Pois, dito e feito

Pariu a primeira filha aos doze anos. O segundo, um varão, aos quatorze. O terceiro dos quinze para dezesseis. O quarto aos dezessete e meio. O quinto aos dezoito e poucos. Do primeiro até o décimo quinto, e só parou aí por conta da viuvez, o intervalo exato entre uma prenhez e outra.

Parte das crianças morreu ainda na primeira infância. Os que lograram atingir a segunda foram morrendo aos poucos. Um de maleita, outro de esporão de bagre, um de raio, outro afogado, mais outro afogado, um de convulsão, outro de congestão, um na farra do boi, outro de picada de cobra, um de tosse comprida, o mais mocinho de tormenta. O pobrezinho obrou até morrer.

Do terceiro em diante, parou de chorar. Apenas banhava a criança com água morna, último cuidado, enrolava-a numa mantilha, colocava-a no caixote tosco feito pelo marido, fazia o sinal da cruz na testa do anjo e procedia ao enterro.

Contrariando o presságio, sobrou a primogênita que só morreu aos 86 anos. Ela, apesar da idade, fez questão de comparecer ao velório da filha. Amparada por duas vizinhas, aproximou-se do caixão, fez o sinal da cruz na testa da defunta e disse, sem lágrimas:

_Tadinha. Tão fraquinha! Eu disse que ela não ia vingá!

* Crônica do livro Cenas Urbanas e Outras Nem Tanto, Bernúncia Editora, 2012. A partir do relato da Kátia amiga da minha irmã, Rosane.

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Por Norma Bruno

Natural de Florianópolis/SC. É graduada em História, pesquisadora, cronista e escritora, autora dos livros A Minha Aldeia e Cenas Urbanas e outras nem tanto. Colecionadora de rendas de bilro e revistas antigas. Filha do radialista e técnico em eletrônica Lourival Bruno, gosta de ouvir rádio desde pequeninha.
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