Povo é com ele: Sérgio Zambiasi

Vanessa Bueno
A movimentação no estúdio é grande. A todo o momento, o produtor abre a porta acompanhando mais um ouvinte que veio contar sua história e pedir algum tipo de ajuda. Nessa manhã, divulga-se, entre outros casos, o drama de uma filha que pede por uma cama hospitalar para acomodar o pai enfermo em casa. Quando alguém finalmente liga oferecendo o móvel, o apresentador dispara: “Pronto, fui útil, consegui ajudar. Já está ganho o meu dia”. Trata-se de Sérgio Zambiasi, que, há menos de um mês, está de volta ao programa Comando Maior, da Rádio Farroupilha.

 

Divulgação

“A impressão que eu tenho é de que nunca saí”, conta, referindo-se aos seis anos em que esteve afastado do programa, em virtude de seus dois mandatos como senador pelo Estado.

O comunicador diz que retornou com o mesmo frio na barriga do começo da carreira. “Estava ansioso por esta volta”, ressalta. Quem vê seu entusiasmo em frente ao microfone sabe do que ele está falando. Zambiasi chega na rádio às seis da manhã e, junto com ele, os ouvintes. Sim, o público participa do programa direto do estúdio. O formato foi lançado há 28 anos, quando estreou na Rádio Farroupilha. “Percebi o anseio das pessoas para participarem mais. Então abri espaço para elas mesmas contarem suas histórias”, explica.

Aos 61 anos, orgulha-se de contar que fez sua primeira locução de rádio aos 15 anos. A estreia foi na Rádio Cristal, de Soledade. Avisado por um colega de aula de que a emissora realizaria teste no sábado, ele foi lá e, aprovado, iniciou na segunda-feira seguinte. “Quando eu falei pela primeira vez no microfone da rádio, soube que essa era a minha vocação. Foi para isso que eu nasci”, acredita, convicto.

Sempre solidário

Se sentir útil também foi o que o moveu para atuar na Política. Além dos oito anos como senador, Zambiasi foi deputado estadual durante três mandatos. “Enquanto eu puder, vou ajudar”, diz, revelando que foi muito ajudado por amigos, parentes e vizinhos, que percebiam que sua família passava por dificuldades. Sétimo de oito irmãos, ele é filho de agricultores sem terra, como faz questão de ressaltar. “Meu pai não tinha terra, estava sempre produzindo em parceria com algum fazendeiro”, conta.

Nasceu em Encantado e acostumou-se a mudar com a família para onde tinha trabalho disponível. “O pai nunca aceitou a condição de pobreza que nós vivíamos e tentou nos conduzir para uma ascensão social. Ele era um inconformado, estava sempre atrás de melhores oportunidades”, lembra. Hoje, é motivado por essa vontade de vencer herdada do pai, Fiori, somada à educação vinda da mãe, Antônia. “Ela era analfabeta, mas baixava a disciplina em casa e ai de quem não obedecesse”, recorda.

Com essas características, ele procurou conduzir sua vida pública. Quando começou na Política, se comprometeu a trabalhar pela inclusão social e, assegura, foi o que fez até o último dia de mandato. Nesta linha, gosta de ressaltar, participou de diversos processos de regularização de prédios invadidos. “Levei água e luz para muita gente”, diz, orgulhoso. Aqui, aproveita para destacar que seu negócio na Política sempre foi colocar a “mão na massa”. “Nunca gostei de dar discursos, sou tímido”, assume.

Na Política

Sua identificação com o público que procura a rádio é tanta que, já na primeira candidatura para deputado estadual, ele foi o mais votado, fazendo 366 mil votos na eleição de 1986. “Eu tinha noção do carinho dos meus ouvintes, mas não imaginava tamanha repercussão”, comenta. Mas, era só olhar para os números da audiência para saber o que lhe esperava nas urnas. Quando estreou na Farroupilha, em 1983, demorou apenas 11 dias para atingir o primeiro lugar no ranking. De lá pra cá, só fez aumentar a repercussão do programa. Como deputado estadual, aprovou projetos como a ampliação do trajeto do Trensurb até Novo Hamburgo e a duplicação da ponte de Guaíba.

