Rádio Marumby, a Emissora das Iniciativas

Memória | Capítulo 15

Na Rádio Marumby os jovens locutores dos anos 1940 e 1950 aprendiam muito porque faziam de tudo um pouco. No meu caso, além de fazer locução comercial, eu escrevi e apresentei programas de estúdio, animei programas de auditório, irradiei corridas de bicicleta, transmiti missas e bailes de carnaval, fui repórter e transmiti a inauguração da linha telefônica Curitiba-Joinville, a chegada do novo Arcebispo de Curitiba Dom Manuel da Silveira D’Elboux, cobri a visita da imagem peregrina de Nossa Senhora do Carmo e a chegada do Presidente Getúlio Vargas a Curitiba nas comemorações do Centenário do Paraná. Até futebol me fizeram tentar… e nessa eu me dei mal. Conto o caso no Capítulo 19, de “Gafes, Fatos Cômicos, Causos e Casos”, neste livro.

Das três emissoras da época, a Marumby era a que tinha o menor faturamento. Ainda assim, graças ao denodo de Arno Feliciano de Castilho e Tobias de Macedo Junior, foi a primeira a transmitir em Frequência Modulada (usava como link) e a pioneira na utilização de “Walkie-Talkie”, o emissor e receptor portátil, nas irradiações externas.
Às vezes, as corridas de bicicletas que transmitíamos eram realizadas no percurso Curitiba-Ponta Grossa-Curitiba. A ida num dia e a volta no outro. Logo que começamos a dar cobertura a esse esporte, nosso carro era um recém-lançado “Fusquinha”, de propriedade do gerente, Frederico Plaisant. O técnico era Herbert Rüllei. Em geral, no retorno, um dos corredores se distanciava dos demais, o que nos dava a oportunidade de entrevistar o virtual vencedor em plena corrida. Emparelhávamos o Fusca com a sua bicicleta e eu aproximava dele o microfone amarrado a um cabo de vassoura. Os familiares, ouvindo a Rádio em Curitiba, já começavam a festejar a vitória antes da chegada.

Após a mudança da Rádio Marumby, da Travessa Marumby para o segundo andar do Edifício “Dante Luiz”, na Rua XV de Novembro, a emissora teve um pequeno, porém belo auditório. Foi então que lancei o programa “Grandes Recitais” e, juntamente com Isis Rocha, “Ciranda Infantil” já mencionados no capítulo anterior, e outros programas de auditório bem populares. Do programa “Ciranda Infantil” nasceu o “Teatrinho Marumby”, depois “Teatro Infantil Paranaense” que realizou apresentações no Teatro Guaíra, no Teatro de Bolso (na época dirigido por Ary Fontoura) e muitos outros locais em Curitiba e no interior do Estado.
 
Eventualmente a Rádio Marumby, em busca de maiores acomodações para o público, realizava shows fora de seu auditório. Foi o caso dos shows comemorativos aos aniversários da emissora e da apresentação de Marlene, no auge de sua carreira na Rádio Nacional do Rio de Janeiro.

Criando o seu Conjunto Regional, a Rádio Marumby começou a formar o seu elenco. Vamos lembrar alguns dos valores da H-8.
 
Estiveram conosco, entre outros, o cantor Bolívar Sabóia, a soprano Paula Weibert Potocki, o compositor e acordeonista Lord Wilson, a dupla sertaneja Bandeirante e Beija-Flor, e os que foram revelados no programa “Rádio Chance Marumby”: as cantoras Maria do Pilar e Lizete Marques e o excelente acordeonista Dartagnan. Esse programa não era uma apresentação de calouros, mas de pessoas que gostavam de cantar ou executar instrumentos musicais, fazendo isso por mero diletantismo. O programa “Rádio Chance Marumby” teve a excelente participação do locutor Dácio Leonel de Quadros e dele surgiram alguns valores que foram aproveitados depois em outros programas da emissora e se profissionalizaram.

Outro valor que brilhou na Marumby foi Zé Pequeno (José Coelho Filho), por mim cognominado “o artista grande que é um grande artista”. Ele apresentava divertidas paródias sobre os jogos de futebol realizados em Curitiba.

Dentre os programas de sucesso que lançamos na década de 1950, vale citar “Voz de Roma nos céus de Curitiba”, apresentado por Guido Roberti (Guido Padovani), e Domenico Fucci, aos domingos. Ambos italianos, contavam com os auspícios da R.A.I. da Itália.

Fucci e Guido eram muito comunicativos e a todos cativavam com o seu linguajar.
Outros programas da época foram “Semanário H-8” e “Roteiro do Mundo”, apresentados por Osmar de Queiroz, e “Dois seresteiros e uma saudade”, de Moyses Itzcovich.
Quando Frederico Plaisant deixou a Rádio Marumby, Herrera Filho que era, então, locutor e diretor comercial, assumiu a gerência da emissora. Algum tempo depois ele preferiu voltar à chefia do departamento comercial e, em 15 de janeiro de 1955, fui nomeado diretor gerente. Para cuidar das finanças da empresa eu escolhi meu colega e amigo Osny Bermudes.

Continuei batalhando e permaneci na Rádio Marumby até 15 de setembro de 1957. Pedi demissão por ter ambições de trabalhar numa emissora de maior porte, um desafio com o qual sonhavam os radialistas da época.

Após pedir demissão da Rádio Marumby e já no prazo de aviso prévio acordado com a emissora, no entardecer de um certo dia fui até o Bar do Radialista fazer um lanche. Ficava a poucos metros das Rádios Clube e Guairacá, na Rua Barão do Rio Branco. O Abdo, seu proprietário, amigo dos radialistas e às vezes seu conselheiro, veio conversar comigo. Logo em seguida chegou o Mário Vendramel e ficamos batendo papo. Quando o Mário soube que eu estava saindo da Rádio Marumby e que ainda não tinha um novo prefixo para trabalhar, já pensou em me levar para a Bedois. Era o que eu queria. Ele me falou:
 
– Você espera aqui um pouquinho, eu vou até a Rádio e já volto.

Não demorou estava de volta, acompanhado por Sérgio Fraga, que era o locutor chefe da Rádio Clube. Ali mesmo foi acertado o meu contrato e estabelecida a data da minha estréia: 1º de setembro de 1957. Com a aquiescência dos dirigentes de ambas as emissoras eu trabalhei nas duas até o final do prazo de aviso prévio.

Mário e eu nos tornamos amigos e ele me convidou para apresentar em parceria o programa “Calouros Bedois”. Nossa sociedade também prevalecia na parte comercial. Saíamos juntos para angariar patrocinadores e rachávamos as comissões.

Fiz amizade, também, com Sérgio Fraga, com Moacir Amaral e Hugo Cunha. O número de amigos foi aumentando e bem depressa eu me senti em casa.
Daí em diante a minha carreira ficou estreitamente ligada à Rádio Clube Paranaense, conforme está narrado nos capítulos 4 e seguintes.

Ubiratan Lustosa. O Rádio do Paraná. Fragmentos de sua história. Curitiba: Instituto Memória, 2009. www.institutomemoria.com.br

1 responder
  1. Sérgio Moraes (Pilar-AL) says:

    Boa Noite ! Li a matéria acima e vi também em outro site falanda sobre a RÁDIO MARUMBY e nesta matéria vocês falam na Cantora “MARIA DO PILAR”. Gostaria de saber se vcs tem mais alguma informação sobre esta minha Conterrânea que despontou aí no Paraná participando dos Programas da Rádio. Se tiverem mais alguns dados (Nome completo, etc.) seria interessante pra gente divulgar aqui em nosso PILAR, pois estamos prestes a abrir nossa Rádio Comunitária e gostariamos de mencionar e homenagear a MARIA DO PILAR.

    Atenciosamente grato,

    Sérgio Moraes (Pilar-AL)

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