Quebra no ritmo: sem Miltinho, Brasil fica órfão de um grande mestre

O Brasil perdeu esta semana um de seus cantores de voz e divisão rítmica mais originais: Milton Santos de Almeida, o Miltinho, aos 86.

[ Por Rodrigo Faour, Folha Press/ND, 10/09/2014 ]

Gustavo Neves Filho (E), Adolfo Zigelli, Claudino Silva, Lauro Soncine, Iran Manfredo Nunes, Miltinho, Antunes Severo, Rozendo Vasconcelos Lima, Cláudio Alvim Barbosa (Zininho) e Waldir Brazil. Foto de 1957; Acervo Caros Ouvintes.

Gustavo Neves Filho (E), Adolfo Zigelli, Claudino Silva, Lauro Soncine, Iran Manfredo Nunes, Miltinho, Antunes Severo, Rozendo Vasconcelos Lima, Cláudio Alvim Barbosa (Zininho) e Waldir Brazil. Foto de 1957; Acervo Caros Ouvintes.

Ele morreu domingo no Hospital do Amparo, zona norte do Rio de Janeiro, onde estava internado desde o final de julho em função de problemas respiratórios, e onde acabou tendo uma parada cardiorespiratória. Miltinho dizia sempre que aprendeu a ter tanto ritmo assim “com Deus”. Não teve professores. Desde menino tinha fixação em pandeiro e admirava Silvio Caldas e Frank Sinatra.

De uma família de classe média carioca, Miltinho, ainda na adolescência, formou o conjunto vocal amador Cancioneiros do Ar. Passou depois ao Namorados da Lua, Anjos do Inferno (com o qual atuou por cinco anos no México) e Quatro Azes e um Coringa. A seguir foi crooner de orquestras em boates chiques de Copacabana, obtendo destaque no Milionários do Ritmo, de Djalma Ferreira, que abriu a boate Drink.

Com o conjunto, lançou LPs de sucesso, nos quais o fox “Devaneio” e os samabalaços “Lamento, “Recado” e “Chega de Saudade” tornaram célebre a voz de Miltinho.

Em 1960, o seu primeiro LP solo, “Um Novo Astro”, estourou o sucesso “Mulher de 30” que o levou a ser conhecido por todo o país (ouça no vídeo abaixo).

Na primeira metade dos anos 1960, vivendo o auge de sua carreira, Miltinho colecionou sucessos em ritmo de samba-canção (Poema do Adeus, Poema das Mãos, Meu Nome é Ninguém), sambalaço (Palhaçada, Só Vou de Mulher) e até boleros, como “Lembranças” – que, segundo ele, permaneceu 28 semanas nas paradas de sucesso na Venezuela, levando o cantor a viajar muito àquele país e gravou por lá.

A tão cultuada divisão rítmica de Miltinho não é famosa até hoje à toa. “Sou ritmista. A única particularidade é que canto dois tempos atrasado, a harmonia vai na frente. Você fica com dois tempos para errar. As pessoas não sabem que dois tempos em música é troço que não acaba mais, dá pra escrever uma carta pra casa”, disse, certa vez, com sua ironia habitual.

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