Hoje, é comum ver pessoas chegando no estúdio da rádio com fotos de 15 anos atrás ao lado de Zambiasi. “Esta aqui é de quando vim à primeira vez no teu programa”, diz a ouvinte para o comunicador. “Bah, mas como eu era novo”, brinca ele. O tom de descontração permeia toda a atração. Em meio a tantos pedidos e ligações, Zambiasi se desdobra para dar atenção a todos que o cercam. E se emociona ao contar histórias como a da dona Maria, que ficou grávida sem saber que o marido era portador do vírus HIV. “Essa mulher é uma guerreira. Realiza o seu tratamento e da criança corretamente, vive em condições de miséria, mas, mesmo assim, se esforça para manter todos os filhos na escola”, comenta.

Em família

Além da apresentação do programa Comando Maior, a rotina do apresentador inclui a produção de uma coluna diária para o Diário Gaúcho. Para facilitar, sua residência é próxima da Farroupilha. Todos os dias ele almoça em sua casa, retornando à tarde para produzir o texto do dia seguinte e resolver questões pendentes da rádio. “Eu gosto muito de estar aqui. Me perco nas horas”, explica. Política para ele hoje só se for procurado por algum colega de partido para dar sua opinião.

Nas poucas horas em que não está trabalhando, gosta mesmo é de curtir o lar. Morando com a filha Tamara, 28 anos, ele aproveita para se aventurar na culinária e colocar em prática as dicas que a filha chef de cozinha lhe dá. Também moram com eles a gata Jô, a cachorra Polly e o cão Zaion. Apaixonado por Porto Alegre, diz que não fez questão de fixar residência em Brasília. Enquanto exerceu o mandato de senador, viajava toda a segunda-feira para a capital brasileira e retornava na sexta para passar o fim de semana com a família e os amigos.

Zambiasi também é pai das advogadas Tatiana, 34, e Tássia, 25, e da estudante de Odontologia Bianca, 18. Há um ano, tornou-se avô da Laura, filha de Tássia. “Amo as minhas mulheres”, derrete-se. Divorciado duas vezes, sobre relacionamentos amorosos limita-se a dizer que está construindo uma relação: “Estamos aprendendo a conviver”.

Vocação

Com o telefone tocando sem parar, mesmo durante a entrevista, ele desculpa-se e atende a todas as chamadas. “Estou sempre disponível para ajudar. Meu trabalho é, para mim, como uma missão social”, afirma. A postura solícita, muitas vezes, lhe forçou a abrir mão de alguns compromissos familiares pelo ofício. Mas, sobre isso, ele é incisivo. “Para ficar comigo tem que entender que a minha vida é assim”, e ainda brinca: “Mas isso não me dá o direito de vir trabalhar mal-humorado na segunda-feira”. Foi sempre assim, desde a rádio Cristal, de Soledade, passando pela Alto Taquari, de Estrela, Itaí e Difusora, de Porto Alegre. Em todas as emissoras, ele dedicou-se a ajudar à comunidade.

O estilo que o consagrou com comunicador das massas inclui jargões como “gente amiga”, ou “gente, gente, gente”. A inspiração, segundo ele, não tem nomes específicos, vem dos inúmeros programas de rádio que costumava ouvir desde criança. Feliz em estar de volta ao seu universo, ressalta que nunca imaginou que alçaria tanto prestígio. “A gente sonha com uma carreira profissional bem-sucedida, mas não tem como prever tamanha repercussão.”

Ao falar sobre o futuro, diz que tem muito a contribuir ainda. E essa contribuição ele pretende fazer ao lado do colega de programa e compadre Gugu Streit, que o substituiu em sua ausência. “O Gugu sempre me assessorou dentro da rádio. Quando eu saí, a escolha de seu nome para meu lugar foi natural”, comenta, enfatizando que o entrosamento entre eles é tanto que as pessoas chegam a confundir os dois. E seu lema de vida não poderia ser outro: “Trabalhar é a minha vocação. Não sou repórter. Nunca fiz uma reportagem. Nem sei que tipo de perguntas deveria fazer. Mas sei comunicar e é isso que me dá prazer”.

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