Primeiro tempo: Manoel de Menezes

O rádio é o único meio de comunicação social que se sustenta não pelo que transmite, mas pelo que cada ouvinte cria com sua própria imaginação. Reportagem em três tempos e quatro movimentos.
Por Antunes Severo 

A radiocomunicação é um fenômeno tão simples que dispensa explicação. É como a vida, um mistério para ser vivido e não um problema a ser resolvido. Foi assim, também, na pacata e serena Florianópolis.

Definida a possibilidade de instalação de um serviço de alto-falantes em Florianópolis, começa a parte operacional: o registro da firma, a licença para funcionar, onde instalar o estúdio, os equipamentos necessários e a localização dos alto-falantes. Definidos os locais onde ficariam as “bocas de jacaré”, restava estender os fios e instalar as “cornetas”. Essa operação ocorreu de forma inusitada. Menezes que andava numa pior conforme relata no livro “Retalhos do Tempo”, descreve como tudo aconteceu: “Passados alguns dias, estava eu subindo numa bruta estacada, junto com meu amigo Hélio Kersten Silva, a fim de colocarmos quatro alto-falantes, nas marquises da Casa Daura, A Capital, Confeitaria Chiquinho e Jardim (Praça XV de Novembro). Isso numa bruta madrugada gelada”. E completa: “Eram os alto falantes do serviço de propaganda Guarujá”. E termina Menezes desabafando: “Deu um trabalho dos diabos: arame e muito prego. Até hoje não entendi porque aquele serviço foi feito de madrugada”.
A data é imprecisa, Menezes fala que era frio e se refere aos meses de junho e julho. Não cita o ano. Já Serrão Vieira, o fundador da empresa diz que o serviço de alto-falantes começou a funcionar no dia 15 de maio de 1943.
Divergências à parte, é bom relembrar a reação das pessoas diante de uma novidade tão estranha ao modus vivendi da pacata Florianópolis dos anos de 1940. Menezes realça os contornos do relato com o brilho de sua imaginação: “Os proprietários eram Ivo Serrão Vieira, seu irmão Ney e mais um “galã de cinema” chamado Gama. Quando aquele negócio começou a funcionar foi um correria infernal. Todo o mundo ia para a praça para ouvir aquela coisa. Os estúdios estavam instados no primeiro andar da Confeitaria Chiquinho. Teve muita gente boa que durante algum tempo andou de pescoço duro de tanto olhar lá para cima”.
A curiosidade não parou por aí. O próprio “footing” da meninada na Praça XV foi alterado. Agora o trajeto incluía necessariamente a primeira quadra da rua Felipe Schmidt para dar uma olhadinha de soslaio para as janelas da sala mágica de onde vinham àquelas vozes e músicas que faziam o frisson da garotada. O próprio Menezes confessa que foi no Gama que ele viu pela primeira vez os óculos Ray Ban.
Manoel de Menezes. Retalhos do tempo. Florianópolis: Edição do Autor, 1977.

Rádio: os que fazem, os que contam e os que acreditam. Intervalo: o tempo do tempo.

A história do rádio em Florianópolis veio com o serviço de alto-falantes Guarujá de Serrão Vieira, no início da década de 1940. O estudo do rádio como meio de comunicação social, entretanto, começa com o curso de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina.

Legenda: Em 1973, foi criado o primeiro grupo de trabalho para a criação do Curso de Jornalismo da UFSC. Participam da mesa (da esquerda para a direita) a professora Aurora Goulart, os jornalistas Antônio Kowalski Sobrinho, Marcílio Medeiros Filho, o professor Murilo Pirajá Martins, os radialistas Osmar Teixeira e Moacir Pereira, além do professor Aníbal Nunes Pires (de costas).

O curso de jornalismo da UFSC iniciou as aulas de março de 1979 e formou a primeira turma em 1982, com 19 dos 40 alunos iniciais. Dos 19 alunos da primeira turma, 17 completaram o curso com apresentação do TCC – Trabalho de Conclusão de curso, conforme registrado no Banco de Dados do site do curso. Ainda segundo essa fonte, até o final de 2003, concluíram o curso com apresentação de TCC, 477 formandos. Desse total, tratam especificamente do rádio somente 26 trabalhos, cerca de 5% do total e que representa menos de um trabalho por turma.

 

Se a quantidade é reduzida, a qualidade, entretanto, é significativa. A começar pela História do Rádio na Voz de seus Atores, de Lúcia Helena Evangelista Vieira, em 1982. Dessa monografia resultou o primeiro livro da História do Rádio em Santa Catarina, em parceria com o também jornalista Ricardo Medeiros, lançado em 1999, pela Insular.

 

Seguiram-se Rádio FM, uma Abordagem Histórica em Florianópolis, de Maria Fernanda Farinha Martins, em 1983. A História das Rádios Piratas no Brasil e no Mundo, de Jorge Luiz Massarolo, em 1984. Noticiários de Rádio AM em Florianópolis, de Carlos Alberto de Souza, também de 1984. Em 1985, foram três trabalhos: Importância de uma Rádio por Alto-falantes na Comunidade de Pântano do Sul, em Florianópolis, de Valentina da Silva Nunes; Manual de Produção e linguagem para a Rádio Universitária, de Cláudia Erthal; e Projeto Memória do Rádio Catarinense, de Cirley Virgínia Ribeiro que propunha a criação do Museu do Rádio ainda hoje sob a responsabilidade do Curso de Jornalismo da UFSC.

 

Sem nenhuma monografia em 1986, a série recomeça em 1987 com Incêndio no Porto: relato da última cobertura de rádio, de Tayana Cardoso de Oliveira; Sintonia Diferente no Rádio Catarinense, de Áureo Mafra de Moraes, Ênio César da Silva e Luciano Gonçalves Bittencourt; e Por uma FM Universidade, de Alcebíades Muniz Neto. Em 1988 nada consta. Nos anos seguintes até 1994, a safra rareou registrando-se apenas Rádio-Educação, de Jane K. Hetzer, em 1989; Resgate da História do Rádio em Santa Catarina, de João Carlos Mendonça Santos, em 1992; e Brasil de Quem Não Desliga… um breve estudo da recepção do programa radiofônico oficial “A Voz do Brasil”, de Joana Guedes Nin Ferreira, de 1994. Seguem-se Revista do Rádio – o seu programa de Variedades, de Ivana Cristina Back; e Terra – uma experiência em radiojornalismo para a comunidade rural dos campos de cima da Serra do RS, de Alexandra Della Giustina Baldisserotto, ambos de 1995. Nos três próximos anos há um único registro: o TCC Sistema Universidade de Rádios, de Alessandra de Mota Mathyas, em 1996.

A produção voltou a normalizar-se em 1999 e foi até 2003 sem falhar. São de 1999: Rádio do Curso de Jornalismo da UFSC na Internet, de Fabiana de Liz e Sabrina Brognoli D’Aquino; Cursos de Radiojornalismo para Rádios Comunitárias no Oeste do Pará, de Ana Cristina de Oliveira e Gisele L. S. de Souza; e Cadeia da Legalidade: a democracia por um fio, de Camila Gouvêa Manfredini. No ano seguinte, Rodrigo Cabral Faraco fecha o século com Eleições 2000 – a cobertura da CBN Diário. Em 2001 foi a vez de Giovana Terezinha da Silva com Programa Opinião – a experiência de produção, reportagem, edição e apresentação de um debate radiofônico ao vivo; e de Olavo Pereira Oliveira com Antenado – programa jornalístico radiofônico para público jovem. O ano de 2002 foi marcado pela grande reportagem A vida de Adolfo Zigelli de Nara Cordeiro e Elissa Bonato. Em 2003 completa-se a lista com Fagulhas Urbanas, grande reportagem de Christina Janiake e Salve, Salve as Rainhas do Rádio, de Stefano Cunha.

Categorias: , Tags: , ,

Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *