Quando a morte estende a mão

Todas as vezes que eu uso meu computador a morte me estende a mão!

Quando eu digo isso, as pessoas se assustam ou pensam que eu estou inventando, mas, é a pura realidade!
Às vezes, ela estende a mão esquerda, outras a direita, mas, invariavelmente elas pousam sobre a torre de meu computador.

Será que isso é um aviso do “além” para que eu use menos essa máquina diabólica, que prejudica os olhos, de tanto ler, e a musculatura dos dedos, com a tal LER (lesão por esforço repetitivo)?

Será que é um sinal de alerta para que eu curta um pouco mais a vida, abandone o sedentarismo e ponha o meu esqueleto para andar e praticar algum esporte? Afinal, diz o ditado latino: “Mens sana in corpore sano”!

Pensando bem, seria bom, mesmo, pois, a seguir com meu ritmo atual, é bem provável que um dia um amigo me convide para jogar tênis e eu acabe descalço e sem o amigo!

Bem, creio que não é para tanto, apesar de minhas origens “ibéricas”…

Ou será que eu devo encarar esse pretenso “aviso” como uma forma de provar o poder do livre-arbítrio e a importância do ser humano não se submeter a superstições ou medos, que tanto tolhem o discernimento?

Aliás, como dizem por aí: “a única certeza da vida é a morte”.

Portanto, não devemos viver em função só dela.

Assim sendo, em lugar de temê-la, eu deveria, consciente dela, amar cada vez mais a vida e tudo o que ela me dá: mulher, filho, amigos e a oportunidade de aprender e transformar.

Todo esse “racionalismo romântico”, no entanto, não elimina o fato de que toda a vez que eu uso meu computador a morte estende a mão em minha direção e a pousa sobre a torre da CPU.

Será que essa torre cibernética é uma alegoria sobre Montaigne, que do alto da sua, de pedra, escrevia o que pensava sobre a natureza humana?

Longe de mim fazer uma comparação leviana com o sábio francês. Ainda mais porque, hoje, eu sou apenas um dos milhões que armazenam suas dúvidas e ideias nos HD ocultos nas torres de computadores.

Mas, será que algum desses usuários vive uma situação metafísico-existencial semelhante à minha?

Quando eu contei o mórbido fato à minha esposa, ela duvidou: disse que eu estava sendo dramático, num momento; quase riu de mim, no seguinte; até que, um dia, também presenciou a cena e sentiu-se culpada. Aliás, no mesmo momento em que escrevo esse texto a morte está lá, esquelética, com a mão esquerda ossuda repetindo o mesmo gesto.
Impressionante, não? Quase tenebroso!

No entanto, meu ceticismo de homem das ciências sabe que tudo isso pode ser resolvido sem apoio transcendental:
Basta “exumar” o esqueleto de papel articulado, que meu filho fez na escola e minha mulher pregou pela cabeça (à moda de “A Volta dos Mortos Vivos”) no quadro de cortiça que fica ao lado do computador.

Se eu colocar o “falecido” (metáfora do desmatamento) em outra posição, no mesmo quadro, ou, ainda, se eu afastar um pouquinho mais a torre da parede onde ele fica, sua mão não enganchará mais na capa protetora da CPU, quando eu a removo e, assim, não pousará mais sobre ela, quando solta.

Acho que a última opção é mais segura; afinal, vá lá que eu tire o alfinete da testa do esqueleto e ele volte à vida!
Pensando bem, acho que vou deixar tudo como está. Afinal, a cena já se tornou tão familiar e inspiradora (ou a preguiça é tanta…), que pretendo continuar a aproveitar essa “metáfora” para filosofar positivamente sobre a vida e a morte.
De vez em quando é bom!

Olha só: a esquelética mão acabou de fazer um sinal de “ok” para mim!

Ela não é de morte?

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