Primeiros acordes – 3

Música | Ilha de Meu Som | Comendo milho assado

Márcio Santos

De mochilas nas costas, pegamos um ônibus até Tubarão e, de carona em carona, chegamos à pequena cidade, ficando hospedados na casa do garoto, que nos acomodou num paiol de espigas de milho, cujas cascas (palha) usávamos como travesseiros. Tinha falado a verdade: dispunha de tudo o que uma banda de rock precisava. Ensaiávamos horas e horas e, nas folgas, corríamos até os fundos do sitio, onde passava um rio caudaloso, uma das causas de minha fobia por rios e mares, pois ali quase morri afogado, salvo pelos amigos.

Na noite do baile mensal, daríamos uma canja com o conjunto oficial do pequeno clube social porém, na hora em que nos arrumávamos para ir ao clube, descobrimos que só se adentrava o recinto de terno e gravata, o que naturalmente não tínhamos. Algumas garotas que flertamos nos ofereceram ternos reservas de irmãos e pais, mas minha magreza folgava naquelas roupas. Galego e Beto conseguiram entrar, mas eu fiquei namorando no lado de fora e, quando ouvimos o som que lá rolava, nos flagramos que era puro sertanejo e que não tinha nada a ver com as três musicas que ensaiamos. Galego e Beto saíram de fininho e me avisaram da mancada e ficamos na pracinha namorando enquanto rolava a festa no clube.

O pai do garoto ficou uma fera, pois tinha anunciado que músicos da Capital dariam uma canja, o que era muito esperado pelo povo da cidade, fazendo com que fugíssemos durante a madrugada, antes de terminar o baile e a família voltar para casa.

Nos vimos sob um maravilhoso luar na estrada empoeirada que levava a Tubarão, caminhando sempre e parando vez ou outra em algum sitio para tomarmos água; comíamos milho verde roubado das plantações e cozido pela fogueira que fazíamos com os encartes dos discos que levávamos nas mochilas.

Sem grana para pegar o ônibus para Floripa, fui bater na casa de parentes de minha mãe, caixas-altas da cidade, que levaram um belo susto naquela visita surpresa: um cara que nunca viram antes, com a cara e o corpo cobertos de uma poeira vermelha misturada com suor, mais parecendo um mendigo qualquer. Pagaram as passagens e ligaram para meus pais, que morriam de preocupação com nosso desaparecimento.

A chegada a Floripa foi um misto de medo da bronca que levaríamos e alegria pela primeira tentativa de formar uma banda, mesmo frustrada.

Um ou dois anos depois, desta vez com Beto e Paulo Maurício, tentamos o mesmo em uma aventura para São Paulo, também totalmente frustrada. Mal chegamos, depois de muitas caronas e três dias de viagem, um tio meu estava nos esperando e nos fez retornar no dia seguinte.

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