Pulos de gato

A senhora gorda raspa os três bilhetes, faz uma cara de desencanto, diacho, não tem sorte mesmo, o cego então dá o palpite: que ela compre mais três e os leve para raspar em casa, tem o pressentimento de que, raspando mais três em casa, ela ganha.
Por Flávio José Cardozo

É um palpite que lhe veio agora, sabe lá se… Ela pondera, sabe Deus se um ceguinho desses às vezes não vê coisas que a gente nem imagina – e compra os bilhetes e vai embora, com renovada ânsia.
Boa técnica a que o cego inventou para aumentar as vendas, o pessoal não resiste mesmo a uma certa mística. Em seu banquinho estabelecido rente à parede de uma loja, ele está contente. A tarde esquentou, o bom seria arrumar um lugar mais fresco, mas ali naquele ponto é que dá freguês. Seus óculos escuros e sua postura desamparada atraem os esperançosos. Esta cidade é ótima para trabalhar, que beleza não há de ser quando chegar o verão, a turistada?
Dois sujeitos estão ali por perto, quem serão?
– Vamos lá! – diz o mais velho.
– Está bem, vamos – concorda o mais moço.
A idéia do roubo das raspadinhas veio por acaso. Os dois iam indo, na maior dureza, quando o mais velho, vendo o cego com a caixeta de raspadinhas no chão, teve o estalo. Sim, que dinheirão não podia estar dentro dela! Meter a unha num monte de raspadinhas, pensaste? Ao mais moço, de início, a proposta soou repugnante: sempre ouviu dizer que roubar de cego é o cúmulo da covardia. Mas o parceiro argumentou, argumentou, neste país se rouba de todo jeito, o que fazem os grandões senão roubar das  crianças, das velhinhas e dos cegos quando garfam o dinheiro público, então por que vamos ter esse sentimentalismo? Está certo, está certo, seria uma tolice.
Ficaram tempo observando o cego e seu negócio. O plano que bolaram é simples: numa hora de menos movimento, um deles passa, ao acaso esbarra na caixa do dinheiro e das raspadinhas, continua andando, e a caixa espirra para um canto, junto àquele cesto de lixo, onde já se encontra o outro malandro. Enquanto o cego vai procurar com as mãos aflitas onde foi parar a caixa que o descuidado transeunte sem querer chutou, tudo estará sendo consumado. Depois os dois se encontram em algum lugar discreto da Praça Quinze e vão ver o que a sorte lhes trouxe.
O cego fareja a tarde e promete aos seus fregueses que “não tem erro: raspou, achou, ganhou, é só buscar o dinheiro na Caixa Econômica, minha gente!”. O assaltante mais velho está por perto do cesto de lixo, o mais moço vai caminhando – e é agora. Com sangue frio e perfeita pontaria, chuta a caixa e segue à frente, nem quer ver o que fica acontecendo. E o que fica acontecendo é que o cego, mal dado o chute, pára a cantilena, vira a cabeça no rumo da caixa, e voa atrás dela. Sim, é fantástico: voa atrás dela, felino, supersensitivo, e abraça-a… junto com uma perna. Claro, a exata perna do meliante, que em vão tenta escapulir. É um cego forte, tem dois braços que são duas cadeias.
Dá-se o rolo. Chega gente, todos elogiam a instantânea reação do ceguinho, comentam a sabedoria da natureza, que compensa esses infelizes com o refinamento dos demais sentidos. Chega a polícia. O ladrão confessa suas turvas intenções, denuncia o paradeiro do comparsa, vão todos para a Praça Quinze.
O cego fica arrumando suas raspadinhas, verifica que não falta nenhuma. Pensa na malandragem do nosso tempo: os filhos da mãe hoje em dia andam roubando até de cego. Vão trabalhar como eu, canalhas, venham agüentar o calor neste banquinho. Idiotas, por esta vocês não esperavam. (Por esta não esperavam, e os idiotas nem sabem de nada, repete para si mesmo, entre parênteses, risonho, olhando discretamente o relógio e vendo que é hora de ir até o bar ali perto comer uns pastéis.)
(Do livro Coisas do azul, a publicar)


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Por Flávio José Cardozo

Jornalista e escritor, nasceu em Lauro Müller no Sul de Santa Catarina e reside em Florianópolis. Integra a Academia Catarinense de Letras desde 1985. Autor de uma dúzia de livros mantém intensa atividade junto às escolas em decorrência da adoção e estudo de seus livros. Trabalhos seus têm sido adaptados para o teatro e o cinema.
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