Rádio: a velha mídia ainda vale

Já presenciei discussões sobre como “trazer o cliente para a modernidade”, forçando-o a adotar os canais mais modernos de comunicação, como a Internet, para falar com seus públicos.
Por Yara Peres*

Parece que alguns consultores de comunicação corporativa temem parecer ultrapassados, fora de moda e por isso, sem pensar, puxam do bolso (ou da bolsa) sugestões que, às vezes, mesmo tendo cara de “modernas”, acabam morrendo na praia porque não se adequarem à capacidade de entendimento e nem mesmo ao gosto do seu público.
É claro que o contrário também acontece e a linguagem que poderia ser modernizada, arejada, permanece no circulo vicioso dos velhos hábitos e do medo de inovar.
Vocês também já devem ter visto situações em que o cliente tenta se comunicar com seu público interno através de intranet, quando o melhor seria o jornal mural ou aquela publicação que todos gostavam e que por motivo de corte de custos, foi substituída pela Internet. Também já devem ter presenciado o inverso. Cliente que insiste no mural e nas várias publicações que desde o tempo do fundador a organização mantém, quando seus funcionários já vivem, falam e decidem na linguagem da Internet.
Medo? Resistência?  Falta de sensibilidade? Ignorância sobre seus públicos? Um pouco de tudo isso. Mas o fato é que cabe a nós, profissionais de comunicação, olhar de fora para dentro e avaliar com bom senso o que vale mais para aquele cliente, naquele momento, para aquele público que vive aquele momento. As coisas, pessoas e circunstâncias mudam a todo o instante, o que significa dizer que as mesmas regras que orientaram decisões de comunicação na semana passada podem não valer hoje ainda que o público, aparentemente, seja o mesmo.
Aqui vai um exemplo interessante que li na revista Comunicação Empresarial e que serve para mostrar a importância da adequação do canal. Uma indústria produtora de soja, instalada no Mato Grosso, tinha um problema de comunicação com seus trabalhadores que todas as manhãs são transportados da sede da fazenda às lavouras, em um ônibus da empresa. Apesar dos murais e das publicações, o que percebia era que as mensagens lidas eram menos valorizadas, entendidas e assimiladas por esses funcionários.
A idéia veio de um técnico de Segurança da empresa, preocupado com o pouco entendimento de regras básicas de segurança. Por que não um programa de rádio que fosse transmitido todos os dias no trajeto até os campos e no restaurante? O pessoal de Comunicação e o presidente da empresa apostaram na iniciativa do funcionário e o resultado foi recompensador. Cada programa é precedido por uma reunião de briefing com os departamentos de Comunicação, de Meio Ambiente e de Segurança do Trabalho. Um estúdio profissional grava, edita e os CDs, com cinco programas diferentes, chegam semanalmente à empresa.
Um jingle, um personagem e vinhetas foram criados para dar ritmo, cadência e previsibilidade ao programa.
O programa tem dicas, um Você Sabia?, além de orientações sobre cuidados com a saúde, o manejo correto de agrotóxicos, prevenção de queimadas, economia de água e energia, coleta seletiva de lixo etc. O interessante é que do jeito claro, simples e direto com que é feito, o programa comporta até assuntos mais delicados e complexos como sustentabilidade e parcerias que o grupo fecha para ampliar pesquisas ambientais.
As mesmas informações são passadas para os demais empregados, os executivos que preferem outros canais como o site, os murais, as publicações e as mensagens áudio-visual por e-mail.
Sem preconceitos, a equipe de comunicação estava muito bem sintonizada com o perfil do seu público trabalhador rural e por isso soube escolher o melhor canal, sem se preocupar se pertence à “velha” ou à “nova” mídia. A visão parcial do chamado sul-maravilha pode interferir na hora de pensar nos melhores veículos de comunicação. A primeira coisa a se perguntar é: “melhores” para quem, cara pálida?? Internet, sem dúvida, será melhor para o presidente e seus principais executivos, seus investidores, os líderes etc.
Mas será que isso é suficiente?
 

* Yara Peres é sócia e vice-presidente do Grupo CDN, uma das mais importantes agências de comunicação do País. Formada em jornalismo, publicidade e propaganda, atua há 20 anos como consultora na área de comunicação corporativa.

 


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