Rádio e TV me proporcionaram convívio com famosos políticos!

Leonel Brizola, um deles, foi com quem mais tive amizade. O gaúcho Leonel Brizola já era um político rodado quando retornou do exílio no exterior, forçado pelo movimento golpista de 1964.

Ele voltou ao Brasil às 17h25 do dia 6 de setembro de 1979, com sua esposa dona Neuza Goulart Brizola, e talvez tenha sido o mais ilustre dos anistiados pelo presidente Figueiredo.

Brizola e dona Neuza, no desembarque em Foz do Iguaçu, depois do exilio

Brizola e dona Neuza, no desembarque em Foz do Iguaçu, depois do exilio

Por outro lado, Hebe Camargo, depois de 10 anos afastada da televisão, na mesma época, havia retornado ao ar na TV Bandeirantes por meio do empresário Mário Buonfiglio.

Eu era responsável pela produção da principal entrevista da semana (naquele tempo o sofá de Hebe só recebia gente muito importante) e pela programação musical do programa.

Convidei e o casal Brizola aceitou aparecer na televisão pela primeira vez depois do seu retorno ao Brasil. Brizola compareceu vestindo azul (terno de jeans, lenço vermelho no pescoço), com o distintivo tricolor do antigo PTB, Partido Trabalhista  Brasileiro, na lapela. Dona Neuza trajava um vestido azul claro.

A entrevista conduzida por Hebe foi emocionante, apesar de o político gaúcho se comportar com bastante cautela, respondendo às perguntas pausadamente e cuidando para não desagradar os militares ainda de plantão. Dona Neuza pouco falou.

Desses inesquecíveis momentos com Brizola, passando pelo movimento das Diretas Já, governo do Rio de Janeiro e candidatura à presidência da República, tivemos muitos encontros (entrevistas) no programa Ferreira Netto (TVS), em Crítica e Autocrítica (TV Bandeirantes) e Vamos Sair da Crise (TVs Gazeta-Capital).

No início dos anos 1980, a sigla PTB foi ressuscitada e arduamente disputada por Ivete Vargas e Leonel Brizola. Após grandes embates, a ganhadora foi a sobrinha de Getúlio Vargas, que contou com o apoio de Golbery do Couto e Silva, o general todo-poderoso no governo Figueiredo. Brizola criou então o PDT, Partido Democrático Trabalhista.

Raramente Brizola participava de programas ao lado de outros políticos. Excepcionalmente, aceitou debater com adversários  de outros partidos no programa Ferreira Netto, cuja pauta era exatamente a formação de novos partidos no começo da redemocratização do país.

Estrategicamente colocados na grande mesa do programa – Brizola à esquerda e Ivete à direita – eles apresentavam fisionomias de poucos amigos.

E não demorou mais que 15 minutos de debate. Após ouvir uma provocação de Ivete, Brizola se levantou da mesa e disse alto e bom som: “Me perdoem os telespectadores, me perdoe Ferreira Netto. Vou me retirar porque não suporto estar ao lado desta senhora dona redonda” (Ivete era gorda). E, mesmo eu tendo tentado persuadi-lo a continuar no programa, ele retirou o microfone de lapela e saiu estúdio afora. O debate prosseguiu chocho…

No Vamos Sair da Crise, Leonel Brizola virou figura bastante assídua porque, independentemente de estar quase sempre com muito poder de fogo no cenário político nacional, via de regra não recusava convite para ir ao programa, desde que como entrevistado único. E nunca aceitava as passagens aéreas e hotel que lhe eram oferecidos pela produção. Vinha do Rio de Janeiro, onde morava, sempre por sua conta.

Durante suas exposições, era difícil a tarefa de chamar os intervalos comerciais. E quando o programa estava por terminar era igualmente difícil o apresentador encerrá-lo. Como o VSC era transmitido em Rede para Brasília, não podia exceder o tempo contratado na  Embratel.

Numa de suas participações, respondendo a uma pergunta do apresentador Alexandre Machado a respeito dos CIEPS (Centros Educacionais, grande sacada de Brizola na administração do governo do Rio de Janeiro), o “gauchoca”, como era chamado, se emocionou e começou a chorar durante o seu depoimento.

