Rádio

“Um a um os gigantes de mídia dos Estados Unidos estão começando a vacilar. Os jornais sofrem uma hemorragia de leitores. As redes estão girando em torno da TV a cabo. Os noticiosos em rede estão cambaleando para a extinção à medida que seus âncoras se aposentam ou ficam desacreditados. Instituições como The New York Times são prejudicadas por escândalos. Os semanários noticiosos provavelmente também vão sair mais com matérias de capa sobre saúde ou dinheiro do que sobre notícias quentes do momento.”
Andrew Sullivan – O Estado de S. Paulo / The Sunday Times, 8/05/05

Agora é o último meio de comunicação poderoso e gratuito que sobrou na América que também está acuado. Estou me referindo ao rádio. Num país onde milhões gastam horas incontáveis em carros ou caminhões, o rádio sempre foi poderoso. Ele potencializou a vibrante indústria fonográfica americana; ele ajudou a firmar a política conservadora das duas últimas décadas; o rádio publicamente financiado é muito caro aos liberais democratas, que confiam nele tanto quanto a Radio 4 é prezada pela classe média inglesa.

Mas assim como os blogs e as redes de notícias por cabo dizimaram jornais e redes abertas de televisão, agora é o rádio que se encontra nas garras da próxima, grande, descentralizadora revolução da transmissão dirigida.

O motivo? O rádio via satélite – programação com qualidade digital transmitida do espaço exterior a receptores. Por uma pequena tarifa de subscrição – cerca de US$ 13 mensais – os americanos já podem receber mais de cem estações de rádio para todos os gostos sem limites e sem comerciais.

Você compra um minúsculo receptor, conecta-o no seu carro ou no aparelho de som doméstico e recebe notícias, música, esportes, conversas numa variedade estonteante, passando ao largo de toda a rede de radiotransmissão que cobriu a América durante boa parte de um século.

O crescimento do rádio via satélite está sendo mais rápido que o de qualquer outra nova mídia na história. De zero em 2001, o número total de assinantes está projetado para atingir 8 milhões até o fim deste ano. Nos primeiros três meses de 2005, a rádio por satélite XM, a maior de um punhado de novas companhias, agregou 540 mil novos assinantes. Sua receita cresceu 140 vezes no ano passado.

Lembre-se, os ouvintes estão pagando por algo que já está essencialmente disponível de graça.

Na semana passada, num sinal da maturidade da nova mídia, a deusa dos lares da América, Martha Steward, anunciou um canal Martha 24 horas. O lendário radialista e animador de programas de rádio Howard Sterm anunciou há pouco sua intenção de dar seu beijo de boa-noite radiofônico regular por um contrato de US$ 500 milhões e cinco anos no Sirius, o segundo maior serviço de satélite.

Por que isso está ocorrendo? A consolidação no mercado geral de rádio levou as companhias gigantes a espremer mais receita publicitária e tempo comercial de formatos existentes. E quem deseja ouvir os intermináveis e barulhentos anúncios de rádio quando está na estrada? Mas o rádio via satélite não tem comerciais. Ele também está livre da censura numa América cada vez mais puritana.

Stern, por exemplo, era regularmente multado por indecência pela hoje agressiva Comissão Federal de Comunicações controlada por republicanos. Os astros do rádio Opie e Anthony – conhecidos por suas façanhas ultrajantes, como gravar sexo em igrejas – não poderiam continuar pagando as multas que seu linguajar obsceno lhes causava.

O rádio via satélite explora com maior precisão a cultura contemporânea. O rádio sempre foi um meio íntimo. Transmitir numa cultura cada vez mais diversificada e segmentada significa atingir um mínimo denominador comum que torna os programas chochos, ou demasiado comerciais, ou ainda ecléticos demais para ouvintes sempre mais exigentes. O espectro do rádio via satélite expande as opções num grau alucinante.

Pode-se ter canais de rádio falado para conservadores, liberais, hispânicos, gays ou new agers. Pode-se ter uma rádio católica aprovada pelo Vaticano ou uma rádio Saber, com Deepak Chopra enviando carma para seu carro.

Interessado em futebol inglês? Na Sirius, você poderia ter ouvido em Los Angeles ou Chicago a partida Bolton X Chelsea. Toda a temporada de beisebol está disponível, assim como o basquete e o futebol americano.

A Sirius tem 65 – isso mesmo, 65 – estações de rádio separadas oferecendo todo tipo concebível de música. Tem uma estação 24 horas só com músicas de Elvis. Você pode ouvir também a Maxim Radio, uma colaboração com a revista para rapazes.

A rádio via satélite evita, pois, a onipresente publicidade e o governo controlador. Sua característica singular é o apego pessoal de ouvintes aos programas que eles amam. Para dar um exemplo simples: um radialista muito querido da velha guarda da National Public Radio, Bob Edwards, foi demitido no ano passado para abrir espaço a uma audiência mais ‘contemporânea’, mais orientada para os jovens. Seus ouvintes fieis ficaram horrorizados.

Mas Edwards teve uma opção que não teria tido alguns anos antes. Ele se transferiu para a XM, onde seus seguidores apaixonados ficaram mais do que ansiosos para pagar a pequena tarifa pelo prazer. Pela primeira vez. o ouvinte individual e o radialista individual têm um poder real.

Nesse contexto, ajuda pensar nos blogs. Os blogs foram meios pelos quais pequenos bandos de leitores que pensam parecido puderam encontrar escritores específicos que os atraíram ou desafiaram ou rivalizavam com a mídia dominante. A tecnologia os instrumentalizou – e o leque de opções para consumidores letrados aumentou exponencialmente.

O mesmo está ocorrendo com o rádio – e o rádio aberto está lutando desesperadamente para se manter, reduzindo o tempo publicitário, permitindo que DJs toquem canções de que gostam, em vez das escolhidas por corporações.

Gêneros musicais quase forçados à extinção no rádio regular estão experimentando um retorno. Bluegrass, jazz, techno ambiente, gospel. Manter vivas essas ricas tradições musicais – dando às pessoas a chance de ouvir sons excluídos das redes comerciais – só pode levar a mais criatividade e apreciação da diversidade.

Novos artistas têm uma chance maior de encontrar um público e, à medida que a rádio via satélite se integrar à internete, as vendas de música poderão explodir.

Pense nesse florescente novo universo e depois pense em algo como a BBC. A rádio via satélite cresce na escolha real do consumidor, mantém as tarifas de subscrição voluntárias e põe em xeque os interesses comerciais e governamentais. A BBC é um monstro estatal com quase cem anos, tarifas obrigatórias e zeloso envolvimento político.

Deste lado do Atlântico, o velho modelo parece condenado. Espere só um pouco até ele naufragar sob as ondas dos satélites.”

“Liberdade é uma estação de rádio fora deste mundo “, copyright O Estado de S. Paulo / The Sunday Times, 8/05/05


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