Radionovela, um desafio em cada capítulo

Alda Jacintho confessa: tenho apenas 79 anos feitos ainda há pouquinho. Não se assustem que ainda estou viva. Fazer radionovela é uma das coisas mais gostosas do mundo. É um pudim, um quindim, é um doce.
Por Antunes Severo

Disfarce e olhe. Que sorriso o da morena que aparece, sentada, em primeiro plano, bem à direita da foto. Cá pra nós, com todo o respeito, não dá pra deixar de não ver, não é mesmo?

Oh! Por favor, não se confunda. Ela é adulta, emancipada, alfabetizada e fala inglês fluentemente. Nascida aqui mesmo na Ilha, tem profissão, emprego e endereço nesta cidade que também responde pelo codinome de Florianópolis. O nomão da cidade, desse tamanho e com esse tom onomatopaico de Flor-I-Anópolis disfarça, na verdade, outras revelações que os historiadores andam bisbilhotando, no bom sentido, claro.

Esta morena vestida de branco, colar e brincos combinando, é Alda Jacintho. Com th. Ela é funcionária dos correios por profissão e radioatriz por opção. É irmã do também radialista, locutor e professor de inglês, Atos Jacintho e é filha do seu Antônio e de Dona Áurea. Esse detalhe convém anotar porque é importante. Para convencer a família de que trabalhar em rádio não é nenhuma desonra, foi uma batalha. Era o início da década de 1950.

A oportunidade de fazer um papel, interpretar uma personagem, num capítulo de novela, diz-se que foi meio por acaso. “Eu tinha amigas que trabalhavam em novelas na Guarujá e um dia me convidaram para fazer uma “ponta”. Fazer uma ponta, uma pequena participação, duas três falas num capítulo. Pode parecer fácil, sem importância. Para a principiante era como caminhar numa nebulosa planetária e difusa. Mesmo assim, meio sem jeito, aceitou. O fascínio do rádio foi maior do que o medo do desconhecido.

Atenção. Vamos começar. Falta um minuto. Silêncio. O contra-regra fecha a porta do estúdio, o som da emissora verte dos alto falantes internos e enche a sala.

Em pé: Felix Kleis, Nazareno Coelho, Edgard Bonassis, não identificado e Manoel Passos. Sentados: Janine Lúcia, Lígia Santos, Aldo Silva, Cacilda Nocetti e Alda Jacintho.

Papel na mão que insistia em tremer, Alda mal percebe a presença dos colegas. Toda atenção está voltada para o locutor do horário posto à frente do microfone.

Toca a campainha. Que susto. “O que ouve?” É o sinal de “microfone ligado”. Simultaneamente acende a luz e clareia o aviso “No Ar!” “Ai meu Deus do céu. Aonde é que eu fui me meter?” A pergunta fica sem resposta.

Entra a música, vai a BG[2] e o locutor anuncia:

Senhoras e senhoritas. Neste momento vai ar pela ZYJ-7, Rádio Guarujá de Florianópolis, a mais popular, mais um capítulo da emocionante novela Suplício de uma Alma.

O mundo gira, as luzes se fundem, a sonoplastia se mistura com o ar do estúdio e a temperatura parece sufocar. A radioatriz estreante vive o momento mágico de transposição do umbral da realidade para o sonho.

O fundo musical volta a subir, desaparece a voz do locutor e uma outra voz surge firme e ao mesmo tempo acolhedora. É o diretor de radioteatro:

– Pessoal, enquanto roda a propaganda, vamos nos concentrar. A novela é ao vivo e nós não podemos errar. Bom trabalho.
– Atenção. Silêncio. Novamente o contra-regra.

Alda respira aliviada. “Isto não é um sonho. Isto é real. Eu estou aqui no estúdio e a novela vai começar”.

Volta a seqüência: Campainha, luz, No Ar!

Narrador: No capítulo anterior Mariana jura de morte o tio Albano que se opõe ao romance que ela mantém com Sílvio que é seu primo. Sílvio pensa ter sido criado pelo tio, mas na realidade, é seu filho. Não sabe ele que Albano é também o pai de Mariana.

Sob e baixa o fundo musical que é o tema da novela. Começam os diálogos intercalados por interjeições, sorrisos, mágoas, raivas, carinhos, choros e silêncios.

Alda aparenta tranqüilidade, mas não está à vontade. Transpira, quer tossir, a respiração está ofegante. O tempo, o tempo que não passa… E a minha fala que não vem. Meu Deus do céu quando é que chega a minha vez? Num instante volta à realidade. A voz sussurrada do contra-regra, ao seu ouvido, alerta “Atenção! Agora você entra”. Mal acaba de ouvir e soam as palavras fatais. Era a “deixa” do diálogo anterior. Deixa que ela decorara para saber quando entrava, mas que já não lembrava como era.

“Oh! Meu Deus! Protegei-me!” E Deus estava lá. A fala saiu firme, tranqüila e suave como pedia o papel.

Alda não saiu do estúdio. A emoção era muito forte. Pensou “vou esperar o final do capítulo para sair junto com os outros”. E foi bom. Todos queriam cumprimentá-la. Estava aprovada. Era a mais nova radioatriz do elenco pioneiro da Rádio Guarujá.

Bate pronto

Ricardo Medeiros – Você continuou fazendo pontas?

Alda – Não. Para mim, com raras exceções, sempre foram reservados papéis de destaque. Cheguei a fazer quatro papéis em uma única novela. Eu era a filha, a mãe, a governante e a diretora do colégio.

Ricardo – Você era a mocinha?

Alda – Ora era eu, ora era a Neide Maria. A gente se revezava.  Nem sempre foi assim. Numa certa ocasião eu aceitei interpretar uma moça pobre que seqüestrara um acriança de dois anos, em troca de dinheiro. O telefone da Rádio Diário da Manhã não parou. Houve também uma enxurrada de cartas. Ninguém se conformava.

Ricardo – Com quem mais você contracenou?

Com a Neide Maria, o Rozendo Lima, o Edgard Bonassis, a Cacilda Nocetti, o Zininho, o Aldo Silva, o Hélio Rosa, Félix Kleis, o Waldir Brazil, a Janine Lúcia… São tantos e tão queridos.

Nota do editor: Alda Jacintho faleceu na última segunda-feira, dia 03/07/2004.

[1] Com a participação de Ricardo Medeiros e Cilene Macedo.
[2] Background, expressão usada para indicar que a música é baixada e sobre ela o locutor fala.

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>> Audioteca > Entrevista Alda Jacintho

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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9 respostas
  1. Daniel Lira says:

    Olá pessoal tudo bem ?

    Meu nome é Daniel Estou no 1 ano de radio e tv, e meu grupo precisa elaborar uma radionovela de duração de 30 min.
    somos todos leigos no assunto e não sabemos nem por onde começar, será q alguém poderia me dar uma luz.

    meu grupo tem 11 pessoal e cada tem q falar algo nessa meia hora.

    Valeu galera..

    abraço.

  2. AMANDA SANTOS DA SILVEIRA LOPES says:

    Olá pessoal, pesquisando sobre radionovela encontrei o site de vcs e adorei. Em Dezembro concluirei o curso de comunicação social – jornalismo. E como estudo com meu esposo decidimos fazer um procudo para o trabalho devconclusão de curso – TCC. Vamos montar um programa de rádio – Radionovela. Falaremos sobre o retorno da radionovela e o impacto sobre o ouvinte, mexendo com a imaginação de todos.
    Como não sabemos nada sobre o assunto e tampouco temos um texto, precisamos das orientações dos nobres mestres e quam dabe um capítulo para gravarmos.
    Estudamos no UNICESP – DF
    Desde já agradeço a ajuda,
    Amanda Lopes

  3. adriana cunha braga says:

    olá,
    gostaria de uma relação dos maiores personagens das radionovelas, dou aulas de teatro em minha cidade e gostaria muito de fazer este resgate cultural!!!
    andei pesquisando e não consegui achar muita coisa, iremos apresentar na feira do livro, em nossa cidade.
    vou adorar umas dicas tbm, que pena que não nasci nesta epoca das radionovelas, é apaixonante.
    desde de já agradeço por toda a atenção!!!!
    muito obrigada!!!
    atenciosamente adriana cunha braga.

  4. Antunes Severo says:

    Olá Adriana, grato pelo contato. Sua solicitação foi encaminhada ao professor Ricardo Medeiros que fez doutorado com esse tema e tem livros pubicados especificamente da radionovela em Santa Catarina.

  5. Karina Piazenski says:

    Olá pessoal, tudo bem?

    Estou fazendo curso de Produtor Executivo em Tv e Rádio, e meu grupo precisa elaborar uma radionovela com duração de 30 min.
    Poderiam nos ajudar com algum texto pronto para adaptação? Pois, não temos muito tempo, para escrever a história.
    Meu grupo tem 04 pessoas (1 menino e 3 meninas), pode ser um texto com 3 ou 2 meninas, pois uma terá que ficar mais na produção.

    Obrigada!
    Abraços.

  6. Fernanda says:

    Boa tarde pessoal tudo bem ?

    Meu nome é Fernanda e sou acadêmica do 5° período de Artes, estou tentando montar uma radionovela de duração de 30 min, não tenho nenhuma experiência, já li um pouco sobre o assunto mas não consigo achar um texto adequado.

    Obrigada pela atenção!

  7. Antunes Severo says:

    Fernanda,

    Até o final deste mês lançaremos cursos específicos sobre o tema.
    Esperamos abrir as inscrições possivelmente na próxima semana.

    Gratos pelo contato.

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