Propaganda, algo mais que anúncios

Vivemos atualmente mergulhados num mar de ofertas, propostas, provocações, desafios, demonstrações e testemunhais garantindo que a felicidade existe.

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Sempre foi assim? De certa maneira, sim. E esse assédio vem de longe e com muito gás. Estamos cercados dos pés à cabeça pelos tentáculos dos anúncios que nos chegam escancarados por todas as bandas disfarçados por ingênuos ou espertos efeitos visuais, odoríficos e sonoros.

Quem distribui tudo isso? A mídia. Mídia, para abreviar, é qualquer suporte de difusão de informações (rádio, televisão, imprensa escrita, livro, computador, videocassete, satélite de comunicações etc.) que constitua simultaneamente um meio de expressão e um intermediário capaz de transmitir uma mensagem a um grupo; meios de comunicação, comunicação de massa, como está no Dicionário Online de Português.

Na prática, mídia é muito mais. Você, por exemplo, portador de uma camisa ou camiseta carrega uma etiqueta ou nome fantasia com a identificação do fabricante, você é uma mídia. Isso, assim mesmo, substantivo feminino.

Agora que você está catalogado, podemos voltar um pouco atrás e retomar o fio da meada, a partir da afirmação de que propaganda é mais do que anúncio.

Segundo Emílio Cerri Neto, primeiro publicitário catarinense com carteira assinada, “A propaganda ainda é a melhor coisa que se pode fazer vestido”. Além disso, a propaganda, no seu sentido mais primitivo de persuadir é uma das mais antigas atividades humanas.

Num estudo de Roberto Simões sobre A evolução histórica do marketing – Dos fenícios ao hipermercado – ele menciona que “a troca foi, sem dúvida, o primeiro ato de mercar. Ela se confunde com a própria história do mundo e do comércio” e acrescenta Simões: “O primeiro anúncio de que se tem notícia foi estampado num papiro, em Tebas e data de cerca de três mil anos. Está tombado no Museu de Londres”.

O texto dizia: “O escravo Shen fugiu de seu amo, Hapu, o tecelão. Todos os bons cidadãos de Tebas estão convidados a ajudar em seu retorno. Ele é hitita, tem 1,60 m de altura, de constituição forte avermelhado e de olhos castanhos. Oferece-se a metade de uma moeda de ouro por notícias de seu paradeiro. E pelo seu retorno à loja Hapu, o tecelão, onde a melhor roupa é tecida conforme você deseja, uma moeda inteira de ouro é oferecida”.

Se assim era a mil anos antes de Cristo, nada há a reparar nas artimanhas que preenchem os jornais, sufocam a programação de tevê e anarquizam com o prazer de se ouvir boa música e notícias pelo rádio.

A propaganda é um mal? Ops! Nada disso. O que estraga a propaganda são os exageros e as impropriedades que vêm sorrateiramente nas entranhas dela.

No Brasil, a propaganda demorou, mas chegou. Com a palavra o publicitário e escritor Ricardo Ramos no artigo 1500-1930 – Vídeo-clipe das nossas raízes: “Deixando de lado Pero Vaz de Caminha, na sua carta promocional, encantatória, mas sem apóstolos que a continuassem, a propaganda brasileira foi, por mais de três séculos após o nosso discutido descobrimento, quase que exclusivamente oral”.

Passada essa fase de arautos, ambulantes, profissionais de governo e os do mercado chegamos na época do “quem quer comprar”, do “quem vai querer”, “que naturalmente se incorporaram à nossa publicidade”, assinala Ramos para chegar à próxima etapa: “Então, em 1808, surgiu o nosso primeiro jornal, e nele, a Gazeta do Rio de Janeiro, o nosso primeiro anúncio”.

Os pré-publicitários brasileiros

Se não os pré-publicitários, pelo menos, os primeiros redatores, criadores e ilustradores de anúncios. Ainda como disse Ricardo Ramos, os poetas foram os nossos primeiros free-lancers de redação.

“Casemiro de Abreu, por volta de 1850, é o precursor do versejado texto publicitário. A ele se seguiram Emílio de Menezes, Bastos Tigre, Hermes Fontes, Guimarães Passos, Basílio Viana, Lopes Trovão. E finalmente, Olavo Bilac, o mais ativo de todos” e acrescenta o autor: “Enfim, eles dessacralizaram o produto. Inteligentes, descontraídos, de certo modo anteciparam o ângulo do consumidor. Casimiro de Abreu fez graça, Lopes Trovão fez paródia, Olavo Bilac fez sátira e conclui Ricardo Ramos: “Batendo na tecla alegre, divertida, lançaram a semente do que talvez mais distinga a propaganda brasileira: o seu tom irreverente”.

Por isso, caro leitor: propaganda, é algo mais que anúncios; é uma maneira de ver e viver a vida.

Ilustração: Algumas das muitas marcas e logotipos criados na década de 1970 por George Peixoto, o Picolé e Luciano Corbeta para clientes da A.S. Propague, uma das agências pioneiras do Estado.

 

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Este artigo faz parte da série Apontamentos para a História da Propaganda em SC

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  1. […] Nesta viagem que começou na segunda-feira, 4/8, com a história do primeiro anúncio estampado num papiro em Tebas, há 3000 anos, nós paramos nos poetas dos anos 1800, nossos pré-publicitarios. […]

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