RÁDIO POTI DE NATAL: NARRANDO AS PRIMEIRAS HISTÓRIAS

Quando nos propomos a contar uma história é comum querermos começar com a clássica frase das estórias infantis: “era uma vez”. Mas antes que você, caro leitor, queira comparar as estórias infantis com a história a ser contada, é importante saber que esta é verídica, os personagens são reais e a imaginação fica por sua conta.
Por Edivânia Duarte Rodrigues

Ocorreu na década de 1940, numa pequena cidade chamada Natal que possuía, aproximadamente, 55 mil habitantes. Nessa época, os meios de comunicação de massa, encontrados em Natal, eram os jornais impressos e o sistema de alto-falantes, denominado Indicador da Agência Pernambucana – I.A.P, fundado em 1938, de propriedade do Sr. Luís Romão.

Os amplificadores de som, popularmente designados de “bocas de ferro”, eram instalados em praças públicas interligados por fios, transmitiam músicas gravadas, informações jornalísticas, poesias, dramas e apresentações artísticas ao vivo. O I.A.P. se configurou num importante divulgador de notícias, principalmente, durante a II Guerra Mundial.

Eider Furtado, diretor artístico da primeira estação de rádio do Estado, disse que quando marcava nove horas da noite todo mundo corria para ouvir a BBC de Londres, as pessoas ficavam debaixo do alto-falante em silêncio, quando dava nove e quinze, acabava o noticiário e a cidade se esvaziava, todo mundo ia embora. O sistema de alto-falantes pode ser considerado como um precursor do rádio em Natal, concedendo ao público natalense entretenimento e informação, foi a partir do sucesso dele, bem como da programação veiculada pelas emissoras do sudeste e nordeste do país, sintonizadas em Natal, que os natalenses ansiaram possuir uma programação ainda mais diversificada e com maior alcance social através de uma emissora radiofônica local.

O desejo da sociedade em possuir uma estação de rádio no estado não ficou apenas no campo das idéias, a população colaborou para a instalação da primeira estação de rádio do Rio Grande do Norte. Segundo Lima (1984, p. 25) os natalenses contribuíram para a construção da emissora através da Festa do Cimento, Festa do Microfone, Festa Radiofônica e Campanha do Disco, que contavam com a colaboração dos cantores do Indicador da Agência Pernambucana.

Carlos Lamas e Carlos Farache encabeçaram o sonho da instalação e foram considerados os dois grandes idealizadores da rádio pioneira. Entretanto, para Carlos Lamas, além do anseio popular, havia o interesse comercial atuando como motivador da instalação de uma emissora radiofônica em Natal. Isso porque, na época, Lamas era um representante oficial dos aparelhos de rádio RCA Victor, sendo o proprietário do estabelecimento comercial: “Casa Carlos Lamas”.

Contam as pessoas da época que foi nesse contexto de ansiedade e desejo social que surgiu a Rádio Educadora de Natal – REN, a primeira do Rio Grande do Norte que teve o seu estatuto aprovado em 11 de março de 1940. No entanto, a concessão pelo Ministério de Obras e Viação (órgão responsável pelas concessões radiofônicas na época), só foi dada em 16 de maio de 1941 e a Rádio Educadora de Natal entrou efetivamente no ar em 29 de novembro de 1941, na voz do locutor Genar Wanderley. A emissora passou a transmitir com as seguintes configurações técnicas: amplitude modulada (AM), freqüência – 1270 kHz e  prefixo: ZYB-5.

A Rádio Educadora de Natal, apesar dos dois grandes idealizadores e da participação social, pertencia a vários acionistas, dentre eles: Carlos Farache, José Gurgel do Amaral Valente, Paulo Pimentel, Gentil Ferreira de Souza, José Elpídio dos Santos e Luís Câmara Cascudo. Inicialmente, a emissora transmitia em três horários: 08h às 11h; 13h às 15h; e 18 às 22h.

