Quando a eternidade alcançou o Flávio

O tempo, este insaciável, levou, nesta terça, dia 5 de abril, o jornalista Flávio Alcaraz Gomes. E fez com que a comunicação ficasse, no mínimo, menos inteligente. Figura curiosa, o Flávio, profissional que definiu as duas mais importantes emissoras de radiojornalismo do Rio Grande do Sul – Guaíba e Gaúcha – e que, no seu dia-a-dia, exercia uma arte rara: identificava potencialidades, dava espaços e apontava caminhos. Era dos que nunca pensam em impedir alguém de crescer para, com este artifício, garantir sua primazia sobre os demais. 

A sua grandeza transcendia as mesquinharias da vida. Do balanço de quase 84 anos que completaria no dia 25 de maio, sai como credor de todos. Nestas oito décadas, durante as quais o tempo o perseguiu até que a eternidade o alcançasse, o Flávio protagonizou feitos únicos. Em torno do globo, fora a Lua, havia apenas os Sputniks e a dificuldade de transmitir de um continente a outro era enorme.

O Flávio, fuçando daqui e dali, fez a Guaíba trazer da Suécia a Copa do Mundo de Futebol de 1958. Numa inovação, o estádio falava com o estúdio e vice-versa em um tempo quando o usual era uma narração às cegas sem saber se o sinal chegava ao ouvinte. Depois, em uma esperteza, inventou o off tube. Sem posição no estádio, arrumou um estudiozinho da BBC e, dali, vendo o jogo em um televisor, a Guaíba irradiou a Copa da Inglaterra, em 1966. E, é claro, falou do Vietnã, do Egito, de Israel, da China…
Nesta última, recém-saída do isolamento, foi o primeiro jornalista brasileiro a falar ao vivo de lá. O Flávio, que acordava sempre cedo em função da rádio, do jornal, da TV; o Flávio, que ficava nervoso, em feriados e finais de semana, por estar longe do microfone ou da máquina de escrever; o Flávio, quis o destino, adormeceu nesta terça pela manhã. Agora, ganha o éter como as ondas eletromagnéticas suas companheiras de tantos anos. E irradia lembranças, deixando saudades em todos nós que tivemos o privilégio de conhecê-lo.

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