Radiojornalismo de vanguarda (parte 3)

O Brasil viveu nos anos de 1950 um período de liberdade como poucos em sua história. E nessa fase a imprensa e o rádio tiveram papel de notável importância. Exercia-se a atividade de comunicação com a força e o ímpeto dos gladiadores. Era o que o espírito brincalhão do popular batizou de “guerra de foice no escuro”. Olhando hoje à distância, pode parecer exagero. Mas, não era. Era isto sim, a prova de fogo dos dois jovens e inexperientes Walter e Adolfo Zigelli.
 Por Antunes Severo

Walter Zigelli, em depoimento para o livro A História do Rádio em Santa Catarina, lembra desta passagem reveladora ocorrida nos estúdios da Rádio Catarinense de Joaçaba: “Numa ocasião estava no estúdio o candidato do PSD a prefeito e o Adolfo terminou o programa mais ou menos assim: ‘Senhoras e senhores, vocês acabaram de ouvir UDN em Marcha. Aqui nós estamos absolutamente interessados na verdade etc… Logo mais vocês ouvirão a palavra daqueles eternos enganadores do povo’”.  Era o calor da política incendiando os ânimos dos profissionais em fase de formação e amadurecimento profissional.
Os irmãos Zigelli foram ‘temperados’ no caldeirão de confrontos de idéias, atitudes e atos das lideranças políticas que ditavam os destinos da população catarinense. Cegamente defendiam os ideais pregados pela UDN – a União Democrática Nacional. Dessa época é outro radialista e político de Joaçaba. Nelson Pedrini, filho de tradicional família pessedista, por sua vez só conseguia ver o lado positivo das idéias de seu partido. Walter, Adolfo e Nelson têm mais ou menos a mesma idade, estudaram juntos e foram amigos, embora mantendo as diferenças políticas.


Cada edição do programa A Marcha dos Acontecimentos é precedida da leitura dos principais jornais diários. Na primeira hora os locais e após as 10 horas os do Rio, São Paulo e Porto Alegre. Na foto de 1956, Adolfo e Walter Zigelli na redação da rádio Diário da Manhã.

Pedrini, em depoimento para o livro Caros Ouvintes – Os 60 anos do Rádio em Florianópolis, relembra os tempos de convivência e os caminhos políticos diversos vividos em Porto Alegre: “Lembro perfeitamente que o Adolfo já era uma inteligência fulgurante. Era se não o primeiro um dos primeiros da sala de aula e já denotava, pelo seu espírito irrequieto, pela sua persistência, o homem de rádio, o político, o comentarista, o cronista que viria a ser anos após”.
Com o falecimento do pai em 1953, os irmãos Zigelli abandonam os estudos e voltam para Joaçaba. Para se manter começam a trabalhar na Rádio Catarinense e no jornal Cruzeiro do Sul. Em pouco tempo cada uma assume a gerência dos dois veículos de comunicação. Valter no jornal e Adolfo na rádio. “E aí começa o grande momento da vida de rádio e vida pública do Adolfo Zigelli fazendo programas de auditório, radiojornalismo e comentários políticos na ZYC-7”.


Contemporâneos Norberto Ungaretti e os irmãos Walter e Adolfo Zigelli, udenistas
“rachados”, integravam a jovem equipe do governador Jorge Lacerda.

Segundo ainda ao depoimento de Nelson Pedrini, um acontecimento mudou radicalmente a trajetória dos irmãos Zigelli em 1955: “Acontecia a eleição para o governo do estado de Santa Catarina. Era candidato pelo PRP – Partido de Representação Popular – com o apoio da UDN, o também jornalista, advogado e médico Dr. Jorge Lacerda, e era candidato pela Aliança PSD/PTB, Francisco Benjamim Gallotti. Não havia até então o cargo de vice-governador. Aliás, nesse ano foi eleito pela primeira vez um vice-governador. Concorreu para vice-governador pela chapa de Francisco Benjamim Gallotti o Dr. José de Miranda Gomes, que foi deputado estadual e pela chapa do Dr. Jorge Lacerda o Dr. Heriberto Hülse – daí a razão do Dr. Heriberto Hülse vir a ter sido Governador do Estado com a morte trágica e prematura de Jorge Lacerda no dia 16 de junho de 1958”.
Narrador: (Revivendo) – De fato, a vida dos irmãos Zigelli, a partir da chegada na Capital toma novos rumos e os leva a desafios insuspeitáveis. Aliás, tudo parecia ter proporções gigantescas. A repercussão do programa a Marcha dos Acontecimentos ouvido em todo o estado e grande parte do Brasil, o clima de trabalho no palácio do governo onde a formalidade da burocracia convencional seguidamente era quebrada pela descontração com que o governador tratava os seus assessores mais próximos e dois anos depois a morte inesperada do governador num acidente de avião.
Em entrevista concedida ao jornalista Raul Caldas Filho, de O Estado, em 1975, quando secretário de Imprensa do governo de Antônio Carlos Konder Reis, Adolfo Zigelli reafirma a sua paixão pelo jornalismo político.

:: Nelson Pedrini escreve atualmente sobre política no Jornal A Notícia, de Joinville.
:: Veja as fontes de referências nas partes 1 e 2 desta série publicadas nas semanas anteriores.


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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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