Um ano depois da instalação da primeira estação radiofônica do Rio Grande do Norte, o Brasil entrou na II Guerra Mundial e, Natal, localizada numa posição geográfica estratégica, sendo limitada a leste pelo oceano Atlântico, é o ponto mais próximo até Dakar, na África, por isso, tornou-se Base Militar americana, no ano de 1942.

A partir desse fato a REN e Natal sofreram algumas interferências. A pequena cidade recebeu um grande contingente de militares, sobretudo americanos, a partir da criação da Base Aérea de Natal e de “Parnamirim Field”. De acordo com Avelino (2003.p.28) a população natalense aumentou em 20%, o que mudou drasticamente os hábitos locais e Natal passou a ter vida noturna, com a inauguração dos bailes nos clubes de lazer para os soldados, chamados de USO’s – United States Organizations. Glorinha Oliveira, cantora da Rádio Educadora de Natal, disse que cantores e a orquestra da emissora cantavam e tocavam para os americanos no USO. Entretanto, a presença dos norte-americanos em Natal trouxe também medo e ansiedade, a sociedade natalense, na expectativa de um ataque militar do “EIXO”, era submetida, pelos soldados americanos, ao “toque de recolher” e ao “black-out” – o  apagar das luzes da cidade para dificultar a chegada do “inimigo”.

Enquanto isso a Rádio Educadora de Natal era fiscalizada, podendo ser censurada quando se achava necessário. Foi, portanto, nesse clima de conflito, que os profissionais da REN relatam um episódio interessante: “dentro de uma programação musical foi colocada no ar uma música alemã e imediatamente a estação foi fechada e lacrada, o locutor do horário – Genar Wanderley – e o discotecário – Ubaldo Lima foram detidos. Depois, percebeu-se que tinha colocado no ar o hino alemão, mas quem programou não sabia do que se tratava, e quem leu não deve ter recebido o nome em alemão. A questão foi resolvida por Carlos Lamas que era o diretor da emissora no período”.

Além da censura podemos dizer que a Rádio Educadora de Natal recebeu influência norte-americana na sua grade de programação musical, mas também foi uma divulgadora dessa cultura ao passo que disponibilizava para seus ouvintes a música e alguns vocábulos estrangeiros através da locução.

Entra agora nessa história um sujeito chamado Assis Chateaubriand, apontado por alguns como o “Rei do Brasil”, e conhecido pelos íntimos por “Chatô”.  No ano de 1944, ele compra a REN e a transforma em Rádio Poti. Com outra denominação e fazendo parte do conglomerado midiático de Chateaubriand que na época continha jornais impressos em várias cidades brasileiras, algumas revistas e poderosas estações de rádio, a pioneira emissora do estado recebe modificações. Dentre elas destacamos a construção de um primeiro andar, o aumento do palco onde eram apresentados os programas de auditório e a retirada do vidro que dividia a platéia e o palco, fato que promoveu um melhor tratamento acústico e tornou a comunicação, efetivamente, bidirecional, tendo em vista que o público além de ouvir a própria voz dos emissores, podia interagir facilmente com os locutores.

Mas não pensem que foi só a estrutura física que mudou da passagem da REN para Rádio Poti. Com o título de Rádio Associada, a emissora recebia a presença de muitos cantores nacionalmente conhecidos como: Vicente Celestino, Isaurinha Garcia, Ângela Maria, a famosa orquestra de Agostin Lara, Josefine Backer, Afonso Ortiz Tirada – cantor mexicano, Gregório Barros, Marisa Matarazzo, Linda Batista, Dircinha Batista, Orlando Silva, Gilberto Alves, Carlos Silva, Caubi Peixoto, Frei José Mojica – que era tenor, Gilberto Alves e muitos outros.

