Publicitário precisa estudar marketing?

A pergunta pode surpreender ou até incomodar, mas não dá pra negar: conhecer marketing é necessário e cada vez mais importante num mercado em crescente complexidade.

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Na sofreguidão dos dias atuais em que a intranquilidade, a insegurança e velocidade estonteante com que os acontecimentos estão caindo sobre nossas cabeças, estamos perdendo o contato com os tradicionais sinalizadores que nortearam a vida dos mais antigos. É certo que a vida nunca foi um mar de rosas em tempo algum. Atualmente as mudanças estão sufocando os mais lentos e os menos preparados. E no campo da comunicação social, então, nem se fala.

Como o objetivo destas memórias não é aterrorizar ninguém, vamos continuar entremeando lembranças com os registros publicados no livro do 25 anos da Propague.

Que tal passarmos um rápido olhar pelo mundo divertido e criativo das agências de propaganda que se engalanaram com a chegada das multinacionais ao Brasil no início dos anos 1900. Parece um tempo muito distante, não? Mas, não é.

“Revistas de maior circulação geram uma organização insipiente da propaganda, protagonizada pelo agenciador de anúncios. O Brasil ganha a sua primeira firma publicitária – que logo evolui para agência – entre 1913 e 1914, quando a ECLÉTICA de Castaldi e Bennaton, se instala em São Paulo. O ramo floresce. O mundo vive as dores da Primeira Grande Guerra. As grandes marcas estrangeiras – Nestlé, Colgate, Parker – invadem o país. Bebidas e cigarros penetram a população pelas janelas do prazer e do vício.” Bebidas e cigarros penetram a população pelas janelas do prazer e do vício.

E o que dizer da “Era da Geração Perdida” como ficaram conhecidos os anos da segunda década do século passado? A coisa ficou tão feia que lá por 1920 a quebradeira no mundo da economia se agravou de tal maneira que acabou explodindo na terrível Segunda Guerra Mundial em 1939.

A guerra acabou, a vida segue e o mundo divertido e criativo das agências amplia e estimula as relações de produção, distribuição e consumo de bens e serviços.

Isso, para nós empresários, profissionais e clientes representou sério desafio. Por um lado, os negócios ganhavam tamanho, valor e importância e pelo outro esbarrávamos nos limites de nossa criatividade, capacidade de inovação, coragem de ousar e botar a cara para bater.

Mas, continuando, porque a vida não pára, voltemos ao texto do Martina e da Raquel.

“É o início de uma outra guerra: quem vende mais? No fim da década já funcionam cinco agências no eixo Rio/São Paulo. A Bayer lança um volumoso pacote publicitário. Tudo indica que o laboratório alemão tenha criado a primeira House-Agency no Brasil”.

“Anos 20:  a euforia, a geração perdida”, o charleston, as melindrosas. Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald. A indústria farmacêutica faz da doença moda e fatura o que quer.  A figura da mulher incorporando o estereótipo da fragilidade física, sempre suscetível às doenças, é largamente explorada.  Associando magreza a doença e gordura a saúde, o Biotônico Fontoura lança o famoso almanaque do “Jeca Tatu”, criado por Monteiro Lobato, e torna-se hospede dos lares brasileiros.”

A história do Jeca Tatu é tão fantástica que merece um capítulo à parte. Muita gente já escreveu sobre ela, mas ainda há muita coisa a ser contada. Um dia, se você quiser conversar sobre isso, é só chegar. Vale a pena dar uma olhada nessa história pelo outro lado: pelo lado da comunicação.

As estropolias do mundo continuam seu desvairado processo de deterioração da vida no planeta. “A crise de 29 ameaça paralisar os negócios. Mas logo no início da década de 1930 a indústria brasileira começa a se afirmar, o que resulta em crescimento da propaganda. A instalação das agências estrangeiras J. W. Thompson e McCann Erickson consegue mudar a imagem, até então um pouco negativa, da atividade publicitária. Anunciar não é mais para quem tem artigos encalhados nas prateleiras. E o ramo avança para a profissionalização”.

Independente da idiossincrasia dos mandantes de plantão o mundo continua o seu caminho. Inexorável. Amanhã o sol vai nascer, pela manhã, quer você e eu queiramos ou não. Foi assim. É assim. Será assim. Que tal nós nos acostumarmos com a idéia ao invés de brigar com ela?

Porque estudar marketing

Finalizo com o que disse, no final dos anos 1990 como coordenador do curso de pós graduação em marketing da ESAG/UDESC: Os acontecimentos continuam mudando. E agora com a grande diferença de que o tamanho do intervalo entre o fato e a sua compreensão é incomensuravelmente maior.

Os avanços tecnológicos estão cada vez mais rápidos e complexos e a compreensão por parte do ser humano não está acompanhando essa mudança com a mesma velocidade. Estamos criando uma distância fantástica entre a capacidade de produção e a possibilidade de absorção dos efeitos dessas novidades. Nossas estruturas comportamentais e a realidade como a sociedade está organizada, parecem estar de costas para os novos desafios e suas soluções. Continuamos, em grande parte, defendendo soluções que não mais condizem com os fatos do presente. Ainda encontramos quem continue lutando pelo retorno à soluções antigas só por que um dia elas deram certo. Sim, deram certo naquelas circunstâncias. Mas, hoje a realidade é outra.

Queremos, com o máximo vigor, desaprender todo o nosso conhecimento do modelo newtoniano mecanicista da economia. Queremos viver, com toda a intensidade os valores dos paradigmas da concepção holística do ser, da participação democratizada dos recursos, da busca da racionalidade somada à intuição; enfim, tendo a humanidade como parceira da natureza e não como destruidora dela, com até agora.

E para isto, precisamos do marketing. Marketing consciente. Que tenha princípios. Que seja orientado para o ser humano. Marketing de inovação. Marketing com sentido de missão. Marketing social.

E finalizava: “Por isto, estamos buscando pessoas identificadas com o perfil desse profissional: alguém saudável, que inspire confiança, que seja diligente, que haja com sinceridade e que pratique a sabedoria”.

Até a próxima semana.

Este artigo faz parte da série Apontamentos para a História da Propaganda em SC.

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