Rádio no Ceará

Incertezas do futuro
Estamos vivendo um período em que sentimos mudanças atingindo todos os setores da vida moderna. Tais modificações chegam de forma concreta e provam que precisamos renovar nossas concepções de mundo e de sociedade. No momento em que estas transformações povoam nosso cotidiano sentimos um quê de melancolia em relação a algumas mudanças que vêm para pior, no sentido em que destroem algumas tradições e aspectos da cultura do povo.
Por Francisco Djacyr Silva de Souza

No rol dessas mudanças, um meio de comunicação está cada vez mais combalido, pois as que se fizeram não melhoraram a qualidade do rádio que, devido a interesses econômicos, tem sofrido perda de referencial e não fala mais a língua do povo. O que se tem visto hoje no rádio cearense é que o ouvinte (razão maior do rádio) está esquecido, não é consultado em relação a mudanças nem é respeitado em algumas emissões radiofônicas.
Essa situação já vem sendo discutida em várias instâncias da sociedade, mas parece-nos que os dirigentes de emissoras não ouvem os anseios populares nem se esforçam para a concretização de um rádio melhor que seja artífice de uma relação mais estreita com o que o povo pensa e o que o povo quer. A tecnologia tão propalada e que chega ao rádio não é utilizada para melhorar as mensagens radiofônicas nem abrir canais de interação realmente democráticos e eficazes.
Na programação de rádio vemos de um lado a FM com grande aparato tecnológico, com qualidade de emissão, mas sem nenhuma mensagem, nenhum construtor de aprendizagem nem interação com o ouvinte, a não ser concursos de perguntas vazias sem nenhuma contribuição para o seu engrandecimento. O rádio FM bem que poderia utilizar sua qualidade para criar mecanismos de informação, satisfação e lazer adequado para todos, saindo da mera veiculação de músicas geralmente de péssima qualidade e que em nada contribuem para uma melhor formação de nosso povo.
Por outro lado temos o combalido rádio AM, que sofre pela falta completa de investimentos, onde o radiojornalismo se resume à leitura dos jornais da capital, onde os comentários têm mais a ver com a vida do radialista do que com o que realmente interessa ao povo.
Assim, vemos o crescimento e o fortalecimento de programas que agridem o ouvinte com palavrões e comentários totalmente desnecessários. O rádio AM sofre e perde com transmissões cada vez mais inaudíveis, com chiados, falta de potência no som e qualidade sofrível de alguns programas.
Resgate urgente
O que mais revolta é que ninguém toma providência alguma. Os grandes radialistas de nossa terra parecem não se incomodar com a situação, parecem compreender que sua missão terminou. Os proprietários de rádio com certeza não ouvem suas emissoras, pois já teriam tomado providências diante do caos que se instalou. A Acert, órgão que congrega proprietários de emissoras, limita-se a perseguir as rádios comunitárias – não reconhece as organizações dos ouvintes nem toma providência alguma em relação à situação. Os cursos de comunicação não procuram desenvolver práticas que visem a análise e a melhoria da programação do rádio tanto AM quanto FM (que seus alunos escutam). O Sindicato dos Radialistas limita-se à função de formação, mas não fiscaliza aqueles que se formam nem luta pela valorização da profissão. A pergunta é: será que vão deixar o rádio morrer?
Tais constatações fazem com que esse temor tome conta dos que realmente gostam de rádio. Teme-se que o rádio sucumba e que o povo não tenha oportunidade mais de se pronunciar nem se fazer entender. O povo tem se organizado para melhorar o rádio.
A iniciativa de criação de associações de ouvintes é uma dessas tentativas, mas, infelizmente, não tem sido reconhecida por nenhuma das instâncias dos que fazem o rádio. Radialistas xingam essa iniciativa, proprietários não ouvem o que diz a associação, a Acert não reconhece a organização dos ouvintes, a ponto de barrar sua participação no Congresso de Radiodifusão. Os cursos de Comunicação da capital não buscam se integrar com o pensamento dos que fazem esta associação. Os estudantes de Comunicação não se ligam no rádio e deixam-no à mercê de outros interesses que não são os da comunicação.
É preciso resgatar o rádio urgentemente, com melhoria das emissões, com programação que fale a língua de nosso povo e com respeito ao ouvinte de forma concreta, valorizando sua organização, dando-lhe oportunidades de falar, educando sua participação e, enfim, fazendo com que o rádio seja o instrumento que sempre foi e continuará sendo mesmo que seja preciso uma revolução de costumes, ações e práticas do mercado radiofônico.
(*) Professor, presidente da Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará.


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