A Rádio Poti para poder transmitir programas de auditório, humorísticos, jornalísticos, musicais, radionovelas e outros, possuía um elenco de profissionais, enquadrados nos Departamentos: artístico, jornalístico e administrativo, chamado de o “cast” da Poti. Os locutores da emissora eram os responsáveis em transmitir informações jornalísticas ou de entretenimento, recebiam designações diferentes, correspondendo ao local onde o programa era apresentado, tinha o “locutor de cabine” que comunicava dentro do estúdio; o “locutor de externa” que fazia transmissões fora da emissora e o “apresentador” ou “animador” que comandava programas diretamente do auditório. Alguns comunicadores apresentavam programas nas três condições citadas. Dentre os profissionais da locução destacaram-se: Genar Wanderley – “o cacique do ar” porque era o mais antigo na emissora, Luís Cordeiro, Wanildo Nunes, Fonseca Júnior, Lurdes Nascimento, Teixeira Neto, Roberto Ney, José Alcântara Barbosa, Pedro Machado, Marcelo Fernandes, Edimilson Andrade e Paulo Ferreira, Manoel Fernandes de Oliveira e Aluízio Menezes.
No setor musical destacamos os cantores cujo sucesso se dava, principalmente, através dos programas de auditório que atraíram muitos natalenses para o palco da Rádio Poti. Compondo o “cast” de cantores estavam: Marly Rayol, Zilma Rayol, Agnaldo Rayol – ícone da música brasileira, Glorinha Oliveira, Paulo Tito, Marisa Machado, Zezé Gomes, Ademilde Fonseca, Silvio Caldas, Terezinha Maia, Jacinto Maia, Anto de Almeida, Ubaldo Lima, entre outros. Ainda nesse setor, a emissora possuía orquestras de Salão, de Jazz, o Quinteto de Cordas e o Regional. A Orquestra de Salão apresentava em torno de sete violinos, dois violoncelos, nove pianos, dez contrabaixos, quatro saxofones, três pistões e dois trombones, destacando Mário Tavares como um dos maiores violoncelistas do Brasil.
O Quinteto de Cordas, chamado de “Alberto Maranhão”, tocava música de câmera, sendo composto por: Eider Furtado, Raimundo Ferreira, Mário Tavares, Pedrinho Duarte e Calazans. Entre os que compunham o Regional estavam: Gil Barbosa, Duca Nunes, Zacarias, Antônio Rosalina e Tilo Lopes, sendo dirigido por algum tempo por Caximbinho, que era da orquestra de Severino Araújo – Orquestra Tabajara. Apesar de transmitir muitas musicas ao vivo, através das orquestras e dos cantores que a Poti dispunha de discotecários: João Maria Freire e Marcolino, responsáveis pela seleção musical dos programas exclusivamente musicais.
O “cast” de radioteatro da Poti concedeu aos natalenses muitas emoções. Os chamados radioatores ou radioatrizes, na maioria das vezes, exerciam outras funções na Rádio Poti além de interpretar. O sucesso e a magia dos enredos não serão contados neste momento, mas é importante que você, leitor, conheça os nomes de alguns intérpretes das radionovelas: Zilma Rayol, Alba Azevedo, Francisco Ivo Cavalcanti, Marly Rayol, Clarice Palma, Lurdinha Lopes, Wanildo Nunes, Fonseca Júnior, Lurdes Nascimento, Teixeira Neto, Ernani Roberto Ney, Glorinha Oliveira, Luis Cordeiro, Genar Wanderley, Nilson Freire, Sandra Maria e Aníbal Medina.
Ao desembarcarmos desse passado encantador, vemos logo que ele não inspirou o presente radiofônico, haja vista que as emissoras AM’s ou FM’s de hoje não dispõem de toda essa variedade profissional tampouco conteudística. Mas, deixemos para depois as comparações, o fato é que a primeira emissora do Rio Grande do Norte surgiu a partir de um desejo popular e de esforços de idealizadores, contou com a uma extensa equipe de profissionais apaixonados pelo veículo e transmitiu a sociedade natalense uma programação diversificada, no modelo das principais emissoras do país. Acredito que depois dessa reconstituição histórica da emissora REN / Rádio Poti e dos seus profissionais, esteja esperando a descrição e análise dos programas transmitidos pela emissora, entretanto, essa é uma história para o próximo capítulo.
Referências:
AVELINO, Carmem Daniella S. H. A imprensa natalense na Segunda Guerra Mundial: uma análise da cobertura da guerra pelo jornal “A República” (1942-1943). Natal, 2003. Monografia da Especialização em Comunicação e Estudos da Mídia, Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, Universidade Potiguar.
LIMA, José Ayrton. História do Rádio no Rio Grande do Norte. Natal: Edição Coojornat, 1984.
MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil. 3. Edição. São Paulo, 1994.
[1] Artigo produzido com base no III capítulo da monografia “A Rádio Poti na ‘era de ouro’ da radiofonia potiguar: a narração de uma história”, de Edivânia Duarte Rodrigues, orientação do Prof. Dr. Adriano Lopes Gomes, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

