Próximo e inalcançável

Não há dúvida de que parece um paradoxo, mas pode não ser. Algo ou alguém; bastaria esticar o braço ou talvez dizer algo. A mão ou as pontas dos dedos poderiam tocar; a voz chegaria aos ouvidos, à mente ou ao coração. O que falta: prudência, medo, coragem, bom senso?

Há coisas na vida, sejam sonhos ou desejos, puros e limpos, ou mesmo insanos a ponto de causar vergonha só em pensar, mas somos humanos; não fugimos de tudo. Podemos evitar esticar o braço ou pronunciar as palavras, mas a vontade está ali, e nós sabemos muito bem. A dúvida não pertence só aos indecisos, creio que pertence ao bom senso, a arte de pensar antes de falar e de agir. Afinal de contas, que dúvida há de que se tivéssemos feito ou falado algo nossa vida poderia ter sido diferente? E esse diferente poderia significar a glória ou a vergonha, a felicidade ou a frustração; como saber? Um pedido de namoro ou de casamento. O pedido do fim de um namoro ou um – não antes de casar-se. Como seria se eu tivesse aceitado ou recusado àquela oferta de trabalho, àquela casa ou viagem?

O fato é que o tal do: se; se eu tivesse feito assim ou assado, falado isso ou aquilo, pode nos deixar pensativos, admitindo isso ou não. Ou pode nos fazer pensar: “O que fiz ou decide já está feito”. Admiro quem pensa assim. Não os que dizem da boca pra fora, mas dos que levam a vida em frente sem ficar preso ao “retrovisor” que trás o peso em nossas costas; pior, em nossa mente e coração. E isso não vale para erros onde magoamos, ferimos ou até destruímos a vida de alguém; dar de ombros às mágoas causadas parece coisa de gente egoísta, prepotente. Refiro-me àquelas coisas que doeram mais em nós mesmos; as que carregamos imagens na mente e no coração. Ainda assim é possível que nossas escolhas e decisões possam ter ferido a outros.

O que está mais perto de nós, a felicidade ou a infelicidade? Sonhos a serem alcançados ou derrotas sem lutas? Baixar a cabeça prestando honra ao fracasso ou erguer a cabeça, respirar fundo e seguir em frente? Pedir perdão ou suportar a dor calado? Dizer: eu te amo ou furtar essas palavras de quem deveria ouvi-las?

Quase tudo parece estar ao nosso alcance, parece tão perto que é possível sentir o cheiro, a respiração, a voz, as cores, mas não esticamos o braço, quero dizer: Não abrimos a boca para dizer o que deveríamos o quanto a abrimos para dizer o que não deveria ser dito. Não abrimos os braços enquanto há tempo.

Alguém fisicamente próximo pode estar emocionalmente lá do outro lado do planeta. Feridas; feridas por palavras, gestos ou ausência, mas elas continuam por perto, pessoas, coisas, vida. Parecem inalcançáveis e continuarão a menos que estendamos o braço.

Quanto custa tudo isso? Só isso!

 

 

 

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