Eu, Brizola, um assessor pol?tico e Alexandrte Machado

Eu, Brizola, um assessor político e Alexandrte Machado

Faltavam oito minutos para o término do programa quando acionei a chamada do último intervalo comercial, conseguida com muito custo por Alexandre. Com a entrada dos comerciais, me aproximei de Brizola e pedi desculpas por ter sido obrigado a interrompê-lo num momento de tanta emoção. Já recomposto, ele entendeu que o roteiro assim exigia.

Passado o intervalo comercial, Alexandre retoma a apresentação e para espanto do apresentador e de todos os que estavam no estúdio, Brizola volta a chorar como antes da interrupção do programa para os comerciais. Parecia artista de novela atuando em pleno dramalhão.

Longe de ser adepto do seu PDT, mantive uma boa amizade com Leonel Brizola que sempre foi muito afável e alegre. Até um pouco antes de sua morte, quando eu já não mais fazia televisão, sempre que me via era todo sorrisos e abraços. Confesso que sinto muito a falta daquela voz mansa e marcada, mas muito contundente, da política brasileira.

História
Em agosto de 1961, quando Jânio Quadros renunciou à presidência da República, ocorreram dias de grande impasse na política brasileira. Entre 29 de agosto e cinco de setembro, a Nação viveu dias de grande apreensão.

A elite dos militares não queria que o vice Jango Goulart, que estava em visita à China, assumisse a presidência da República. Ranieri Mazzilli (presidente da Câmara dos Deputados), em 25 de agosto, um dia após a renúncia de Jânio, assumiu interinamente o cargo de presidente.

Houve no país uma intensa mobilização polarizando a sociedade brasileira pró e contra a posse de Goulart.

Contra o veto militar, a principal resistência se instalou no Rio Grande do Sul, berço de Jango e de seu  governador Leonel Brizola.

Cunhado de Jango Goulart, Brizola, com o apoio do general José Machado Lopes, comandante do III Exército, começou uma campanha de alcance nacional, graças à formação da Rede de rádio denominada Cadeia da Legalidade.

Mais de 100 emissoras de todo o Brasil, comandadas pela rádio Guaíba, a voz oficial da cadeia, mais as rádios Farroupilha e Gaúcha, que foram requisitadas pelo governador Brizola, transmitiram depoimentos e mensagens em favor da legalidade.

Sobre sua primeira manifestação ao povo brasileiro pela citada Rede, Leonel Brizola, em depoimento anos mais tarde no livro Legalidade 25 anos, recordou: “Falei de improviso e sob grande tensão, medindo, tanto quanto possível, as minhas palavras”.

O fato histórico que contribuiu decisivamente para que Jango se tornasse presidente do Brasil (tomou posse em 7 de setembro de 1961), marca a instalação da primeira Rede de rádio brasileira de que se tem notícia, além da cadeia nacional da Hora do Brasil.

FINAL, DOIS PONTOS:
1. Na maratona gastronômica, de que participei na minha visita a Curitiba, não faltou uma carne suína feita em panela de ferro e
2. Que foi acompanhada de feijão, arroz e salada, maravilhosamente preparados por Isolete, mulher do amigo Gilberto Fontoura.

Ainda Curitiba, no encontro com radialistas no Cinevideo, um papo amigo com Jota Pedro, tendo ao fundo Vin?cius Coelho. Ambos, meus ex-colegas de trabalho nas rádios Idependência e Colombo

Ainda Curitiba, no encontro com radialistas no Cinevideo, um papo amigo com Jota Pedro, tendo ao fundo Vinícius Coelho. Ambos, meus ex-colegas de trabalho nas rádios Idependência e Colombo

P.S. “É triste que um meio de comunicação, pesquisa, lazer e descobertas como a internet seja usado tantas vezes para fins tão negativos”. Lya Luft, em sua coluna na revista Veja, de 22 de abril de 2009, condenando aqueles que desvirtuam a utilização dessa maravilhosa invenção tecnológica.

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