Rádio: história é valor

Ouvinte: o maior capital. Imagem Daniel Lopes/telhacast

Ouvinte: o maior capital. Imagem Daniel Lopes/telhacast

Infelizmente, muitos veículos de comunicação ainda não se empenham na preservação, sistematização e, principalmente, difusão da sua própria história. Não percebem o valor, inclusive monetário, possuído pelas fitas e papéis que ora jazem em seus arquivos.

Em cada um daqueles suportes, estão gravados momentos que fizeram parte da história de toda a sua base de audiência, sendo que parte dela transforma essas reminiscências em argumentos na defesa de determinada emissora, assim como um torcedor lembra do craque do passado quando justifica sua paixão por determinado clube.

No rádio, mídia quase centenária, esse quadro ganha cores ainda mais fortes. Programas, comunicadores e músicas foram o som ambiente de momentos marcantes da vida dos ouvintes: o café da manhã antes de ir para a escola, a primeira vez que foi a um estádio, o encontro com a primeira namorada etc. A mobilidade, presente no rádio há tantas décadas, permitiu essa onipresença

Grandes emissoras já sabem disso e contam com departamentos de documentação bem estruturados. Este artigo, portanto, dirige-se principalmente às rádios do interior, que ocupam um enorme protagonismo no cotidiano das suas regiões. Quando preocupam-se em guardar e/ou resgatar as suas produções, essas estações, na verdade, posicionam-se como verdadeiras guardiães das tradições da sua própria comunidade, reforçando a relevância política, cultural e social da radiodifusão.

Além disso, ao trabalharem toda essa carga de informação, valoriza-se outro atributo vital para a audiência: transparência. Vide o exemplo do Memória Globo, projeto das Organizações Globo que traz à tona toda a história do grupo, juntando o conteúdo infinito dos seus acervos com a memória oral de colaboradores e ex-colaboradores, que falam abertamente sobre qualquer tema, por mais polêmico que seja. Com isso, conseguem-se inúmeros resultados estratégicos, que vão desde a aproximação com o meio acadêmico até a satisfação da demanda do público que tem saudade de determinado artista ou programa.

Com a internet, esse processo de resgate ficou mais fácil, não só porque a tecnologia está ao alcance de todos, mas também por permitir que conteúdos antigos disputem, em pé de igualdade, com os mais recentes a atenção da audiência. Isso vale tanto para materiais com grande relevância histórica quanto para pequenas brincadeiras. Por exemplo: no YouTube, acumula mais de 3,5 milhões de visualizações o trecho do Domingo no Parque, gravado há quase 30 anos, com Silvio Santos tentando responder uma charada desconcertante (“Qual a diferença do poste, do bambu e da mulher?”).

Portanto, não falo aqui de mera nostalgia, e sim de valor estratégico e audiência.

Parafraseando Walter George Durst, fazer rádio é como escrever na água. Preservar esse trabalho deve ser tão urgente quanto é realizá-lo. A demanda e as oportunidades para aproveitar o potencial de toda essa memória estão aí e merecem ser aproveitadas.


Por Fernando Morgado

Fernando Morgado é palestrante, consultor, professor da FACHA e professor convidado de instituições como Universidad Autónoma Metropolitana do México, ESPM e PUC-Rio. Autor do livro biográfico "Silvio Santos: a trajetória do mito" (Matrix, 2017). Tem outros seis livros como autor, coautor e colaborador. Mestrando em Gestão da Economia Criativa, pós-graduado em Gestão Empresarial e Marketing e graduado em Design com Habilitação em Comunicação Visual e Ênfase em Marketing pela ESPM. Entre suas atividades comunitárias, é articulista voluntário no site do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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