Rádio só tem um ouvinte

O fato do rádio só ter um ouvinte enfraquece ou fortalece a importância desse meio de comunicação? O rádio sempre só teve um ouvinte? E quando a turma se reúne para acompanhar uma partida de futebol, como é que fica? O rádio sempre foi um meio de comunicação de um ouvinte só? Em duvida? Então leia o artigo de José Paulo Lanyi que selecionamos para você.
Da Redação

José Paulo Lanyi (*)
(Baseado em fatos reais)

Profissional 1 (editor-chefe de um novo programa de rádio e oriundo da TV):
-Olha, muda aí, “você vai ouvir” pra “vocês vão ouvir”.
Profissional 2 (especialista em rádio):
-Mudar pra quê?
Profissional 1:
-Muda, a gente tá falando pra várias pessoas.
Profissional 2:
-Claro, eu sei, mas em rádio não se usa plural pro ouvinte, isso é básico.
Profissional 1:
-Em TV a gente usa os dois, singular e plural. Qual é o problema?
Profissional 2:
-Bicho, rádio é “eu e você”. Não tem essa história de falar pra um monte de gente.
Profissional 1:
-Como não? Tá louco?
Profissional 2:
– Meu amigo, você já viu alguém dizer: “Bom, pessoal, é hora de ouvir rádio!” ou “Vamos todos ouvir rádio agora”? Isso não existe!
Profissional 1:
-Já ouvi, sim.
Profissional 2:
-Quando?
Profissional 1:
-Na hora do futebol.
Profissional 2:
-Isso é exceção, eu falo de programa. Imagina a cena. Todo mundo na sala, batendo papo, de repente um cara diz: “Fulana, pega o rádio, vamos lá no quarto ouvir o programa do Bolota Júnior”.
Profissional 1(rindo):
-Bolota Júnior?
Profissional 2 (diverte-se):
-É, Bolota Júnior, nome fictício. Um amigo meu usou na novela dele.
Profissional 1:
– Sei… E aí?
Profissional 2:
-Ninguém faz isso, bicho, ninguém convida ninguém pra ouvir rádio hoje em dia.
Profissional 1:
– Ah, mas nos confins do Brasil…
Profissional 2:
– Nos confins do Brasil é televisão, meu amigo! Televisão. Nego não tem grana pra comprar comida, não tem banheiro, mas tem televisão. Tem rádio também, mas esse não é o ponto, não tem isso de convidar pra ouvir. Se acontece é raro, é exceção, e exceção não conta.
Profissional 1:
– Tudo isso por causa de um plural.
Profissional 2:
– Pra você é bobagem porque não conhece o veículo, desculpa a sinceridade. O cara que ouve rádio ouve sozinho, no carro, na cozinha, o cara tá sempre fazendo outra coisa. O rádio é o companheiro, é a outra ponta do diálogo, entendeu? O ouvinte tá na rua, no trabalho, no raio-que-o-parta, tá sempre ocupado, você tem que chamar a atenção dele, o cara não pára só pra ouvir. (ironiza) Bom, só na hora da oração da Ave-Maria, né. Aí, sim, o cara pára tudo. Mas sozinho. Não é missa, é falar com a santa, entendeu? 
Profissional 1:
-Tá legal, deixa no singular mesmo.  
Profissional 2:
-Beleza.
Profissional 1:
-Me diga uma coisa.
Profissional 2 (saindo):
-Fala. 
Profissional 1:
-Você ouve a Ave-Maria?
Profissional 2 (bem-humorado):
– Às vezes…
(sai)
(*) Jornalista, escritor, ator, é autor de quatro livros, um deles com o texto teatral “Quando Dorme o Vilarejo” (Prêmio Vladimir Herzog). No jornalismo, tem exercido várias funções ao longo dos anos, na allTV, TV Globo, TV Bandeirantes, TV Manchete, CNT, CBN, Radiobrás e Revista Imprensa, entre outros. Tem no currículo vários prêmios em equipe, entre eles Esso e Ibest, e é membro da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes).
Nota da Redação: a matéria foi publicada no site: http://www.comunique-se.com.br/ 


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