 

4 respostas
  1. Elaine Duarte Rodrigues says:

    Parabéns, seu texto é perfeito.
    Continue sempre assim!!

  2. carlos augusto senra says:

    Caros amigos, Por ter sido convidado para ir a Natal e cidades que terão participação na filmagem AS MENINAS DO ARARIPE, como jornalista para transmitir para a TVRIOWEB.com , fui perguntar a minha mãe o que o meu pai tinha feito em Natal no final dos anos 30 e inicio de 40, tendo dito que ele tinha montado a rádio RCA, e após pesquisar e chegar nessa página, o nome do meu pai não aparece nessa história acima, ele se chamava Oswaldo Senra,
    mas a referida rádio está correta, Rádio RCA, mas não diz o técnico que montou, que foi o meu pai. Bem como vcs são informativos também, passo o nome do site que fala das cidades em natal que será filmado AS MENINAS DO ARARIPE, sobre a prostituição infantil, veja no site jovenscineasta.org as cidades da filmagem e fala sobre a minha pessoa,
    O jornalista e apresentador Karlynhos Senra vai viajar com nossa equipe para produzir o programa direto para o Grupo TV Rio, televisão na web

    Carlos Augusto Senra, brasileiro, nascido no Rio de Janeiro em 26 de setembro de 1945, na cidade do Rio de Janeiro, depois de passar pelas carreiras de ator, produtor, diretor de teatro, músico, radialista e advogado, resolveu atuar somente na profissão de Jornalista. Vale ressaltar que participou como advogado na fundação de algumas Associações como Presidente na Associação dos Defensores Dativo da Justiça Federal de 1ª Instância em 1990; na Associação dos Advogados da Vara de Execuções Penais em 1994; na Associação Cultural Beco do Bragança em 2002 e do Jornal Blacknews em 1996, e após estudar na Faculdade de Comunicação Estácio e Unisuam, resolveu criar o Grupo TV Rio, televisão na web, acreditando no futuro melhor. Senra como gosta de ser chamado entrou para o Projeto Jovens Cineastas com o objetivo de contribuir na divulgação do nosso trabalho social.

    Obrigado pela atenção, desejando sucesso para a rádio, que o meu pai contribui para montar.

    Karlynhos Senra

  3. PEDRO THOMAZ DE ALMEIDA JUNIOR says:

    Belíssimas histórias! parabéns….

    Gostaria de escrever, a pedidos de familiares, sobre uma pessoa que se chamava Maria do Carmo Santiago, moradora por muitos anos, nas décadas de 40 e 50 no bairro de cidade alta, mais precisamente na rua Pitimbu; ela era professora,infelizmente ficou paralítica aos 09 anos, mas mesmo assim,lecionava para alunos que tinham dificuldade no colégio Eimard L.Monteiro, que ficava na Rua apodi, bairro Tirol, e tantos outros que tinham dificuldade nas matérias.Registro tal fato porque, tive conhecimento de que ela era muito conhecida na cidade de Natal, e venho comunicar seu falecimento na data de hoje, na cidade de Itú/SP.O sonho dela era um dia poder voltar e encontrar seus alunos, mas infelizmente não foi possível.Abraços a todos

  4. Maria das Graças de Menzes Venâncio says:

    Admirável o trabalho para manter a memória da Rádio Poti. No entanto, senti falta da Orquestra de Waldemar Erneto da qual fazia parte meu pai José Venâncio, Arnaldo Toscano, Seu Mainha, Seu França e outros.

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