Programas infantis

“O rádio homogeneizado, superficial, medíocre, artificial e de conteúdo de discutível proveito que em grande parte estamos vendo está muito longe de suas raízes e, como tal, vai pagar por isso”.

Mesmo constrangido pela auto-citação, sou forçado a reconhecer que um pouco de ousadia, às vezes, pode ser benéfica e, por isso, me valho do que disse o professor José Predebon ao destacar duas frases do comentário que fiz semana passada quando falei de programas infanto-juvenis. A outra frase é esta: “A alegada decadência do rádio como meio de comunicação social tem em si a sua própria causa e ao mesmo tempo, as suas chances de voltar a brilhar, porque tem potencial pra isso”.

Dito isto, vamos ao texto do mestre Predeba: “Pois eu sugiro a ti que faças um zoom out na análise, e certamente chegarás à conclusão que eu cheguei (ainda que provisória, como toda conclusão sábia) que a decadência não é bem do rádio, mas da cultura em geral, incluindo nisso a educação, que fazia parte do rádio d’antanho.

E vamos então desanimar e chorar? Penso que a recuperação possível está dentro do que cada um de nós pode fazer no âmbito de sua atuação, praticando a arte do possível.

Estaremos talvez (é assim que me sinto) jogando copos de água no incêndio da floresta. Mas, mesmo dentro dessa metáfora, estaremos talvez atrasando a ação do fogo, para que, quando vier a chuva redentora, ainda houver mais floresta não queimada. Virá a chuva?

Se nós continuarmos ativos, tu no portal, eu cá em minhas aulas e palestras, acho que a probabilidade de uma reversão será maior”.

E termina o Predebon, informando que postaria, como postou, essa opinião na caixa de resposta da matéria.

Por que repito? Por estar convencido que há tempo e lugar para que as coisas voltem ao seu tempo e seu lugar. A fase de superficialidade e esvaziamento de conteúdo da programação das emissoras pela qual está passando o rádio no Brasil está muito próxima de chegar ao seu próprio limite.

E mais: o clamor já vai além de meia dúzia de gatos pingados, inicialmente ridicularizados como saudosistas desocupados que por não encontrar o que fazer, se dedicam a encher o saco de “quem está trabalhando e produzindo cultura para o povo brasileiro”, como tive a oportunidade de ouvir.

Felizmente, a repercussão positiva é bem maior do que pode imaginar a parcela dos que transformaram a concessão de um serviço público em máquina de fazer dinheiro a qualquer preço.

É sintomático, por exemplo, o depoimento da leitora Verá Lúcia Correia da Silva quando diz “aqui em Sampa tinha emissoras (eram poucas) que promoviam programas infantis na minha época. Que saudade! Eu adorava ir. Também já começavam os programas de auditório na TV, que também era novidade. Comentei com o Jair (Brito) que tem anunciante que nos liga ou manda e-mail perguntando se conhecemos ou temos informação de alguma emissora nesse Brasil que ainda faça programas voltados para a garotada. Não tenho conhecimento se existe, mas acredito que não mais. Tai um filão que as emissoras deveriam voltar a explorar”.

Sob essa ótica – mercado potencial – é bom lembrar que o Brasil tem na faixa etária de 7 a 14 anos, aproximadamente 15 milhões de habitantes, dos quais 1,4 milhão trabalham. Os dados são do IBGE e estão na Web para quem tenha olhos para ver.
Mas este é apenas um ângulo da questão.

O mais grave e de repercussões irremediáveis é a irresponsabilidade de quem concede os canais, de que quem cabe normatizar e de quem cabe punir os delitos cometidos, a saber: o Executivo (Ministério das Comunicações), Legislativo (Câmara e Senado Federal), e Judiciário (Ministério Público e os tribunais em todas as instâncias).

3 respostas
  1. Vilarino Wolff says:

    Muito bem colocado e necessariamente enfocado. Somos do tempo em que se fazia rádio com dedicação ao conteúdo para levar aos ouvintes algo de proveitoso. Era, até mesmo, um pagamento que se fazia pelo prestígio da audiência. Sim! Porque ficar horas ligado a uma emissora representa investimento de tempo do ouvinte. Ainda faço parte disso. No programa Sábado Mix, que apresento na Rádio Nereu Ramos aos sábados, as 6 às 8h, tenho a sessão intitulada Hora da Saudade. Sua pretensão é passar cultura musical aos ouvintes, enfocando o tempo do Brasil romântico e dos grandes compositores e cantores do gênero. É um espaço muito bem ouvido, segundo retorno dos ouvintes. No mesmo programa tenho “Pensando alto”, espaço que transmite o pensamento dos grandes mestres como resíduo de sabedoria. Transmito, ainda, a cada edição, “A mensagem do dia”, texto de conteúdo filosófico e otimista, procurando repassar ao ouvinte lições que têm contribuido com o desenvolvimento intelectual e espiritual da humanidade desde os seus primórdios. Ainda enfocando a utilidade do rádio, adaptei a história da fundação de Blumenau. Seu objetivo é privilegiar ouvintes de Blumenau com o conhecimento dessa epopéia, ao mesmo tempo que pulveriza dados dessa história para além fronteiras do município, dando a conhecer à vasta região alcançada pelo sinal da emissora como tudo começou aqui. Pode ser utopia, mas tenho sentido seu aproveitamento graças ao retorno dos ouvintes que se preocupam em emitir opinião. Parabéns pelo tema! Estou convicto de que insistir nele é contribuir para que o pensamento humano, a cultura e os valores latentes nas pessoas se deteriorem com mais vagar. Abraço. Vilarino Wolff.

  2. Vera Lúcia Correia da Silva says:

    Caro Antunes,
    como vc vê uma coisa puxa outra!
    Valeu o comentário do colega acima.
    Mas, voltando aos programas infantis em rádio, estou contatando uma pessoa que fez um estudo, uma pesquisa, cujo foco principal é levantar quantas e quais emissoras no Brasil desenvolvem/tem interesse em promover programas voltadas para a criançada. Assim que tiver um retorno te encaminho para discutirmos mais.
    Abraços,
    Vera Lúcia

  3. Flávio Magalhães says:

    Vera, Blogueiro e demais leitores,

    Estava aqui procurando neste gigantesco universo de paginas e links e blogs que é a fantástica internet, procurando notícias de programas de rádio voltados para as crianças. Fiquei muito contente quando me deparei com este artigo, tratando do tema.
    Espero que mesmo sendo um artigo de 2009 o tema ainda interesse a vc e demais leitores e blogueiros.

    A rádio MEC-AM do RJ, mantém uma ótima programação infantil com mais de um programa. São eles:
    A Rádio Maluca:http://radiomec.com.br/radiomaluca/
    Estação Brincadeira: http://radiomec.com.br/estacaobrincadeira/

    Agora em Dezembro de 2012, fui convidado à participar de um dos quadros do programa do Estação Brincadeira, chamado de Ping Pong apresentado por Jujuba e Ana Nogueira, que são músicos e contadores de histórias que se dedicam ao público infantil. E como o programa vai ao ar em fevereiro após o carnaval, estava justamente pesquisando em quais rádios do nosso Brasil ainda é possível encontrar programas infantis para dar continuidade ao trabalho de divulgação do meu mais novo CD, com canções infantis inéditas e de minha autoria.

    Caso tenham notícias de outras rádio com interesse neste trabalho, agradeceria se fosse possível me enviar esta valiosa informação.

    Abs,
    Flávio DAna
    http://www.facebook.com/MentirasContoseLorotas
    https://soundcloud.com/flaviodana/quenemcanguru

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *