Rádio – Nas ondas da era de ouro

Dinossauro diante do poderio das novas tecnologias como tevê a cabo, iPods, messengers e e-mails, o rádio já teve seus dias de glória. Um dos mais poderosos meios de comunicação do século passado, esse aparelho de ondas sonoras fez a cabeça e, sobretudo, os ouvidos de milhares de gerações.
AESP – Associação de Emissoras de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo – 04/01/2008
Correio Braziliense – Caderno C
Lúcio Flávio
Da Equipe do Correio

No Brasil, nenhuma estação teve o mesmo poder de massificação que a Rádio Nacional, que acaba de ganhar divertido livro de verbetes escrito pelo sociólogo Ronaldo Conde Aguiar. Resultado de anos de pesquisa, Almanaque da Rádio Nacional, que traz ainda CD com 33 hits que embalaram a época de ouro das rádios, além de trechos de programas, esquetes e jingles, é uma aula de história do país, a partir do prisma cultural.
“O projeto nasceu com a idéia de se transformar em livro há uns dois ou três anos”, comenta Conde, que é professor de cultura na Universidade de Brasília (UnB). “Eu tinha reunido, durante anos, material sobre a Nacional e seus anos dourados, principalmente a década de 1950. Um dia, me veio a idéia do livro. Apesar da minha formação, resolvi não apostar em algo acadêmico, num ensaio sociológico sobre a emissora. O que queria, mesmo, era fazer um livro de textos curtos, mais informativos que interpretativos”, revela.
Na trilha de sucessos das décadas de 1970 e 1980, o Almanaque sobre a Rádio Nacional vai além e não só mapeia os principais acontecimentos daqueles anos a partir das novidades artísticas – já que a Rádio Nacional reunia na época um elenco poderoso da música e do teatro -, mas inovações técnicas e sociais que ferviam no período, como os avanços significativos no campo da publicidade. “Não seríamos o que somos sem a Rádio Nacional.
Ela integrou o país. Ela reduziu distâncias. Ela divulgou idéias, maneiras de ver a vida e o Brasil”, destaca o autor.
Dificuldades
Desenhar esse labirinto informativo repleto de curiosidades, notas biográficas, imagens raras, perguntas e verbetes não foi tarefa nada fácil. Conde conta que umas das grandes dificuldades encontradas foi a falta de registros sobre a Rádio Nacional, inclusive dentro da própria instituição. “O Brasil é viciado em desprezar os fatos e figuras que forjaram nossa formação.
Dei-me conta disso quando escrevi outros livros. Quando comecei a escrever o almanaque, pensei que, de alguma forma, iria encontrar na Rádio Nacional um material reunido, mais ou menos organizado. Enganei-me”, desabafa. “Como todos sabemos, a Rádio Nacional foi vítima da sanha dos vencedores do golpe de 1964. A partir daí, seus arquivos foram destruídos e atirados no lixo. Pouca coisa sobrou. Minhas pesquisas, então, foram muito mais difíceis”, lamenta.
Outro detalhe que dificultou o processo de pesquisa foi o fato de grande parte do vasto elenco de diretores, produtores e artistas da rádio ter morrido. A alternativa, segundo o autor, foi garimpar sebos e bibliotecas à cata de entrevistas antigas dos principais ídolos da emissora. “Pude conversar com alguns astros e estrelas da época, mas gente como Renato Murce, Paulo Roberto, Ghiaroni e Floriano Faissal, já mortos, teriam muito a contar”, enumera. “Tive que consultar velhas revistas empoeiradas e rasgadas em bibliotecas e sebos, reunir cacos de informações”, conta.
Fácil e gostoso de ler, o Almanaque da Rádio Nacional é repleto de histórias divertidas e curiosas envolvendo nomes de peso do período mais fértil da era de ouro do rádio, como Cauby Peixoto, Ary Barroso, Max Nunes, Rodolfo Mayer, e as eternas divas Emilinha Borba e Marlene. Também traz à tona momentos marcantes de uma instituição que, como definiu o jornalista Rubem Braga, “é a língua do povo brasileiro”. Entre eles, o estrondoso sucesso da novela O direito de nascer, escrita por Amaral Gurgel, e o inconfundível Repórter Esso, jornalístico apresentado por Heron Domingues por quase 30 anos.
“Meu livro procurou conter o que a emissora continha: informação, emoção e sorrisos. Tudo isso, é claro, resgatando ou fazendo justiça àquela gente que produziu um fenômeno chamado Rádio Nacional”, comenta Conde, que pretende levar a história do veículo às novas gerações. “Tenho a idéia de montar um curso ou palestra sobre a Rádio Nacional, com fotos, textos e sons. Gostaria muito que os jovens conhecessem a história desse importante veículo”, planeja.
Almanaque da rádio nacional
De Ronaldo Conde Aguiar. Casa da Palavra, 182 páginas. R$ 49.
 


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