Radiojornalismo de vanguarda (Parte 8)

Caro companheiro de jornada nesta série de lembranças de coisas que passaram, mas que continuam vivas. Somente a introdução do que compete ao redator de notícias é suficiente convite à meditação do que o profissional de comunicação deve ter como fundamento de sua atividade. Mais importante ainda é que em Adolfo Zigelli essas recomendações vão além de simples sugestões. São, na verdade o evangelho em que ele acredita e como ele o pratica.
Por Antunes Severo

Para Adolfo Zigelli, um redator de notícias é o filtro de um complexo de informações. Deve saber intuitivamente o que é mais importante. Não redige aquilo que pode parecer mais importante, mas aquilo que é realmente importante. É um bandeirante que penetra pelos campos fascinantes da notícia, dando-lhe a sua personalidade, burilando-a, cuidando dela como o joalheiro cuida do seu brilhante. A notícia deve sair da redação como jóia burilada, sem nenhum defeito. Sem palavras supérfluas, sem considerações irrelevantes. Deve constituir-se numa fórmula, acrescentada ela a personalidade do redator.
A fórmula é simples e clara: 3Q+CO+O+p = Notícia. Didático, Zigelli insiste: Lembre-se, sempre, dessa fórmula. Responda a estas perguntas: Que? Quem? Quando? Como? Onde? Por quê? E você terá a notícia. E concluía: Desses elementos, destaque, na primeira frase, o mais sugestivo, capaz de interessar imediatamente o ouvinte. Antes de dizer que na rua tal, Fulano de Tal matou cicrano de tal, lembre-se do impacto e comece assim:
Florianópolis – (AZ) – Com um tiro na cabeça o senador Silvestre Péricles…
Desenvolva a notícia segundo a ordem decrescente de importância e atualidade de cada pormenor. Lembre-se que rádio é atualidade. Jamais use as palavras ontem e anteontem, salvo se para acrescentar um detalhe. Nunca use a expressão ontem quando estiver contando um fato pela primeira vez.
E a lista de recomendações segue, na mesma balada, derrubando por terra os principais lugares-comuns das redações arcaicas:
:: Escreva o mínimo. Dê o máximo de informação.
:: Conte o fato com boa gramática, sem pompa e sem afetação.
:: Mãe é mãe e não genitora.
:: Quem volta não regressa.
:: Doença não é enfermidade.
:: Advogado não é causídico.
:: Médico não é esculápio.
:: Churrascada, necessariamente, não é suculenta.
:: Catarinense não é ilustre conterrâneo.
:: Data não é efeméride.
:: Morte não é passamento.
Não use expressões como “segundo informou o mesmo”, ou “disse que o mesmo estava” ou ainda “disse o referido”.
:: Abraço não é amplexo.
:: Deitado de costas não é decúbito dorsal.
Evite o pernosticismo de expressões do jargão profissional, salvo aqueles já correntes na linguagem.  
:: “Furo de reportagem” é coisa do passado.
Grandes jornalistas há diversos. Que são ou que se julgam. Bons jornalistas, muito poucos. Verdadeiros jornalistas, quase nenhum. Seja um deles.
O horário legal é de cinco horas. Mas só se é jornalista 24 horas por dia.
:: Evite como a peste, as palavras desnecessárias.
Elimine os qualificativos, principalmente os tendenciosos e as frases feitas, salvo as que vão diretamente ao entendimento do ouvinte.
Evite as palavras chulas e da gíria, não incorporadas à linguagem geral. Nada de palavras preciosas e frases sensacionalistas.
:: Leia sempre a matéria que escreveu antes de entregá-la.
Freqüente dicionários, enciclopédias e outras fontes de informação e referência.
:: O catálogo telefônico é uma das melhores.
Evite fórmulas e expressões genéricas, sempre que dispuser de informação e elementos preciosos.
Não comente jamais a notícia. Se o jogo foi dois a dois, interessa apenas ao comentarista se ele foi fraco ou bom.
Nunca generalize a uma classe o que foi feito por um ou por um grupo de indivíduos.
Pensei reproduzir o manual até o seu final nesta edição. Mas, estou gostando tanto de rever estas recomendações e de relembrar os papos que se estendiam pelas madrugadas quando, muitas vezes, nos sentíamos meio solitários. Dom Quixote e Sancho Pança, não tem? Felizmente, para nós, pelo menos, as dúvidas noturnas morriam afogadas numas boas talagadas de conhaque Dreher no Bar Universal, ali no início da Jerônimo Coelho seguidas do calor reconfortante dos braços da mulher amada. Até semana que vem, de preferência com os seus comentários.


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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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