muito importante isso, descobrir onde podemos colocar nosso trabalho. Acho que a maior dificuldade que a gente tem é fazer acontecer a atração por esse produto que estamos querendo vender.
RA – Outra dificuldade: As rádios parecem que ficam trancadas em seus castelos, olhando do alto. Ninguém chega perto, ninguém entra. E aí?
BETO – É difícil. Eu que trabalho com rádio há 20 anos, sei da dificuldade que você tem para mudar um programa, uma plástica numa rádio, mesmo você estando dentro da rádio, é muito complicado. Se você conhecer a estrutura de uma rádio hoje, “está dando tudo certo, não mexe pelo amor de Deus”…
TULA – É a mudança, né? O ser humano não gosta de mudanças. Quando você vai provocar mudanças no que você já está fazendo fica complicado.
BETO – A PlayRK30 nasce com essa idéia: de levar à diretoria do rádio a possibilidade de inovar sem ter gasto, sem ter custo, sem ter que parar estúdio, sabe? A PlayRK30 faz o piloto.
RA – No caso de anunciantes. Como vocês pretendem fazer o negócio com as rádios?
TULA – Tem um casamento que já está acontecendo. Estamos com alguns projetos andando. Criar ao veículo a possibilidade dele vender um produto novo para o anunciante: de que forma isso acontece? Os veículos procuram, a gente planeja, cria o programa ou o produto e o veiculo vai ao anunciante, vai até a agência e vende esse produto. Na hora de vender esse produto, esse produto está casado com o veículo dependendo do acordo que a gente fizer, ou ele será casado com a agência ou com o anunciante diretamente. Essa possibilidade fica muito aberta hoje no “job a job”. A gente sente que, na verdade, é liberdade de ação que a gente precisa. Hoje, como produtor de propaganda e publicidade, o que mais me sufoca é a falta de liberdade para oferecer as nossas idéias. Quem faz a diferença hoje está chamando pessoas criativas para conversar, independente do que você pretenda. É criação coletiva o nosso trabalho. A partir do momento que você tem um job a fazer, tem que ter abertura para ouvir idéias e sugestões de todas as pessoas envolvidas.
BETO – O grande barato pra gente é auxiliar as pessoas para realizar um grande sonho. É um prazer. “Pô, eu tenho uma música aqui e eu não consigo colocar a letra.” Eu, o Tula, vamos lá! Vamos convidar o Nelson Ayres, o Tuta, e vamos fazer, vamos auxiliar. Não diretamente precisa envolver valores a isso, mas o fato da gente estar ali, auxiliando. E auxiliando com som, exatamente o que a gente quer fazer. Onde tiver silêncio, a gente quer colocar som.
RA – Eu queria saber se vocês traçaram uma meta de faturamento até o final do ano, número de clientes, uma expectativa.
TULA – Essa pergunta nos foi feita pela Solange, que é a nossa financeira. E nós não tivemos como responder (risos).
BETO – Não sabemos como o mercado vai reagir. O importante nesse momento é a gente realizar. Acho que faturamento é uma coisa conseqüente do que você faz.
RA – Qual o tipo de cliente mais atraente hoje para vocês?
TULA – Agência de promoção, agência de publicidade, rádio, anunciantes que tem característica de usar o rádio.Essas pessoas, esses anunciantes, são fatalmente clientes potenciais…
BETO – Eu adoraria receber uma ligação da agência de publicidade e a gente se reunir, sentar na mesa e criar algo para o rádio.
TULA – Na verdade o que o Beto está falando é da espontaneidade que falta em tudo hoje, eu acho. Tudo é muito movido a regras determinadas e a coisa da liberdade. Fizemos para o Canal Kids na internet um site só voltado para crianças. E eles fizeram agora um acordo com a Fox Home, criaram o personagem do Mico Nicolau. Nós fizemos cinco músicas para esse site e as crianças vão interagir dentro do site, mexendo na mixagem dessas músicas, na produção da música e vão fazer do jeito que elas quiserem. Eu falei que faríamos a música e vamos ver a forma de comercializar isso. Ou seja, a forma de comercializar é: ou você participar percentualmente nos negócios que vão gerar aquilo ou você cobrar na origem. Não tem muito mistério. Para isso trouxemos o Paulo Gomes, que é do escritório de advocacia. Porque no Brasil, com leis de direitos autorais, com as vozes que o Beto faz e tudo, ela tem diversas interpretações. Nós vamos lidar com muitas mídias diferenciadas sem legislação ainda. Essa mídia da internet, telefonia celular e tudo, é uma mídia que ainda não está coberta por direitos autorais. Para isso, nos associamos junto ao Paulo Gomes, que é advogado das agências de propaganda. Fiz a proposta para ele sair junto com conosco protegendo o cliente ou quem está cobrando na origem desse trabalho. Ou seja, eu não vou criar um problema futuro com Beto Hora imitando o Pelé. Esse tipo de risco nós não vamos correr. Isso estará protegido no contrato, na origem.
BETO – (imitando Pelé) Até mesmo porque se o juiz me chamar eu vou falar “essa é a minha voz” (risos)…


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