Procurado pela Interpol!

Pensando que iria matar dois coelhos com uma só cajadada, botei o pé na estrada. Um colega da Alliance Française me deu o nome de uma holandesa e parti para Amsterdam.
Por Aguinaldo José de Souza Filho

Passando por Reims, Bruxelas e Rotterdam, cheguei bem rápido na que considero uma das mais bonitas e acolhedoras cidades da Europa, depois de Praga. A última carona me deixou bem na rua das famosas vitrines das mais antigas profissionais do mundo. O comentário em inglês de uma delas, “mas que pés sujos’, me fez tirar as sandálias e mergulhar os pés naquele canal ainda mais sujo, mas refrescante! Breda, a holandesa que me recomendaram, pediu para eu voltar às 22 horas, quando o café onde trabalhava fechava.

“Você sabe andar de bicicleta?” perguntou ela ao fechar a porta da loja. Para quem cresceu em Joinville, só havia uma resposta. Ela pulou na garupa e partimos em direção a seu habitat, desviando ferozmente das canaletas dos trilhos dos bondes por todo lado.

Breda me ofereceu algo que comer, pôs o pijama,  apontou para o sofá dizendo que tinha aula cedinho, foi dormir. Acordei com ela saindo. “Basta bater a porta ao sair” disse ela, e foi para a escola. Eis uma pequena amostra do lindo povo holandês. No centro estudantíl universitário consegui um trabalho noturno por uma semana numa fábrica de tintas. Por lei havia descanço a cada 45 minutos de trabalho. Os outros empregados, estudantes locais, ao me verem sem nada me ofereciam a metade de seus sanduiches. O coordenador do turno da noite nos levava ao trabalho em sua Kombi VW equipada para camping e à noite me deixava dormir nela. Mais amostras da cordialidade holandesa. A semana passou depressa. Recebi meu salário e fui sentar no ‘Dam Square’, em frente à catedral, correspondente ao Picadilly Circus em Amsterdam. Ali se reuniam os hippies. Para minha surpresa me aparece Montini que ficara em Lisboa mais alguns dias. “A interpol anda te procurando”, disse ele com a maior naturalidade. “A mim? Porquê?”

“Algo a ver com aquela francesinha de Londres.” Fumamos umas e outras e decidi partir para Londres.  Fui de barco de Oostende até Margate, terra da minha futura nora de um filho que mais tarde nasceria em Londres! Fui direto ao endereço que a francesa havia me dado. O porteiro me contou a história. Um soldado americano e ela tomaram LSD no apartamento. Ele, alucinado, pensou que ela era um bicho e a estrangulou. A Interpol encontrara uma carta minha no apartamento dela e passei a ser parte da investigação – até descobrirem o culpado. Até hoje fico pensando que se não tivessem me barrado a entrada no país, ela hoje estaria viva e teria sido a cantora famosa que tanto queria ser. C’est la vie! No dia seguinte já estava dando aulas de português e trabalhando como free-lancer na BBC. Eu narrava tantos programas que fui o único jornalista não contratado que ofereceram o visto de residente permanente na Inglaterra. Ivan Lessa, do tempo do Pasquinho do Rio, costumava me chamar de ‘a voz de ouro da BBC’ o que me deixava todo envaidecido. Eu narrava com ele todos os seus programas. Jader de Oliveira, hoje correspondente da Globo News, era cliente certo. Tinha dois bons empregos, tinha meu espaço, mas faltava alguma coisa. Sem entender bem porque, me vi a bordo de um navio de volta ao Brasil. A surpresa dos amigos no Rio foi tão grande quanto a minha volta.

Mas os quatro meses de volta ao Brasil renderam a participação numa produção do Reginaldo Farias, na frente e atrás da câmera, a criação de uma agência de talentos e modêlos, a paixonite por uma chinesa de Macau e a volta à Europa da forma mais inusitada, como vocês verão na semana que vem.


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