Por que lembrar?

Alguém, algum dia, lembrará de nós? Mas como, se não guardamos nenhuma anotação, muito menos alguma foto, aliás, durante aqueles anos não queríamos mesmo lembrar nada.

[Por Nelson Rolim de Moura* ]

Rolim6 (1)

O que mais recordamos é o terror da ditadura, implacável e assassina. Contudo, um pouco escrevi e guardei com muito cuidado. Talvez alguém queira ler algum dia. Acho difícil, somos tão anônimos… Quem sabe? Melhor assim, ninguém, nada, coisa nenhuma…

Minha mãe guardou o que pôde e resolvi escrever agora. Contar sobre uma das muitas facetas da ditadura – que aviltou o povo brasileiro – na democracia política atual. Eis apenas uma das diferenças que nos separam daquele negro período ditatorial no qual sobrevivemos, do final da década de 1960 até o início dos anos 80, dos meus 17 aos 29 anos, período que recebeu aqui mais a minha atenção. Não avancei na cena política, que vai se distensionando par e passo à luta contra o regime e pelas liberdades democráticas e todos saem à luz do dia, para encurtar essa história que carrego comigo há tanto tempo.

Esta é uma longa crônica na primeira pessoa, como quase todos os livros publicados sobre esse período. Omiti certos nomes por não ter mais certeza de como foi o seu envolvimento em certos fatos, mas é tudo verdadeiro. Quando não tive quaisquer dúvidas, grafei o nome real. É meu testemunho pessoal de uma história de personagens autênticos e alguns poucos fictícios, como na “Crônica da clandestinidade”, – espécie de alter ego –, que, no entanto, foram criados para sustentar muitas ações e acumulam a consciência, os processos psíquicos e os princípios de uma época, expressando assim toda a carga subjetiva, emocional, afetiva e sentimental que não fui buscar através de entrevistas com os personagens desta pequena obra por diversos motivos. Portanto, um relato lastrado apenas em minha própria experiência, breves pesquisas e bagagem histórico-cultural, e também usei muitos textos de companheiros que melhor souberam expor nossas ideias comuns.

Não queria me colocar no papel central desta história, porém esta me pareceu a forma mais simples de desenvolvê-la, até porque meu testemunho pessoal é o fio condutor em quase toda a narrativa, mesmo nas situações imaginárias às quais recorri para representar certas passagens obscuras que não podem sair do anonimato. São retalhos de vida. Por isso, persona e anima podem não ser o que parecem ser, num jogo de esconde-esconde com o qual costurei este livro, por não me pretender historiador e por querer concluí-lo em pouco e definitivo tempo, depois de decorridos mais de 40 anos e duas tentativas abandonadas com poucas páginas escritas.

 

 

*Nascido no Rio Grande do Sul, o jornalista e editor Nelson Rolim de Moura vive há 37 anos em Florianópolis, onde trabalhou como jornalista (“O Estado” e “Afinal”) e depois como um dos livreiros mais atuantes de Santa Catarina. A Insular, editora por ele criada, surgiu em meados da década de 1990 e se destacou por editar obras de autores brasileiros ou latino-americanos, além de catarinenses, em áreas como a literatura, a história, as ciências humanas, o Direito, biografias e livros técnicos. Rolim está prestes a alcançar a marca de mil títulos publicados e tem no currículo um importante trabalho à frente da Câmara Catarinense do Livro, onde promoveu várias edições de sucesso da Feira do Livro da Capital.

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