Prazer de viver (Niente senza gioia)

Fora morar ali grávida do primeiro filho. A pequena cidade era famosa por suas enchentes, a ponto de merecer uma marchinha de carnaval, uma homenagem prestada por algum gozador da Capital. A bem da verdade, mesmo que o índice pluviométrico fosse pouco significativo, a localização entre o rio e o mar transformava aquela cidade numa espécie de Veneza tupiniquim, ainda que desprovida daquele charme e romantismo, acrescida do ônus de ser uma cidade do sul do mundo, com todas as suas mazelas.

Com base no relato dos habitantes locais, toda família tinha alguém que perdeu tudo. Enquanto o tempo cumpria a sua sina, nasceram seus três filhos e ela enfrentou chuvas de todos os tipos – chuva passageira, chuva de verão, chuva da fina, abençoada, que faz a alegria das flores, grãos, verduras e hortaliças, e também daquela que parece que não vai embora e começa a brotar na porta da geladeira, no azulejo da cozinha e do banheiro e a gente não pode lavar as roupas das crianças que ficam presas dentro de casa e a casa vira um deus-nos-acuda, Deus o livre! Teve também chuva do tipo tempestade, raio-corisco-trovão, chuva de noite e chuva de dia e nada de enchente. Para falar a verdade, teve enchente sim em tudo quanto é cidade do Estado, e aí foi aquele ritual de entrevista de governador prometendo recursos e de flagelado com cabelo molhado, olhar perdido e voz embargada – Tudo que a gente levou a vida inteira pra conseguir, a chuva destruiu em poucos minutos. E agora, o que vai ser da gente?

 Algumas enchentes foram destaque no Jornal Nacional, tu deves ter visto, e até mereceram ajuda humanitária do País inteiro. Na tal cidade nada! As crianças cresceram e, com o tempo, foram estudar na Capital. No começo era tranqüilo, depois a coisa complicou por causa do trânsito. A solução era mudar para a Capital.

Arquitetada a ideia, iniciou-se o ritual de mudança, aquele tal de encaixota daqui, joga coisa fora dali. Pois bem, com doze anos de atraso a enchente tão esperada veio num fim de tarde, sem avisar, para a despedida. As crianças, bendita seja a inocência, festejavam querendo nadar na enxurrada com os amiguinhos. À noite, na janela, ela acompanhava o movimento das pessoas que passavam relatando o que ouviam: – A água tá quase entrando na casa do fulano. – Beltrano tá com água na cintura. – Sicrano perdeu tudo! – Um homem tá desaparecido no Jardim Shangrilá

Toda cidade que se preza tem um loteamento cheio de gente pobre cujo nome faz referência a um lugar paradisíaco. É igual nome de criança. Foi-se o tempo em que filho de pobre tinha nome simples, fácil de falar e de escrever.  Filho de pobre, hoje, se chama Wóchingthonn, Wéllingthonn, Djennifher, Pâmella e Deividi. Quanto mais éles, ênes e teagás, melhor. Letra i só se o escrivão estiver num péssimo dia, caso contrário, dá-lhe ipisilone! Pode-se ver o orgulho da mãe quando a atendente do posto de saúde lhe pede para soletrar o nome da criança.

Uma mulher entrou em trabalho parto. É só ouvir falar em calamidade que a mulherada desanda a parir filho no meio da rua, dentro de ônibus ou em carro da polícia! Não, não é pra piorar o que já está difícil. Estas mulheres são mensageiras de Deus, a dizer que toda dor passará e que a vida é maior do que tudo.

O dia seguinte amanheceu ensolarado, a água baixou e a narrativa era aquela de sempre: a cidade estava quase destruída e os mais pobres foram os mais atingidos. O tal homem desaparecido foi encontrado ajudando um outro ainda mais desgraçado do que ele; a mulher dera à luz uma menina forte e saudável à qual, como era de se esperar, deram o nome de Vitória.

Caminhando pelas ruas ela ia observando o ruidoso balé de mulheres envolvidas com rodos, baldes e vassouras numa espécie de mercado persa feito de sofás, roupas e colchões que expunham, nas calçadas, a intimidade das famílias tragicamente niveladas pelas águas. Ao chegar em casa seria a sua vez de prender os cabelos, passar um batonzinho, pegar a vassoura e integrar-se à dança. Logo tudo ficaria bem novamente.

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