Quem dera…

Quantas vezes já ficamos chocados ao ouvir alguém nos apontar uma falha sobre algo que jamais havíamos notado; uma falha em nosso comportamento, na maneira de falar ou sobre hábitos que incomodam outros?

 

Se isso nunca lhe ocorreu há pelo menos duas possibilidades: Ou não tem falhas ou hábitos indesejáveis, ou não se deparou com alguém sincero e corajoso o suficiente. A primeira possibilidade é quase impossível. Se duvida, talvez seja teimoso.

Hábito é a tendência de repetir algo com frequência, mania. Somos conduzidos por nossas tendências, costumes, dificuldades e seguimos em frente. Lembrei de um amigo e de uma situação que poderia ser constrangedora, mas que no dia em que aconteceu nos deu motivos de boas risadas; nada politicamente correto. Meu amigo era estrábico, provavelmente nasceu assim. Quando estava com uns 25 anos de idade e num trabalho de que gostava muito resolveu fazer uma cirurgia reparadora. Em nosso primeiro encontro após o procedimento fui surpreendido por uma pergunta dele. Na presença de outras pessoas meu amigo perguntou sem nenhum constrangimento: “Quando tu dirige e precisa olhar nos retrovisores tu vira a cabeça, para esquerda e para cima?”. Respondi que achava que sim, mas era tão… enfim, tão habitual, olhar com um rápido movimento dos olhos, simplesmente isso. Meu amigo disse que agora, após ter corrigido seu estrabismo, parecia mais complicado dirigir, o olhar nos retrovisores. Antes parecia mais fácil, dizia ele. O hábito. Por isso rimos de maneira natural. Ele estava um tanto assustado, nunca antes tinha enxergado assim, dizia ele.

“Quem dera que se por algum poder o dom fosse nos dado de olhar para nós mesmos assim como somos olhados de quantos erros seríamos poupados”. De um poeta escocês. Li numa edição da revista A Sentinela há muitos anos. E dá o que pensar. Meu amigo que era estrábico passou a ver a vida com outros olhos, fisicamente falando. A frase do poeta me fez pensar, imaginar: Como sou visto pelos outros? Será que a visão que tenho a meu respeito é a mesma que os outros, sejam poucos ou a maioria? Parece com a situação de quando assistimos um jogo, seja alguém jogando dominó, baralho ou futebol, ou mesmo quando assistimos a um filme temos uma visão diferente. Torcemos, falamos alto ou em pensamento: Por que ele não fez isso, por que não faz aquilo? A nossa visão é uma, a do outro é dele, só dele.

Há um ditado do qual discordo, aliás, discordo de vários, mas hoje, cito esse:” Se conselho fosse bom ninguém dava, vendia”. Não me parece razoável. Quem dá um bom conselho é porque tem boas intenções, preocupa-se com o outro e tem coragem. Quem escuta e acata um bom conselho não o paga porque com certeza não há preço; se houvesse, com dinheiro não daria para pagar.

Prefiro lembrar a frase do poeta: “Quem dera…” Ah, se fosse nos dada essa benção. Ela poderia nos deixar envergonhados, saber como somos olhados, vistos, percebidos por outras pessoas. Poderia também nos fazer evitar tantos erros, constrangimentos e dores. Isso me fez pensar: O dom de ver em nós o que não vemos está em outros. O dom que outros não têm em ver a si mesmo está em nós. Eis outro dom. O de honrar a outros mostrando suas virtudes e falhas. O de ser abençoados com amigos que nos honram com verdades a nosso respeito. De quantos erros poderemos ser poupados. Isso exige outras duas belas qualidades de ambas as partes: Humildade e modéstia. Ah, quem dera…

2 respostas
  1. Hilário S.Silva says:

    Beleza…foi bom ouvir o Mário Motta, citando essa crônica hoje, na CBN Diário. Abcssssss…

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