Propaganda, carnaval e samba no pé

A simbiose do samba no pé com o carnaval é uma consequência natural, espontânea.

carnavalfloripaMas, o que teria a nobre arte da persuasão, a propaganda, com um evento promovido por pessoas de tão parcas economias, que se abriga em moradas tão desprotegidas como os morros periféricos da cidade Florianópolis? Se a pergunta, nos dias atuais, tem fácil resposta, no início da década de 1960 a coisa era bem diferente.

A classe média e as elites pouco ou nada se envolviam com os “folguedos de Momo”. Divertiam-se brincando nos seus clubes fechados e somente alguns, mais extrovertidos e afoitos se arriscavam, fantasiados, a encarar um bloco de sujos e dar uma volta na Praça, não mais do que isso.

As distâncias entre as classes sócio-econômicas eram mais claras, naqueles tempos, principalmente quando se olhava pelo lado das castas. “Filha minha não se mistura nessas festas desavergonhadas que estão se vendo nas ruas”, era a frase típica do pai de família das classes mais abonadas.

Mas, como já disse, estávamos no começo da década das grandes transformações, umas para o bem, outras nem tanto. Os anos de 1960 refletiam na transpiração de seu povo a ânsia de arejamento, de mudança que o estado democrático, vigente desde 1945, prometia, mas que na prática, tardava.

A bela e recatada Capital catarinense, mais olhava e julgava do que ousava no campo das inovações. Sua comunicação social – sua mídia – em grande parte, era lerda e pachorrenta, adjetivada e conservadora, controlada pelos comandos políticos que se perpetuavam no poder e no comando dos principais órgãos da imprensa escrita.

Já no rádio, embora as principais emissoras obedecessem ao comando dos mesmos líderes políticos e empresariais, havia dissidências nascidas no final dos anos de 1950 com a instalação de duas pequenas emissoras de rádio: Anita Garibaldi, do médico JJ Barreto e a Jornal A Verdade, do jornalista Manoel de Menezes.

Nesse quadro, porém, surge um fato que de certa forma, desestabilizou o controle da hegemonia política. O curioso é que veio do meio político na pessoa do governador Jorge Lacerda, eleito em 1955, com o apoio da UDN – União Democrática Nacional então capitaneada pelo banqueiro Irineu Bornhausen, dono da concessão da Rádio Diário da Manhã inaugurada em janeiro de 1955.

Jorge Lacerda – jornalista, poeta e escritor – ao assumir o governo cria uma assessoria de comunicação cujo comando foi entregue a dois jovens radialistas de Joaçaba que comandavam a emissora e o jornal locais: os irmão Walter e Adolfo Zigelli. Os dois, com o apoio do governador e a sabedoria de Francisco Mascarenhas – diretor da Rádio Diário da Manhã – mudariam os rumos da comunicação catarinense fazendo trabalho profissional que levou a emissora da posição de porta voz de partido político a condição de maior credibilidade que o radiojornalismo catarinense teve.

Muito bem, você deve estar pensando: mas, onde estão a propaganda, o carnaval e o samba no pé? Posagora. É que eu participei dessa virada. Vim para Florianópolis em 1956 para trabalhar na Rádio Diário da Manhã, me integrei à equipe de radiojornalismo e participei ativamente das transmissões de carnaval a partir de 1957.

O carnaval virou paixão para nós, jovens mancebos vindos de interioranas cidades e não acostumados ao espetáculo maior da folia representado pela juventude, beleza e harmonia das passistas que ao som do samba pareciam flutuar no ar.

Foi nesse clima que me ocorreu a idéia de colocar em maior evidência o exuberante espetáculo proporcionado por aquelas jovens que mais pareciam libélulas suspensas pelo forte compasso da bateria da escola.

O carnaval de 1963 foi cedo, em fevereiro. E nesse mês Rozendo Lima e eu acabáramos de criar e registrar a agência de propaganda A S Propague e para marcar o evento, fomos às emissoras que transmitiam os desfiles carnavalescos e lançamos a idéia de escolhermos entre as passistas a garota que seria a Cidadã Samba daquele ano.

Os colegas de rádio que trabalhavam na transmissão pelo rádio e na cobertura para a mídia impressa é que deveriam escolher a vencedora. A nós da agência cabia premiar a escolhida. Critério de seleção? Beleza, simpatia, extroversão, espírito carnavalesco e muito samba no pé.

E assim foi feito. A iniciativa recebeu o reconhecimento das escolas, dos colegas de comunicação e das sambistas que se viram valorizadas em suas performances. O título foi incorporado à programação oficial da Prefeitura Municipal de Florianópolis que posteriormente ampliou a homenagem também ao Cidadão Samba como acontece até o presente. Estava feita a conexão entre carnaval, propaganda e integração social, política e cultural. Tudo no ritmo de muito samba no pé.

Este artigo faz parte da série Apontamentos para a História da Propaganda em SC.

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