Pobre não precisa “revalida”, mas a espionagem é de primeiro mundo

UM – Na polêmica da importação de profissionais para tapar o sol com a peneira no problema que os governos não souberam solucionar (o culpado pela crise na saúde pública é o médico?) emerge um dado absurdo na decisão de não exigir a revalidação do diploma de quem chega do exterior. Na prática tal decisão diz que o brasileiro pobre, o da periferia e o dos grotões não precisa atendimento padrão FIFA.

Essa leitura da posição do governo não é força de expressão, é tragédia pura. Quero querer que o Ministro Alexandre Padilha, do PT, não tenha se dado conta da incongruência, mas na prática o Programa Mais Médicos criou, ao restringir geograficamente os locais de atuação de quem chega e atua sem a revalidação, uma classe de paciente que não precisa que o órgão profissional confirme a qualidade da assistência.

Ao criar zonas de exclusão para o exercício da medicina aos estrangeiros (alguns na dimensão de trabalho escravo como os de Cuba) o Ministério da Saúde gerou essa anomalia. Ou seja, para alguns brasileiros todo o cuidado com o médico que sai da nossa faculdade, exigindo – corretamente – a intervenção dos organismos de classe para garantia de sua competência e, para os pobres, a impressão de que serve qualquer coisa. Para trabalhar no hospital Sírio Libanês e locais do mesmo nível de excelência, só com “revalida” para quem vem de fora para trabalhar, agora, para atuar na periferia…

Essa atitude de baixar o padrão de exigência em vista da enorme defasagem que deixamos acontecer na realidade nacional infelizmente faz parte (intencionalmente ou não) da postura gestada por essa praga do politicamente correto e cria um monstrengo na teoria de quem assumiu o poder representando os ideais contra a ditadura. Se falta médico que venha de onde vier, mas sem baixar o padrão só porque o paciente é pobre.

DOIS – Não há como tolerar o que os órgãos de segurança dos Estados Unidos estão fazendo. Essa espionagem (embora praticada por todos os países poderosos) viola qualquer tratado internacional civilizado. Isto é o óbvio e a presidente tem realmente que reagir com veemência.

(Não resisto, sou obrigado a registar que enquanto a qualidade dos médicos que vem do exterior pode ser considerada duvidosa pela falta do “revalida” a compensação fica patente ao termos certeza que a espionagem é de primeiríssimo mundo, chega até nós com o que há de melhor no campo da tecnologia)

Agora, o episódio mostra outro lado óbvio (este no campo do pragmatismo do cotidiano – responsável ou irresponsável é irrelevante no contexto), ou seja, os EUA jamais deixarão de bisbilhotar o que pensa e faz no exercício do poder central a geração mais antiamericana da história Brasil. Caramba, ficamos mais de vinte anos culpando os americanos pelas nossas mazelas e prometendo barbaridades se um dia tivéssemos poderes (como sonhamos com isso!) e agora queremos abraços fofos.

Fomos ingênuos ao ponto de não acreditar que isso não aconteceria? Ora bolas, isso é prova do amadorismo da geração de 1964 ao chegar ao poder. Vamos recapitular a história: os EUA apoiam o golpe militar no Brasil, quem luta contra a ditadura promete comer o fígado dos americanos e ai, quando chega ao poder esquece de montar um sistema antiespionagem? Eu estou cansando das barbaridades…

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Por Ivaldino Tasca

Jornalista e radialista. Natural de Barra Funda/Sarandi-RS. Reside em Passo Fundo, onde já foi secretário de Meio Ambiente e de Cultura. Atuou na Cia. Jornalística Caldas Junior por dez anos, foi chefe de redação e diretor de O Nacional, mantém coluna no jornal Diário da Manhã e programa sobre ecologia na Rádio Uirapuru de Passo Fundo.
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